| UMA VILA PARA OS OPERÁRIOS
A história da vila operária Maria Zélia, que, cercada de idealismos, vive hoje de recordações e ruínas
por
Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

o início do século XX, ocorreu uma grande expansão do território de São Paulo, desvinculando-se da região central, que abarcava os bairros do Anhangabaú, São Bento, República e a antiga Freguesia Eclesiástica da Sé, rumando para outras direções, como a zona leste da cidade.
dasMuitas indústrias se instalaram nos bairros da Mooca, Brás e Belém, dando importância a esses locais no desenvolvimento econômico da capital paulista. Com as indústrias, vieram os operários, que, para baratear o custo dos empresários, eram obrigados a fixar residência próxima às fábricas. Porém, como ainda não havia estrutura suficiente nesses bairros, os donos das empresas construíam moradias para seus funcionários ao lado das fábricas. A partir da necessidade empresarial surgiram as chamadas “vilas operárias”, espalhadas em diversas partes de São Paulo.
dasO caso mais típico e que ainda rende boas histórias é a Maria Zélia, situada no bairro do Belenzinho, próxima ao Rio Tietê. Construída entre 1911 e 1916, a vila foi inaugurada em 1917 para abrigar os dois mil e cem funcionários que trabalhavam na Companhia Nacional de Tecidos de Juta, do empresário Jorge Street. O nome da vila é em homenagem à filha Maria Zélia, que morreu ainda adolescente, no ano da inauguração da vila, há 87 anos.
O projeto ficou nas mãos do arquiteto francês Pedarrieux. Foram erguidas 198 casas com dois, três e até quatro dormitórios, de tamanhos que variavam entre 75 e 110 metros quadrados. Havia água encanada, energia elétrica e calçamentos. As casas possuíam assoalho de pinho-de-riga e portas em madeira maciça. Somente a energia elétrica era paga diretamente pelo morador. Já a água e o aluguel eram descontados do salário.
As residências eram divididas entre as famílias dos trabalhadores que também serviam como mão de obra para a fábrica, inclusive com crianças, já que naquela época era permitido o trabalho infantil. As crianças eram obrigadas também a estudar, e as que tinham até seis anos de idade recebiam assistência médica e odontológica. Só podiam morar na vila pessoas que trabalhavam na fábrica de juta. Além das casas, foram construídas uma igreja, creche, farmácia, salão de baile, campo de futebol, armazém, sapataria, área de lazer e duas escolas – uma para meninos e outra para meninas.
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O sonho acabou em 1923, pois o empresário Jorge Street, após enfrentar dificuldades financeiras renunciou à direção da empresa e Maria Zélia passou para a família Scarpa, que mudou o nome do local para Vila Scarpa. Em 1929, o grupo Guinle adquiriu a vila e devolveu o nome original ao lugar. O Instituto de Aposentadoria de Pensão dos Industriários, a Iapa, passou a administrar o local, que entre 1936 e 1937 serviu de presídio político da ditadura do Estado Novo, do Presidente da República Getúlio Vargas. Em 1939, a Goodyear comprou parte do terreno, que incluía a fábrica de tecidos, a creche, o jardim de infância e cerca de 18 casas. A empresa de pneus demoliu todos esses imóveis para construir sua fábrica, que permanece até hoje ao lado da vila.
Jorge Street, o idealizador de Maria Zélia, era visto de formas controversas. Os demais empresários o encaravam como um mau exemplo, pois, na visão deles, não se podia dar tantas concessões aos trabalhadores. Por alguns funcionários era visto como paternalista, por causa de sua relação com os empregados, acusado pela imprensa operária da época, inclusive, de controlar a vida das pessoas ao ceder tantos benefícios. Afinal, o funcionário não precisava sair da vila para nada, pois tudo que era necessário havia em Maria Zélia. Mesmo assim, em um tempo em que pouco ou quase não se pensava na condição de vida e trabalho dos operários, Street, um carioca que cursou Humanidades na Alemanha – numa espécie de colegial –, influenciado por uma visão social dos alemães daquele período, inovou nas benfeitorias a seus funcionários. Algo impensável na época.
O Descaso com a História 
dasHoje o cenário é totalmente diverso. Paredes despencando, janelas destroçadas e prédios demolidos: esse é o reflexo da falta de conservação da vila operária. Maria Zélia, que foi tombada em 1992 pelo Condephaat ( Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo) , é hoje exclusivamente residencial e teve a maioria de suas residências originais destruídas ou descaracterizadas com a construção de sobrados. Há apenas algumas ruínas, como as escolas dos meninos e meninas, o armazém e a antiga sapataria que, mesmo com a ação do tempo e do homem, insistem em permanecer de pé. Só não se sabe até quando.
dasOs moradores locais lutam há anos pela restauração da vila, tendo fundado a Sociedade de Amigos da Vila Maria Zélia em 1981, para buscar uma solução para os casarões, com projetos de reverter as ruínas em oficinas e mostras culturais, entre outras benesses. Para isso, a associação busca empresas que tenham interesse em apoiar a revitalização. A vila faz parte do Plano Diretor Regional da Subprefeitura da Mooca – bairro localizado na zona leste da capital – e está como Zona de Proteção Cultural, pertencendo a pauta de resoluções do Fórum de Desenvolvimento Local desta subprefeitura para que sejam encontradas soluções para o problema.
dasOcorre que os prédios restantes pertencem ao INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e este não libera para algum tipo de aproveitamento. O INSS aguarda análise de técnicos para verificar as reais condições da estrutura, para saber da real possibilidade de restauração e decidir se irá se desfazer ou não dos imóveis. A Prefeitura de São Paulo, através da STDS (Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento e Solidariedade) negocia para arrendá-los junto ao órgão federal, para transformar um dos edifícios em um Museu do Trabalho e fazer a restauração devida. Mas isto barra na questão burocrático-jurídica, pois, como pertence a um órgão federal, há a necessidade de firmar um acordo e assinar uma carta de intenções entre os governos federal e municipal para a liberação dos terrenos.

dasMesmo com tudo isso, a vila Maria Zélia guarda em seus antigos moradores e em seus prédios decadentes toda a força da história de um lugar criado pelos impulsos idealistas de um empresário, que marcaram época da vida paulistana proletária do início do século XX. E hoje servem de registro para o ser humano repensar a falta de cuidado com sua história. E para quem estiver em São Paulo e quiser conhecer um pouco mais dessa história, é só ir até o bairro do Belenzinho, mais precisamente na junção da r ua Cachoeira com a rua dos Prazeres, e, na guarita da entrada pedir para conhecer a vila.
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