| O PORNÔ
MAIS BONITO DA HISTÓRIA
Como Larry Clark transformou
sua obsessão por adolescentes no erótico
Ken Park
por
Julio Ibelli (julio@rabisco.com.br)

arry Clark é um diretor em extrema sintonia com
os efeitos colaterais decorrentes do modo de vida americano.
Falar da disseminação sem controle de
informação sobre os jovens sem citá-lo
é “comer bola”. Peixe fora d'água?
Só se for das doses cavalares com que Hollywood
produz fitas convencionais e provoca overdoses de consumo
de fast-movies nas pessoas. Clark é como
um urso: sabe interagir com maestria em seu meio-ambiente;
hiberna, dá uma sumida das vistas e retorna com
gás total para, neste caso, sair a procura de
mentes frescas para devorar.
Ele não costuma lançar filmes em doses
medicinais ou homeopáticas. A distância
com que lança novos trabalhos para o cinema pode
ser comparada com a ida a uma benzedeira, ou até
ainda a uma mesa branca vez ou outra, por exemplo. Clark
chega para exorcizar os demônios do povo americano
sempre na hora que ele mais precisa. Ou pra colocar
mais pilha nas pobres cabeças residentes de Miami
à Seattle, do Maine à California.
Pouco depois que o ainda candidato à presidência
admitia publicamente que já havia experimentado
maconha (e que depois de eleito demonstraria sua habilidade
com um charuto e uma estagiária no Salão
Oval), Larry presenteava o mundo com o revolucionário
Kids (1995), que arrastou legiões
de pré-adolescentes acompanhados dos pais para
as salas de projeção. Nessa onda veio
Diários de Adolescente, que
contribuiu para lançar Leonardo DiCaprio ao estrelato.
Quase
na mesma leva de filmes cult que trouxe Bully
(2001), segundo filme da “trilogia” sem
ligação narrativa sobre a problemática
teen psicodélica de Clark, também chegou
ao Brasil Ken Park (2002), pouco compreendido
se formos avaliar as críticas feitas a seu respeito
até agora. Se a conseqüência dos choques
não perdurasse, então de que diabos os
terapeutas estariam vivendo hoje? Crianças com
pistolas matando umas às outras em verdadeiras
chacinas dentro de escolas e jatos voando baixo sobre
a cabeça dos nova-iorquinos ainda são
motivo de consternação latente entre os
americanos, ecos que ainda vão amaldiçoar
por um bom tempo.
Ken Park é um garoto ruivo e sardento. Depois
do que parece ser mais um habitual passeio de skate,
dada a habilidade do rapaz com o carrinho, ele tira
uma arma da mochila e estoura a cabeça. O filme
começa banal assim, mas com todo um embasamento
por trás. Aliás, é inteiro dessa
forma, pretensiosamente desleixado. O pano de fundo
é a ensolarada California, chuvosa quando precisa
ser. Seus personagens estão mais para suburbanos
de Chino do que para patrícias e playboys de
Orange County.
É ainda o skate quem dá o tom da película.
Ele está nos pés do personagem que mantém
relações sexuais com a mãe da namorada.
Também junto do filho que vê a sua rotina
com a mãe em uma casa simplória ser abalada
pela chegada de um padrasto pançudo e beberrão.
Clark se apossa de situações e personagens
antes estereotipados e inanimados para dar-lhes vida,
mergulhando-os em um caldeirão de falta de educação
católica. A narração das outras
histórias paralelas que constituem Ken
Park é a prova mais descarada e contraditória
da falta de rumo, fundo de poço mesmo, em que
a produção cinematográfica voltada
aos jovens se meteu.
Então, eis que surge o sexo. É difícil
demarcar o momento em que Ken Park
descamba de seu intuito inicial, aquele de quase documentar
a vida de alguns adolescentes (se é que era essa
mesmo a idéia a princípio), para a filmagem
sem qualquer pudor de relações sexuais
entre adultos, alguns ainda com corpos de criança.
Se bem que parece nunca ter sida cogitada tal tomada
de rumo, já que as duas coisas surgem grudadas
feito cães no cio logo depois do letreiro anunciando
o filme.
Clark
não parece querer destruir o mito do sexo, essa
coisa suja segundo Angeli, e nem se o tivesse em mente
conseguiria. A genitália masculina, que procura
ser escondida ao máximo no cinema, é a
grande estrela, exibida em closes generosos e em quase
todas as situações. Esteja previamente
alertado das cenas de nu frontal e sexo explícito
que pipocam na tela. A belíssima fotografia é
o antídoto para os mais recatados agüentarem
até um dos finais mais estarrecedores da história
do cinema erudito atual.
É por essas e outras (crítica religiosa
e as habituais crianças de Larry Clark se drogando)
que Ken Park vai poder ser encontrado
daqui a 10 anos na prateleira de uma locadora entre
o último Porky's e o mais
alugado da Sylvia Saint. Está sacramentada a
trivialidade da tênue linha que segrega a produção
juvenil e a pornográfica. 
|