| O CÉU
É O LIMITE PARA O LUDOV
O Rabisco troca
uma idéia com a mais nova revelação
do pop-rock nacional
por
Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)

o adentrar pelo backstage da edição de
16 de maio do Festival São Paulo Independente
(organizado pela rádio Brasil 2000 e Coordenadoria
da Juventude da Prefeitura de São Paulo, com
o apoio da MTV), o Rabisco se deparou
com o Ludov, a atração talvez mais esperada
daquela congelante tarde de outono, ainda em concentração
antes de entrar no palco. A conversa teve início
enquanto o guitarra Mauro Motoki passeava com um cachorro
pelo camarim improvisado e a vocalista Vanessa estava
entretida fazendo a sua maquiagem.
Banda questionada sobre alguma vantagem de contar com
um vocal feminino, o baixista Eduardo acaba entregando:
“Rola uma empatia maior”. Ele complementa,
dizendo que esse certo trunfo deve-se também
à existência do grande número de
bandas com vocalistas homens, mas principalmente, ao
fato da maior parte dos integrantes estarem ouvindo
grupos como 10000 Maniacs e Cranberries (que têm
mulheres como vocalistas), ainda na época de
Maybees, banda que deu origem ao Ludov.
Sobre a passagem para Ludov, eles também
querem deixar claro que não foi uma coisa arquitetada.
“Maybees acabou e Ludov começou”,
natural assim, como explica Vanessa. Com as possibilidades
da antiga banda esgotadas com sua gravadora e o baterista
indo para o exterior, as letras cantadas em inglês
pelo Maybees começaram a ser substituídas
pelas primeiras composições em português
que deram origem ao Ludov.
A curiosidade provocada pelos três ou quatro
meses depois do fim do Maybees, deu lugar à aprovação
quando o Ludov surgiu. “Os amigos têm um
papel importante nessa hora”, diz Vanessa. Com
a chegada de Paulo 'Chapolin' na bateria, único
integrante que não era do Maybees, o Ludov colocou
na praça bem no começo de 2002 o EP Dois
A Rodar, com seis músicas e dois hits:
“Princesa” e a música de mesmo nome
do cd. Sucesso de crítica e público, o
disco é um dos pilares que sustentam a superprodução
do cenário independente e fazem as grandes gravadoras
se borrarem de vergonha.
Mauro
Motoki, responsável por guitarra, teclado e vozes
adicionais, divide as composições com
Vanessa e Habacuque Lima, que considera estranho ter
os cinco integrantes da banda tocando uma música
composta por só uma pessoa. Eles vêm tentando
chegar ao que consideram a fórmula ideal: contar
com todos compondo, apesar de Vanessa ainda citar a
dificuldade que se é criar música em um
conjunto não muito pequeno de pessoas. “Acaba
sendo o ponta-pé inicial de alguém e todo
mundo faz o gol”, ela emenda bem.
Quanto à comparação com os Los
Hermanos e a acusação branca de terem
saído como mais um sub-produto da tendência
em voga de se misturar MPB a guitarras, Vanessa defende
sua banda dizendo que eles não correm atrás
dessa bola. Eduardo levanta uma outra: “Eu acredito
um pouco nesse inconsciente - ou consciente - coletivo,
das pessoas estarem ligadas às mesmas coisas
e vendo o que dá pra misturar. É algo
que está meio no ar”. Em visita à
casa de Marcelo Camelo, os integrantes do Ludov acabaram
se deparando com discos de artistas por quem eles também
mantêm admiração, como Caetano,
Gil e coisas latinas, como Los Fabulosos Cadillacs.
Ou seria ainda a mudança de gosto dos integrantes
da banda, que se afinava mais na época de Maybees.
Mas
a passagem mais esperada pelos integrantes do Ludov
ainda está para acontecer. Habacuque, guitarra,
revela que a independência da banda não
é escolha, e sim conseqüência. Como
nenhuma gravadora se interessou pelo trabalho do grupo,
eles acabaram encontrando na cena indie um local para
fazer e tocar música e ainda conseguir sair do
anonimato, isso enquanto um convite grande não
surge. “Fazendo isso sem querer, o Ludov vem dado
muito certo”, ele complementa.
Está fora de cogitação nos planos
do Ludov carregar a bandeira da independência.
Eles não abrem mão de continuar a batalhar
um contrato com uma gravadora, o que consideram importante
inclusive pelo intercâmbio com outras bandas e
a estrutura que uma empresa poderia trazer para shows
e planejamento de carreira. “Nosso trabalho é
fazer música. A gente teria se destacado mais
se tivesse uma equipe fazendo isso [cuidando da divulgação]
pela gente”, é o que declara Vanessa.
Mas também não cospem no prato onde comem.
Segundo Habacuque, o lance é “achar o caminho
bom para fazer música boa”. Sinal dos tempos,
pouco importa se é preciso uma gravadora ou não
para tal atualmente. “A maior visibilidade do
cenário independente é conseqüência
natural da indústria incompetente”, explica
Vanessa, que ainda cita o lançamento das mesmas
fórmulas pelas majors ao invés de coisas
novas, e questiona se o lucro das gravadoras não
estaria sendo melhor empregado se lançasse bandas
inéditas ao invés de combater a pirataria.
“Uma hora eles aprendem”.
Como
verdadeiros autodidatas da música, quem parece
ter muito pouco a aprender é o Ludov. A banda
era a mais concorrida pelos espectadores na grade que
os separava da área reservada aos artistas e
à produção do Festival São
Paulo Independente. A resposta mais efusiva do público
presente era para os anúncios de show da banda.
Já no palco, o Ludov era acompanhado por um coro
de vozes que podia ser ouvido de longe. Foram os mais
aplaudidos e, com certeza, a banda que mais atraiu o
grande número de pessoas que estavam no vão
livre da estação Brás do metrô
naquele domingo.
Com a lição na ponta da língua,
agora o trabalho tem que continuar. A agenda de shows
é agitada, a banda tinha acabado de voltar do
sul do país, onde tocou na mesma noite que o
Pixies no Curitiba Pop Festival. Prometendo ainda um
segundo disco com mais músicas, o Ludov deixa
o ensinamento de ser a única banda independente
de que se tem notícia há tempos, que consegue
penetrar na parada do Disk MTV, praticamente
fechada para jabás da indústria.

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