| SEM POESIA
Cinebiografia reduz a poetisa Sylvia Plath a uma mera caricatura de mulher ciumenta e atormentada
por
Fábio Freire(fabio_fcosta@hotmail.com)

uem não sabe nada sobre Sylvia Plath, uma das maiores poetisas do século passado, e tiver o primeiro contato com a artista através do filme Sylvia - Paixão Além de Palavras , vai achar que ela não passava de uma mulher frágil, ciumenta e neurótica, uma espécie de Glenn Close em Atração Fatal . Pelo menos essa é a impressão que se chega ao final do longa da diretora Christine Jeffs. Apresentando a poetisa de forma caricatural e apelando para um desenvolvendo superficial da escritora, a cinebiografia peca ao nem tentar entender as razões e conflitos que atormentavam a alma da personagem. A Sylvia Plath do filme é apenas um rascunho da célebre poetisa que cometeu suicídio após saber que a amante do marido estava grávida dele. A opção do roteiro e da direção é mostrar Sylvia completamente dependente do marido, jamais sendo possível vislumbrar a mente brilhante por trás da angustiada artista.
A produção começa quando Sylvia (Gwyneth Paltrow) conhece o também poeta Ted Hughes (Daniel Craig). A partir desse encontro, os dois se apaixonam e casam, passando a viver uma relação difícil. Aqui o roteiro erra ao ignorar o passado conturbado de Sylvia antes de conhecer o marido, apenas mencionando mais a frente suas tentativas de suicídio. Da maneira como é abordada, a relação dos dois soa falsa e até forçada, já que de um mar de rosas o casamento vai se transformando em um martírio, tanto para Hughes, acuado diante do ciúme de Sylvia, quanto para a própria, que passa a viver à sombra da fama do marido e sofre até com um bloqueio criativo.
A
Sylvia das telas se reveza entre os papéis de doente, ora perdida em seu próprio desespero e solidão, ora louca e psicótica. Aqui cabe outro porém em relação ao roteiro, que nunca apresenta de forma clara o ciúme da poetisa. O espectador fica sempre em dúvida se esse ciúme tem fundamento ou não passa de uma alucinação da atormentada escritora. Essa característica fica mais evidente com o uso da câmera subjetiva e ângulos que tentam representar o tormento e o vazio da poetisa. Recursos que até funcionam, mas não conseguem diminuir a frieza com que o filme é dirigido.
A diretora quis não interferir na narrativa, preferindo que as próprias personagens conduzissem o longa. A falha fica evidente na medida em que a produção é cruel com as próprias personagens, jogando-as no limbo das caricaturas. No final, qualquer resquício de sutileza é deixado de lado e, enquanto Hughes é mostrado como um marido traidor e frio, Sylvia é reduzida ao papel de mulher traída e infeliz. No final, nem os seus dois filhos pequenos do casal são capazes de evitar a tragédia.
Ainda com todos esses defeitos, Sylvia. Paixão Além de Palavras não é um filme ruim. Apesar do ritmo lento, o casal protagonista faz o que pode para dar uma dimensão mais humana às personagens. Ainda tentando provar a Deus e o mundo que merecia ter ganho o Oscar por Shakespeare Apaixonado , no já distante ano de 1998, Gwyneth Paltrow tem o carisma e talento necessário para o papel. Sua aparência frágil e beleza glacial funcionam muito bem na pele de Sylvia, ainda que em alguns momentos a atriz se perca e pareça uma adolescente imatura. Já Daniel Craig consegue imprimir uma dubiedade a sua personagem, ora soando sensual, ora paternal e condescendente.
A produção caprichada mantém a atenção do público, ainda que a trilha sonora de Gabriel Yared seja utilizada em demasia pela diretora. Talvez como forma de costurar a narrativa, que, às vezes, parece um pouco solta. No final, o filme é melhor apreciado por aqueles interessados apenas em ver um belo drama, não como a cinebiografia de uma das maiores poetisas do século passado, atormentada pelos próprios fantasmas. O melhor é mesmo o início do filme, quando, de olhos fechados, Sylvia se compara a uma árvore. A única cena a realmente captar a essência da escritora.
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