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11 a 25 de julho de 2004

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O TEMPO NÃO PARA (DE SE REINVENTAR)
De qual Cazuza você vai lembrar daqui em diante? O original ou o de Daniel de Oliveira?

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

ocê acredita que o cinema é uma ferramenta para a captura ou para a representação da realidade? Todo cineasta digno de sua cadeira de armar já se preocupou com esta questão e, via de regra, tomou sua posição em seus filmes, ao longo de toda a carreira. Os espectadores, por outro lado, dificilmente precisam se manifestar. A pergunta, porém, parece apropriada em uma (estranhíssima) temporada nacional cujas grandes promessas pertencem ao gênero que mais diretamente discute a relação entre vida e arte: a cinebiografia. Cazuza – O Tempo Não Pára , já ultrapassou 1,3 milhões de espectadores e ganhou recentemente a concorrência do documentário Pelé Eterno . Em agosto, com requintes de superprodução, surge Olga , sobre a revolucionária comunista, e em outubro, mais popular, Irmãos de Fé , sobre os apóstolos. Em fase de finalização e com grande potencial estão ainda Estrela Solitária , sobre Garrincha, e finalmente Chatô , sobre o empresário paraibano.

dasCazuza se coloca em uma posição peculiar não apenas por ser o primeiro a entrar em cartaz mas também por ser aquele que observa o passado menos distante. Revisita um mito oitentista em plena era nostálgica, em que seus fãs (e não seus inimigos) estão no poder e em que, por outro lado, a massa consumidora mais influente, a adolescente, desconhece sua figura. O filme atinge também uma terceira geração, ainda mais velha, que atravessou aquela turbulenta década ainda com a pequenez da classe média que no fundo validava a linha dura militar, e que agora faz as pazes com sua consciência, admitindo na sala de cinema que aquele “marginal roqueiro viado” até que era mesmo um grande poeta.

dasEvidentemente, a natureza do filme fomenta esta releitura, e, querendo-se ou não, o cinema tem o poder involuntário de glamourizar tudo aquilo sobre o qual derrama sua luz. As noções do que era realidade, do que se vende como realidade, do que se filtra como realidade, vão sendo aos poucos ofuscadas. É como uma velha foto daquelas férias queridas: você se lembra da foto em si ou do real momento em que ela foto foi tirada? Diz-se, enfim, que o Brasil é um país sem memória, então eis como Cazuza vai entrar para a história: com as feições de Daniel de Oliveira, sob as lentes de Walter Carvalho e Suzana Werneck.

dasPara os leitores/espectadores que ainda esperam um juízo qualitativo: não, não estou querendo dizer que Cazuza é um filme ruim. Só me parece contraproducente, até mais que controverso, uma figura iconoclasta como o cantor gerar um filme com uma realidade tão pré-moldada, tão ensimesmada – e que o público aceita prontamente, sem questionar. E, nisto, Daniel de Oliveira é seu principal trunfo. “Nossa, mas ele está igual ao Cazuza”, saem da sala dizendo. Mas Daniel não é Cazuza tanto quanto o cachimbo de Magritte não era um cachimbo (nesses termos, nem Cazuza em um show gravado seria o verdadeiro Cazuza). Mas, na proposta de O Tempo Não Pára , cabia bem um ator que o imitasse. É, portanto, mais uma atuação do que uma interpretação , porque não busca referendar além dos signos de realidade que o público já conhecia – os trejeitos no palco, a imagem cadavérica da AIDS. É um ótimo trabalho, se você acredita que o trabalho de um ator é apenas ser . Fosse O Tempo Não Pára uma exposição de arte, então, o público aprovaria o Cazuza renascentista de Michelângelo, mas viraria o rosto para sua versão nos traços de Miró ou Picasso.

Perceba que, por outro lado, ninguém diz que “Marieta Severo está a cara da Lucinha”, porque, claro, só uns poucos íntimos de Lucinha poderão dizer, nesse critério raso e limitado de avaliação, se Marieta está dando esporro em Cazuza ou segurando a xícara do café igualzinho à mãe do cantor na vida real. E, com isso, deixa-se de notar aquela que na verdade é a melhor interpretação do filme. A personagem é a mais completa, afinal favorecida pelo roteiro, baseado na sua percepção do drama do filho, narrado no livro Só As Mães São Felizes. Mas O Tempo Não Pára , pela cartilha comercial, precisa trazer Cazuza à frente da trama, e só o faz explorando não mais do que a face evidente de seu sucesso. Assim, obriga-se a secundarizar a personagem melhor caracterizada, no livro e na tela.

dasSabemos o que há por trás Sabemos o que há por trás de Lucinha. Mas e por trás de Cazuza? O Tempo Não Pára oferece um gênio instantâneo, por mera incapacidade de investigá-lo. Nessa época de Caras , construir o universo emocional de Cazuza entende-se como devassar sua vida íntima. E o público aceita. É ser “ousado” por mostrá-lo beijando outro homem e cheirando cocaína. Mas, a mim, creio que a vida de Cazuza já é um arco narrativo tão auto-suficiente, tão evidente, que é puro comodismo não ir além. Ele já era um clichê hollywoodiano brazuca, praticamente implorando para ser biografado. Músico, portanto gênio. Homossexual e cocainômano, portanto transgressor. Aidético terminal, portanto trágico. A lógica do filme opta por um silogismo de saltos.

dasTalvez O Tempo Não Pára prefira deixar apenas para as músicas de Cazuza a função de expor sua alma. O artista, enfim, fala por si só. Há uma resposta imediata: em todas as sessões, os espectadores acompanham as letras como se estivessem num show. Diante dessa comoção, é difícil não reiterar: de modo algum O Tempo Não Pára é um filme ruim ou que não mereça ser visto. Mas Cazuza (e o público em coro) pede uma ideologia para viver: acho no mínimo um exercício crítico não aceitar a que o filme prega como o verniz da verdade.