| PRA NÃO DIZER QUE SÓ FALEI DE FLORES
Com Dead Fish, Zémaria e Lona! Records , Espírito Santo revela-se laboratório dos contrastes vividos pela indústria independente de música.
por
Julio Ibelli (julio@rabisco.com.br)

Orgulho é o que não deve faltar aos capixabas, já que foi no Espírito Santo onde nasceu o Rei, Roberto Carlos . Menos gloriosa que a Jovem Guarda é a situação em que se encontra o esquema de música independente do Estado: entre a cruz e a espada, reflexo do que acontece no resto do país. Se de um lado existe o ainda prematuro movimento das grandes gravadoras em contratar artistas do meio independente, do outro, na cena indie, pode estar a única chance de continuar com total e irrestrito controle sobre o rumo criativo da carreira. Discussão avançada essa, para um Estado que não está entre os principais pólos de produção e manutenção da nova música pop que vem sendo feita no Brasil.
"Nada se sustenta no meu Estado se você não está com os poucos que comandam o pouco. Em São Paulo e no Rio as coisas são maiores e dá pra dividir melhor o bolo", é o que declara Rodrigo, vocalista da banda capixaba Dead Fish, unanimidade quando o assunto é hardcore nacional. Depois de 13 anos em que fizeram história no underground, a banda assinou com a Deck Disc (da qual também fazem parte Pitty e mais recentemente os paulistanos do Gram ) para lançar o cd Zero e Um este ano. Divulgado à exaustão, como manda o figurino de um contrato com gravadora; fora da realidade para qualquer banda independente.
Rodrigo diz que nunca esteve nos planos da banda assinar com um grande selo. Mas admite que o segundo convite da Deck (eles não atenderam ao primeiro chamado), foi o que acabou por livrar o Dead Fish da insustentável situação da cena independente, no que diz respeito à estrutura e organização, e que cedo ou tarde acabaria por decretar o fim do grupo. Mas ele não reclama dos momentos precários em que viveu: "Era o que nos fazia feliz". Zero e Um foi produzido por Rafael Ramos , o produtor mais badalado do pop-rock brasileiro na atualidade. Rafael é ex-integrante do Baba Cósmica e ex-vj da MTV (lembram-se do Quiz com Adriane Galisteu ?).
Sirva-se , primeiro trabalho do Dead Fish, foi lançado pelo selo capixaba Lona! Records e Rodrigo parece fazer pouco caso quando perguntado sobre a gravadora. As responsabilidades contratuais com a banda terminaram depois do CD ter sido colocado na praça, segundo explica Cid Travaglia, da Lona!. São pequenos selos como esse que mantém vivo o mundinho independente, imperfeito como toda boa filosofia deve ser, com suas portas abertas para aqueles que ainda não se deixaram corromper pelo lado negro do mainstream. No mais, operam com o número estritamente necessário de funcionários. A Lona! é um bom exemplo disso: trabalham nela hoje o já citado Cid e seu sócio, Frederico.
"Nós da Lona! estamos sofrendo as quedas da indústria fonográfica há mais de dois anos, mas continuamos na briga e fazendo outros tipos de serviço, como prensagem [de cds] e venda de shows para sobrevivermos", lamenta Cid, apesar de voltar a enfatizar: "Continue antenado na música capixaba, com muitas notícias boas vindo por aí". A boa notícia seria o intercâmbio que Cid diz conseguir realizar a partir da Lona! com outros Estados, profissionalizando artistas que ele encontra em estado bruto, seja de reggae (ritmo que acaba por definir a identidade musical do Espírito Santo), música eletrônica ou da expressiva cena roqueira à qual Rodrigo do Dead Fish também chega a se referir.
Apesar da visibilidade que conquistou em território nacional (e inclusive no estrangeiro), o Zemaria é um grupo de música eletrônica que ainda não abriu mão dos serviços prestados pela Lona! Records. "Nós ficamos felizes em saber que conseguimos vencer essa barreira geográfica", comenta Marcel, integrante do Zémaria , que emenda: "Para além do mercado e sua cegueira, estão muitos projetos bacanas que proliferam acima e abaixo do Rio". Tanto os integrantes do Zemaria quanto os do Dead Fish vivem hoje em São Paulo. Prova mesmo de que vencer, na linguagem musical contemporânea capixaba, é questão de cruzar fronteiras, literalmente.
Outro fator que contribuiu para atestar certa falta de organização musical no Espírito Santo, foi o cancelamento do Festival Dia D em 2003. Desligado da organização do evento há dois anos, Cid Travaglia explica que tanto as bandas quanto o público ficaram sem uma resposta cabível quando o festival foi cancelado bem no dia em que teria início. A situação recebeu inclusive uma cobertura considerável da mídia indie especializada. Um novo festival, dessa vez beneficente, quase com a mesma estrutura do Dia D, estava previsto para acontecer com 11 bandas de reggae no começo de julho. Ao saber sobre o ocorrido do Dia D, o jornalista Marcel Plasse (que em julho de 2001 escreveu sobre a cena capixaba para um série de reportagens especiais sobre a nova música pop brasileira, publicada na Revista da MTV) questiona: "Mais um festival que termina? Bem, se até o Close-Up Planet e o Hollywood Rock acabaram, não acha que é muita arrogância ‘indie' querer que um festival independente sobreviva?".
Quanto à situação da Lona! Records, ele diz: "Só posso dizer que, do jeito que é o Brasil, tem mais é que agradecer - e não reclamar - que exista do jeito que existe - de qualquer jeito que exista. Tem muito esse discurso nas cenas alternativas, que é pura crítica, reclamação e chateação para cima de quem resolve arregaçar as mangas e fazer algo. Não é à toa que a cena acaba sempre implodindo".
Caminho das pedras
dasArtistas do Espírito Santo que vivem fora do esquemão das grandes gravadoras e que você não pode deixar de ouvir:
Mukeka di Rato
O já lendário grupo de rock nacional é lembrada por nove entre 10 pessoas perguntadas sobre as boas bandas capixabas. Desconhecer seu som nada católico é quase um pecado. Rodrigo do Dead Fish destaca mais algumas: Take Me, Anthemic, Os Pedrero, The Mephistos, Casaca e os lançamentos dos selos Laja e 3º Mundo.
Manimal
Do cast da Lona! Records , a banda conseguiu notoriedade ao mesclar ritmos regionais ao pop-rock, criando um som conceitual. Tanta notoriedade que é comentada inclusive no exterior.
J3
Jair é carioca mas encontrou também na Lona! a oportunidade de lançar seu rap socialmente engajado. Evolução natural de Gabriel O Pensador. Lembrado por Marcel do Zémaria .
Nave
Power-pop super produzido que já estabeleceu com público e crítica capixaba uma relação semelhante à que os Acústicos e Valvulados mantinham ainda em início de carreira no RS, de forte identidade com o gueto musical de onde surgiram.
Pé do Lixo
Também da Lona! e citado por Marcel, que ainda indica Terrorturbo, Tamy, Solana, Undertow, DJ Victor Kill, Sybel e Guga e Flávio Zogaib.
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