| PRESENTE DE GREGO
Nem mesmo o orçamento milionário e o elenco estelar conseguem salvar o épico Tróia da decepção
por
Fabio Freire (fabio_fcosta@hotmail.com)

róia não é um filme ruim, mas também está longe de ser um clássico. Tentando repetir o sucesso de Gladiador , longa de Ridley Scott que praticamente fez renascer o gênero épico em Hollywood, a produção do alemão Wolfgang Peterson é equivocada, sem ritmo e até fria. Grande parte da culpa, claro, é do roteiro, que procura condensar ao máximo a obra de Homero, Ilíada , tentando transpô-la para um filme de pouco mais de duas horas e meia de metragem. O problema é que o roteirista David Benioff não foi nada feliz em suas escolhas, transformando Tróia em uma produção chata e com uma história nem um pouco memorável, apesar de já célebre: Grécia versus Tróia por causa de uma mulher que traiu seu marido, Helena.
Lógico que a culpa não é só de Benioff. O diretor Wolfgang Peterson também tem sua parcela de participação no fraco resultado final, abusando de s low motions , zooms e ângulos equivocados que só reforçam a fraqueza do roteiro, a fragilidade das interpretações e a direção sem pulso. É visível a imaturidade do diretor para assumir o comando das câmeras de uma produção desse porte. Mesmo já tendo demonstrado competência em provocar tensão em filmes como o suspense Na Linha de Fogo , aqui Peterson perde completamente o controle da situação e entrega uma obra que tinha tudo para ser boa mas simplesmente não é.
O
diretor apela para o óbvio, erra na escolha do elenco e na concepção visual da produção, que parece fake e sempre abaixo do que se poderia esperar de um filme que consumiu quase U$S 200 milhões de orçamento. Outro erro imperdoável do diretor foi ter descartado a trilha sonora do consagrado Gabriel Yared (que fez entre outros a trilha de O Paciente Inglês e Cidade dos Anjos ) em detrimento da horrorosa música de James Horner ( Titanic ), que só piora ainda mais as coisas.
Nem as cenas de ação compensam. Tirando o embate entre Heitor (Eric Bana) e Aquiles (Brad Pitt), nenhuma batalha em Tróia se salva. A fotografia das lutas e combates é escura, a edição é picotada e mal dá para ver o que se passa na tela. Peterson quis seguir a mesma linha de Gladiador , mas não conseguiu pelo simples fato de não ter o talento de Scott para a coisa. Chega a ser triste ver um filme com tanto potencial acabar caindo no ridículo várias vezes (a cena das mil embarcações indo em direção à Tróia é hilária). Mas como tudo que é ruim pode ficar ainda pior, falta o capítulo das atuações.
Brad Pitt não funciona como protagonista de grandes produções, basta assistir a Lendas da Paixã o e Encontro Marcado para perceber isso. O ator só se sai bem em filmes menores ( Kalifornia , Seven e Snatch ) ou como coadjuvante ( Doze Macacos e Entrevista com Vampiro ). Sua interpretação beira ao patético e ele mais parece um Rambo de saiote e com os cabelos loiros. Esqueça Orlando Bloom e seu corajoso Legolas ( O Senhor dos Anéis ). Em Tróia , o ator (que interpreta Páris) é um covarde e passa despercebido durante toda a projeção. O que mina ainda mais a credibilidade do filme, já que sua paixão por Helena (a apática modelo Diane Kruger) deveria ser a razão de ser do longa. Quem acaba se destacando então é Eric Bana, que de mostrengo verde ( Hulk ) é elevado à categoria de herói. Seu Heitor é de longe a personagem mais humana de Tróia , a única capaz de despertar algum sentimento no espectador. Vale destacar ainda a atuação de Peter O'Toole (Príamo), dono da melhor cena do filme (quando procura Aquiles em busca do corpo de seu filho).
Enfim, Tróia é um filme ruim. Pronto, falei. Um desperdício de dinheiro e de um bom argumento. Uma produção que merecia um maior esmero por parte dos envolvidos. Só nos resta torcer agora para que Oliver Stone seja mais feliz em sua incursão pelo gênero, o promissor Alexandre. O Grande , que chega aos cinemas no final do ano.
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