| UMA HISTÓRIA
DA GERAÇÃO COCA-COLA
Teatro homenageia Renato
Russo ao retratar movimento punk de Brasília
dos anos 80
por
Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

stá em cartaz no Teatro Gazeta a peça
R-Evolução Urbana, a Lenda do Rock.
Realizada pela Companhia de Teatro Rock, a peça
retrata aspectos políticos e sociais do Brasil
nos anos 80, durante o fim da ditadura e começo
da abertura política. Aborda também questões
culturais e comportamentais, ao falar do surgimento
em Brasília de um movimento de jovens punks de
classe média que culminou na formação
de diversas bandas de rock brasileiras, casos da Legião
Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude.
A história ocorre num lugar chamado Província
Central, que sofreu um golpe de estado e passou a ser
governado de forma repressora pela figura mítica
do “Grande Comandante” (André Abujamra),
que aparece freqüentemente na televisão
para contar os progressos do país. A única
resistência comentada é a dos “Cavaleiros
da Colina”, que ninguém conhecia, mas todos
temiam. É uma referência à “Turma
da Colina”, um grupo de jovens que se encontravam
para se divertir num morro de Brasília, no começo
dos anos 80, que originou o movimento punk local.
O texto, de Marcos Ferraz, é repleto
de referências literárias, casos de Admirável
Mundo Novo, de Adouls Huxley, Utopia, de
Tomas Morus e 1984, de Geroge Orwell. Há
uma passagem inteira deste último, como a conversa
entre Eric Russel (Luiz Pacini) e uma companheira de
trabalho sobre o novo dicionário de Novílingua,
em que é retirada do livro a frase: “Quem
controla o passado, controla o futuro. E quem controla
o presente, controla o passado”. Há também
o “crime de pensamento”, e o próprio
“Grande Comandante” é retirado da
obra de Orwell.
Há
diversos lugares-comuns, como o caso da disputa entre
“oprimidos e opressores”, remetendo à
eterna luta de classes do proletariado contra a burguesia.
Alusões ao período medieval – tão
adorado por Russo – são uma constante,
inclusive, na citação aos cavaleiros da
Távola Redonda. Há também digressões
futuristas, encabeçadas por lutas parecidas com
as do filme Matrix. Mesmo assim, algumas dessas
batalhas são feitas com espadas, entregando todo
o aspecto imaginário e atemporal de R-Evolução
Urbana.
O foco central da história é o vocalista
e líder da Legião Urbana, Renato Russo.
Ele está representado pelo personagem principal,
Eric Russel, líder dos Cavaleiros da Colina –
Russel é um personagem criado pelo cantor aos
15 anos de idade, líder de uma de suas diversas
bandas imaginárias. Há várias referências
ao cantor durante o espetáculo. Porém,
a peça não é considerada pela Cia.
de Teatro Rock uma biografia de Russo. A diretora da
peça, Fezu Duarte, revela essa preocupação:
“Tivemos o cuidado de não contar como era
a vida dele, não queríamos um espetáculo
pessoal”, conta. Esta é a primeira vez
que a família Manfredini libera os direitos da
obra do cantor para um espetáculo teatral.
Durante
as quase três horas de espetáculo, uma
banda de apoio dá o som. É composta por
cinco músicos, que também atuam na peça
e se revezam nos instrumentos, além de um baterista
fixo. Eles tocam 23 músicas ao vivo, percorrendo
o repertório da Legião Urbana, com “Será”,
“Geração Coca-Cola”, “Fábrica”
e “Que País É Esse”, além
de “Veraneio Vascaína” e “Música
Urbana”, do Capital Inicial e “Até
Quando Esperar” e “Bravo Mundo Novo”,
da Plebe Rude.
O diretor musical, Johnny Monster, acredita na performance
ao vivo como um grande atrativo para os fãs da
Legião Urbana. “As novas gerações
de fãs, que nunca tiveram a oportunidade de assistir
a um show da banda, encontraram em R-Evolução
Urbana a essência do grupo quando subia
aos palcos”. Não há virtuosismo
dos músicos, que tocam da melhor forma punk,
ou seja, sem muito capricho e beirando a tosqueira.
R-Evolução Urbana, a Lenda do Rock
- De Marcos Ferraz. Direção de Fezu Duarte,
Fabio Ock e Marcos Okura. 180 minutos, com intervalo.
14 anos. Teatro Gazeta (716 lugares). Av. Paulista,
920, Cerqueira César, 3253-4102. De quinta a
sábado às 21 horas; domingo às
20 horas. Os ingressos custam 30 reais. Idosos, estudantes
e membros do fã clube da Legião Urbana,
com carteirinha, pagam meia. Até 22/08.

|