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Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
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7 a 27 de junho de 2004

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O CÉU É O LIMITE PARA O LUDOV
O Rabisco troca uma idéia com a mais nova revelação do pop-rock nacional

por Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)

o adentrar pelo backstage da edição de 16 de maio do Festival São Paulo Independente (organizado pela rádio Brasil 2000 e Coordenadoria da Juventude da Prefeitura de São Paulo, com o apoio da MTV), o Rabisco se deparou com o Ludov, a atração talvez mais esperada daquela congelante tarde de outono, ainda em concentração antes de entrar no palco. A conversa teve início enquanto o guitarra Mauro Motoki passeava com um cachorro pelo camarim improvisado e a vocalista Vanessa estava entretida fazendo a sua maquiagem.

Banda questionada sobre alguma vantagem de contar com um vocal feminino, o baixista Eduardo acaba entregando: “Rola uma empatia maior”. Ele complementa, dizendo que esse certo trunfo deve-se também à existência do grande número de bandas com vocalistas homens, mas principalmente, ao fato da maior parte dos integrantes estarem ouvindo grupos como 10000 Maniacs e Cranberries (que têm mulheres como vocalistas), ainda na época de Maybees, banda que deu origem ao Ludov.

Sobre a passagem para Ludov, eles também querem deixar claro que não foi uma coisa arquitetada. “Maybees acabou e Ludov começou”, natural assim, como explica Vanessa. Com as possibilidades da antiga banda esgotadas com sua gravadora e o baterista indo para o exterior, as letras cantadas em inglês pelo Maybees começaram a ser substituídas pelas primeiras composições em português que deram origem ao Ludov.

A curiosidade provocada pelos três ou quatro meses depois do fim do Maybees, deu lugar à aprovação quando o Ludov surgiu. “Os amigos têm um papel importante nessa hora”, diz Vanessa. Com a chegada de Paulo 'Chapolin' na bateria, único integrante que não era do Maybees, o Ludov colocou na praça bem no começo de 2002 o EP Dois A Rodar, com seis músicas e dois hits: “Princesa” e a música de mesmo nome do cd. Sucesso de crítica e público, o disco é um dos pilares que sustentam a superprodução do cenário independente e fazem as grandes gravadoras se borrarem de vergonha.

Mauro Motoki, responsável por guitarra, teclado e vozes adicionais, divide as composições com Vanessa e Habacuque Lima, que considera estranho ter os cinco integrantes da banda tocando uma música composta por só uma pessoa. Eles vêm tentando chegar ao que consideram a fórmula ideal: contar com todos compondo, apesar de Vanessa ainda citar a dificuldade que se é criar música em um conjunto não muito pequeno de pessoas. “Acaba sendo o ponta-pé inicial de alguém e todo mundo faz o gol”, ela emenda bem.

Quanto à comparação com os Los Hermanos e a acusação branca de terem saído como mais um sub-produto da tendência em voga de se misturar MPB a guitarras, Vanessa defende sua banda dizendo que eles não correm atrás dessa bola. Eduardo levanta uma outra: “Eu acredito um pouco nesse inconsciente - ou consciente - coletivo, das pessoas estarem ligadas às mesmas coisas e vendo o que dá pra misturar. É algo que está meio no ar”. Em visita à casa de Marcelo Camelo, os integrantes do Ludov acabaram se deparando com discos de artistas por quem eles também mantêm admiração, como Caetano, Gil e coisas latinas, como Los Fabulosos Cadillacs. Ou seria ainda a mudança de gosto dos integrantes da banda, que se afinava mais na época de Maybees.

Mas a passagem mais esperada pelos integrantes do Ludov ainda está para acontecer. Habacuque, guitarra, revela que a independência da banda não é escolha, e sim conseqüência. Como nenhuma gravadora se interessou pelo trabalho do grupo, eles acabaram encontrando na cena indie um local para fazer e tocar música e ainda conseguir sair do anonimato, isso enquanto um convite grande não surge. “Fazendo isso sem querer, o Ludov vem dado muito certo”, ele complementa.

Está fora de cogitação nos planos do Ludov carregar a bandeira da independência. Eles não abrem mão de continuar a batalhar um contrato com uma gravadora, o que consideram importante inclusive pelo intercâmbio com outras bandas e a estrutura que uma empresa poderia trazer para shows e planejamento de carreira. “Nosso trabalho é fazer música. A gente teria se destacado mais se tivesse uma equipe fazendo isso [cuidando da divulgação] pela gente”, é o que declara Vanessa.

Mas também não cospem no prato onde comem. Segundo Habacuque, o lance é “achar o caminho bom para fazer música boa”. Sinal dos tempos, pouco importa se é preciso uma gravadora ou não para tal atualmente. “A maior visibilidade do cenário independente é conseqüência natural da indústria incompetente”, explica Vanessa, que ainda cita o lançamento das mesmas fórmulas pelas majors ao invés de coisas novas, e questiona se o lucro das gravadoras não estaria sendo melhor empregado se lançasse bandas inéditas ao invés de combater a pirataria. “Uma hora eles aprendem”.

Como verdadeiros autodidatas da música, quem parece ter muito pouco a aprender é o Ludov. A banda era a mais concorrida pelos espectadores na grade que os separava da área reservada aos artistas e à produção do Festival São Paulo Independente. A resposta mais efusiva do público presente era para os anúncios de show da banda. Já no palco, o Ludov era acompanhado por um coro de vozes que podia ser ouvido de longe. Foram os mais aplaudidos e, com certeza, a banda que mais atraiu o grande número de pessoas que estavam no vão livre da estação Brás do metrô naquele domingo.

Com a lição na ponta da língua, agora o trabalho tem que continuar. A agenda de shows é agitada, a banda tinha acabado de voltar do sul do país, onde tocou na mesma noite que o Pixies no Curitiba Pop Festival. Prometendo ainda um segundo disco com mais músicas, o Ludov deixa o ensinamento de ser a única banda independente de que se tem notícia há tempos, que consegue penetrar na parada do Disk MTV, praticamente fechada para jabás da indústria.