| ENTRE A TÉCNICA E A ESSÊNCIA
Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban avança na estrutura, mas ameniza a força das metáforas da adolescência propostas por J.K. Rowling
por
Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

gora que Homem–Aranha 2
(Spider-Man 2 ; EUA; 2004) é a grande atração dos cinemas mundiais e a euforia em torno de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban ( Harry Potter and the Prisioner of Azkaban ; Inglaterra; 2004) passou, é possível emitir uma opinião sobre a leitura do terceiro episódio realizada pelo diretor mexicano Alfonso Cuáron – que adaptou o clássico infantil A Princesinha e ganhou atenção diferenciada após o trabalho feito em E Sua Mãe Também ( Y Tu Mama También ; México; 2004).
dasNão podemos negar que a mudança em relação aos dois primeiros episódios, Harry Potter e a Pedra Filosofal e Harry Potter e a Câmara Secreta , realizados por Chris Columbus, é significativa. O filme tem um ritmo intenso, exigindo bem mais do sistema emotivo do público. Não existe meio termo. Os momentos soturnos são levados ao extremo, e os bucólicos nos deixam suspirando, desejando estar diante de paisagens tão belas, capazes de apaziguar as almas mais atormentadas.
dasUm segundo ponto positivo para a equipe reside na organização das ações que ocorriam em espaços de tempo diferentes. Eles evitaram marcações como “uma semana depois”, e, com um vôo da coruja branca Edwirges ou o girar dos ponteiros do grande relógio de Hogwarts, uniram passagens temporais distantes, sem quebrar o andamento da história.
dasNo entanto, o maior trunfo de Alfonso Cuarón é a construção das duas fases do filme. A primeira acontece na ordem direta da narrativa e a segunda na ordem inversa, fechando as lacunas provocadas por fatos que, na etapa inicial, pareciam ocorrer misteriosamente. O encanto de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban está justamente na maneira como esses espaços foram preenchidos, trazendo uma confortável sensação de unidade para a trama.
O QUE É DEMAIS NUNCA É O BASTANTE

dasUma obra concebida dessa maneira parece não ter defeitos; mas não é bem assim. Tecnicamente e em grande parte do encadeamento narrativo, a equipe não pecou. Por outro lado, mesmo com essa articulação de qualidade, algumas brechas no roteiro provocaram interrogações em parte dos expectadores. Algumas poucas passagens que faziam sentido para os leitores de Rowling ficaram em aberto para quem não estava familiarizado com a série literária. Quem seriam Aluado, Rabicho, Almofadinhas e Pontas, os criadores do Mapa do Maroto?
dasPouca gente sabia que se tratava de um quarteto inseparável formado por James Potter (pai de Harry, interpretado por Adrian Rawlins e cujo nome foi traduzido como Tiago), Remo Lupin (interpretado por David Thewlis, que neste episódio é o professor de Defesa Contra Artes das Trevas), Sirius Black (feito por Gary Oldman, em atuação impecável, e é o próprio fugitivo de Azkaban) e Pedro Pettigrew (interpretado por Timothy Spall, que guarda um profundo segredo envolvendo a morte dos pais de Harry).
dasOutro ponto bastante questionado por não-leitores foi o feitiço do patrono - que é um escudo protetor, alimentado pela energia positiva emitida pela mente, quando os personagens se concentram em lembranças felizes – e o motivo de Harry ter o seu em forma de rena. Ao longo de todo o filme, os personagens repetem para Potter que ele é mais parecido com o pai do que poderia imaginar, mas apenas os conhecedores do trabalho de J.K. Rowling saberiam que o garoto conjura um patrono igual ao do pai. Essa é uma das belas metáforas de identidade entre pai e filho, criadas pela autora da série, que poderia ter sido explorada de maneira mais elaborada no filme. 
dasDentro do universo proposto por ela, se Harry Potter não tivesse nenhuma espécie de identidade com os pais biológicos, com quem ele não conviveu, toda a teoria do herói mágico, forte e decidido perderia o sentido. Por isso ela faz questão de ligar a personalidade firme do garoto à imagem que ele tem dos pais: pessoas corajosas, seguras em seus princípios que morreram para defender a vida do filho. Essa conotação, aliada à responsabilidade atribuída ao personagem desde o nascimento, traz para a figura de Harry um peso existencial muito forte. Não apenas para ele, como para os demais personagens próximos. Hermione Granger vive sendo atormentada por ser uma bruxa mestiça. Rony Weasley, por sua vez, vem de uma família com pouco poder econômico.
dasDessa maneira, o mundo mágico criado por Rowling se propõe a discutir a discriminação racial e a diferença entre classes sociais. Traçando um paralelo com o cotidiano, esses elementos afetam a adolescência de qualquer pessoa. Por isso foi muito estranho ver essa etapa da vida dos bruxos de Hogwarts serem trabalhadas, no filme, apenas no plano de afirmação da identidade através do binômio forte versus fraco, bonita versus feia. A cena em que Hermione Granger, num momento de extrema tensão do filme, em uma situação espectral, vê a própria figura e dispara “é assim que meu cabelo fica quando estou de costas?”, é, no mínimo, patética, diante de toda a carga dramática e existencial em que esse episódio é calcado.
REAL VERSUS IMAGINÁRIO
dasSe o interesse era fazer uma ponte entre o período da adolescência dos bruxinhos com as dos meninos e meninas que iriam lotar as salas de cinema para ver a aventura, essa identificação foi aquém do esperado. Resumir o período da adolescência a hormônios pululando e preocupações com a aparência é colocar no mesmo conjunto adolescentes que têm uma estrutura de vida dentro dos padrões aceitáveis socialmente e aqueles que possuem alguns componentes que destoam desse plano normativo.

