| MAIOR DO QUE A VIDA
Obituários são sempre difíceis de escrever, mas o de Marlon Brando é um compêndio das dores de uma geração que sobreviveu ao século XX
por
Fernando de Castro Américo (feramerico@yahoo.com.br)

morte do maior ator do século XX dá origem a uma dúvida: o que é o trabalho de um ator, como ele poderia ser definido?
adsdSerá o trabalho do ator o de se transformar em instrumento, um canal, um meio para a expressão das idéias de um autor/diretor de teatro ou cinema? Se for, podemos dizer que Marlon Brando não só não cumpriu este papel como fez exatamente o oposto: os personagens é que serviam de desculpa para Brando se exprimir, mostrar o seu mundo interior, muitas vezes muito mais interessante do que algumas das peças e filmes dos quais participou. Os melhores diretores souberam extrair de Brando o símbolo do homem do século XX, dividido entre sua personalidade e seu duplo, entre a masculinidade e a impotência. Em Uma Rua Chamada Pecado , por exemplo, toda a virilidade demonstrada por Stanley Kowalsky durante a maior parte do filme cai por terra na cena mais famosa de seu personagem: a cena em que ele, arrependido de ter espancado a esposa, molhado e sozinho, chora e grita pela mulher, que está no andar de cima. O grito de Brando representava um chamado de batalha para toda uma geração.
Ao contrário de James Dean, que morreu jovem e cristalizou sua imagem de rebelde, Marlon Brando envelheceu com esta geração e encarnou outros fantasmas que a assombravam: foi o colonizador que testemunhou os limites dos impérios em Rebelião em Alto Mar e Queimada ; viveu o desencanto da revolução sexual em O Último Tango em Paris ; mostrou aos Estados Unidos a face mais cruel da livre iniciativa, como o exemplo mais acabado de self-made man, o Dom Corleone de O Poderoso Chefão ; e deu rosto à loucura da guerra em Apocalipse Now .
Mais importante que o significado dos filmes, contudo, era a atitude de Marlon Brando frente à sua própria profissão. Ele achava que seu trabalho não tinha valor algum, e mais de uma vez comparou atores a prostitutas, gente que se vende por dinheiro. Este desprezo pela própria grandeza fazia de Brando o “rebelde” por excelência, e tornava ainda maior o mito. Sem medo, o ator podia dizer o que quisesse aos jornais, escolher os papéis que quisesse, sem dar satisfações a ninguém, a anos-luz das estrelas “relações públicas” de hoje em dia. A geração americana do pós-guerra, cansada de hipocrisias e puritanismos, não poderia se identificar mais.
Esta mesma geração viu, com o passar dos anos, o mito se transformar em caricatura. Dívidas, péssimas escolhas profissionais, escândalos familiares e uma silhueta cada vez mais rotunda transformaram Brando em um fantasma de si mesmo. A geração que o endeusara se questiona, estupefata, se não era melhor ter morrido como James Dean e Montgomery Clift. A exemplo de Elizabeth Taylor, outro mito dos anos 50, Marlon Brando sobreviveu ao século XX para se transformar em “amigo de Michael Jackson”.
Sua morte pode resgatar esta dívida; agora, Brando vai viver para sempre apenas em celulóide. Mas ainda assim, sua morte deixa um vazio enorme. Nunca mais nos perguntaremos: qual será a sua próxima metamorfose? Nunca mais nos surpreenderemos pelo fato do Ator colocar algodão nas bochechas para dar mais autenticidade a um personagem, nunca mais sentiremos um arrepio ao ver o Ator explorar as fronteiras do sexo no cinema ao dar um novo uso a uma barra de manteiga, nunca mais ouviremos o Ator dar aquele grito.
asa Com a morte de Marlon Brando, o Ator por excelência, o ofício dos intérpretes, esta “imitação da vida”, fica menos interessante, menos vívida, mais mimética, mais silenciosa, menor do que a vida em si mesma. |