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7 a 27 de junho de 2004

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O PORNÔ MAIS BONITO DA HISTÓRIA
Como Larry Clark transformou sua obsessão por adolescentes no erótico Ken Park

por Julio Ibelli (julio@rabisco.com.br)

arry Clark é um diretor em extrema sintonia com os efeitos colaterais decorrentes do modo de vida americano. Falar da disseminação sem controle de informação sobre os jovens sem citá-lo é “comer bola”. Peixe fora d'água? Só se for das doses cavalares com que Hollywood produz fitas convencionais e provoca overdoses de consumo de fast-movies nas pessoas. Clark é como um urso: sabe interagir com maestria em seu meio-ambiente; hiberna, dá uma sumida das vistas e retorna com gás total para, neste caso, sair a procura de mentes frescas para devorar.

Ele não costuma lançar filmes em doses medicinais ou homeopáticas. A distância com que lança novos trabalhos para o cinema pode ser comparada com a ida a uma benzedeira, ou até ainda a uma mesa branca vez ou outra, por exemplo. Clark chega para exorcizar os demônios do povo americano sempre na hora que ele mais precisa. Ou pra colocar mais pilha nas pobres cabeças residentes de Miami à Seattle, do Maine à California.

Pouco depois que o ainda candidato à presidência admitia publicamente que já havia experimentado maconha (e que depois de eleito demonstraria sua habilidade com um charuto e uma estagiária no Salão Oval), Larry presenteava o mundo com o revolucionário Kids (1995), que arrastou legiões de pré-adolescentes acompanhados dos pais para as salas de projeção. Nessa onda veio Diários de Adolescente, que contribuiu para lançar Leonardo DiCaprio ao estrelato.

Quase na mesma leva de filmes cult que trouxe Bully (2001), segundo filme da “trilogia” sem ligação narrativa sobre a problemática teen psicodélica de Clark, também chegou ao Brasil Ken Park (2002), pouco compreendido se formos avaliar as críticas feitas a seu respeito até agora. Se a conseqüência dos choques não perdurasse, então de que diabos os terapeutas estariam vivendo hoje? Crianças com pistolas matando umas às outras em verdadeiras chacinas dentro de escolas e jatos voando baixo sobre a cabeça dos nova-iorquinos ainda são motivo de consternação latente entre os americanos, ecos que ainda vão amaldiçoar por um bom tempo.

Ken Park é um garoto ruivo e sardento. Depois do que parece ser mais um habitual passeio de skate, dada a habilidade do rapaz com o carrinho, ele tira uma arma da mochila e estoura a cabeça. O filme começa banal assim, mas com todo um embasamento por trás. Aliás, é inteiro dessa forma, pretensiosamente desleixado. O pano de fundo é a ensolarada California, chuvosa quando precisa ser. Seus personagens estão mais para suburbanos de Chino do que para patrícias e playboys de Orange County.

É ainda o skate quem dá o tom da película. Ele está nos pés do personagem que mantém relações sexuais com a mãe da namorada. Também junto do filho que vê a sua rotina com a mãe em uma casa simplória ser abalada pela chegada de um padrasto pançudo e beberrão. Clark se apossa de situações e personagens antes estereotipados e inanimados para dar-lhes vida, mergulhando-os em um caldeirão de falta de educação católica. A narração das outras histórias paralelas que constituem Ken Park é a prova mais descarada e contraditória da falta de rumo, fundo de poço mesmo, em que a produção cinematográfica voltada aos jovens se meteu.

Então, eis que surge o sexo. É difícil demarcar o momento em que Ken Park descamba de seu intuito inicial, aquele de quase documentar a vida de alguns adolescentes (se é que era essa mesmo a idéia a princípio), para a filmagem sem qualquer pudor de relações sexuais entre adultos, alguns ainda com corpos de criança. Se bem que parece nunca ter sida cogitada tal tomada de rumo, já que as duas coisas surgem grudadas feito cães no cio logo depois do letreiro anunciando o filme.

Clark não parece querer destruir o mito do sexo, essa coisa suja segundo Angeli, e nem se o tivesse em mente conseguiria. A genitália masculina, que procura ser escondida ao máximo no cinema, é a grande estrela, exibida em closes generosos e em quase todas as situações. Esteja previamente alertado das cenas de nu frontal e sexo explícito que pipocam na tela. A belíssima fotografia é o antídoto para os mais recatados agüentarem até um dos finais mais estarrecedores da história do cinema erudito atual.

É por essas e outras (crítica religiosa e as habituais crianças de Larry Clark se drogando) que Ken Park vai poder ser encontrado daqui a 10 anos na prateleira de uma locadora entre o último Porky's e o mais alugado da Sylvia Saint. Está sacramentada a trivialidade da tênue linha que segrega a produção juvenil e a pornográfica.