dasA série cinematográfica X-Men trabalha isso muito bem. Alguns poderiam dizer que é diferente. Não é. Que criança, criada até determinada idade, de maneira comum, continuaria da mesma forma após receber uma carta de uma escola de magia com os dizeres “Parabéns, você é um bruxo!”? Da mesma forma que os dementadores – criaturas que sugam dos seres que encontram pelo caminho toda a felicidade – são alegorias da depressão, o poder mágico é uma metáfora de qualquer espécie de diferença que coloque alguém à margem da sociedade.
dasSendo assim, a fase adolescente dos personagens de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban poderia ter rendido muito mais na tela, se esse aspecto não tivesse sido maximizado em seus componentes superficiais e diminuído em sua essência. Pessoas mais relaxadas podem até retrucar dizendo que é um filme de aventura para criança, então, essas sutilezas são desnecessárias. Será? Será que a trajetória de Potter ainda pode ser considerada como um trabalho voltado para o núcleo infantil? Cenas mórbidas, como a dos dementadores sugando as almas de Harry e Sirius Black, são apropriadas para crianças?
dasExiste um momento em que não é possível mais agradar a gregos e troianos. A escolha precisa ser feita. Quando Cuarón abandonou a maneira didática de contar a história, executada por Chris Columbus nas duas primeiras partes, e optou por criar um filme sombrio, pinçando os principais fatos da obra e amarrando-os devidamente, ele direcionou o seu público. Se essa orientação foi tomada, por que a equipe de produção não poderia ir além e mergulhar de verdade nas nuances incômodas da adolescência de Harry e seus amigos?
dasÉ ótimo ver que os novos diretores estão transcendendo os livros, articulando as seqüências de maneira diversa e usando a intuição para explorar sutilezas imagéticas que, muitas vezes, passam despercebidas na leitura. No entanto, a tecnologia utilizada para criar cenas formidáveis, e bem amarradas no conjunto espaço-temporal, acaba não sendo devidamente aproveitada por causa da profundidade emocional que o episódio exigia. Seria mais que um prêmio ver uma série considerada frívola e comercialmente influenciada rendendo leituras cinematográficas que ultrapassassem uma excelente realização técnica. |