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25 de julho a 8 de agosto de 2004

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O DIA EM QUE JOHN TRAVOLTA MORREU
Ana Paula Maia destaca-se com novo conto setentista e ultrapop em antologia feminina

por Marcos Brida ( marcos_brida@yahoo.com.br )

uem não se lembra de Os Embalos de Sábado a Noite ? O gingado de Travolta logo na abertura ao som de “Stayin'Alive” dos Bee Gees? Quase trinta anos após seu lançamento, ele ainda ecoa fortemente naqueles que ainda nem tinham nascido. O filme do diretor John Badham marcou uma geração, despertou a sensualidade das discos, um grito sufocado atravessado na garganta dos jovens retratados no filme, brutalizados pelo trabalho diário, libertando-se em movimentos enérgicos nas pistas de dança.

Dentre os vinte e cinco contos presentes na antologia 25: Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira , organizada pelo escritor Luiz Ruffato e lançada pela editora Record, lá está um que, logo de início, nos diz que John Travolta está morto. Trata-se de “Nós, os Excêntricos Idiotas”, de Ana Paula Maia. E, ao se continuar lendo os seguintes parágrafos, confirma-se na autora uma habilidade preciosa em conduzir um texto coeso, divertido, cheio de referências pops e com doses de estranheza. Uma noite em que permanecer vivo parece a última opção. O texto é uma ode aos anos setenta, aos filmes de John Travolta, incluindo o dramático O Garoto na Bolha de Plástico , que ele protagonizou ainda bem jovem.

Os ótimos diálogos, a precisa coesão, as sacadas originais, mostram a habilidade de Ana ao trabalhar uma história feita somente de referências pops, mas encontrando um viés de sensibilidade e criatividade. As citações não estão apenas no texto, elas dão origem a ele. “Nós, os Excêntricos Idiotas” é um bom exemplo de como trabalhar essas referências, sem perdê-las entre tantas outras; de como preencher um texto sem desviar a atenção do leitor; de como expor conhecimentos de um determinado nicho cultural sem soar arrogante. Novos autores, com mais freqüência do que querem admitir eles e a crítica, permeiam seus livros de referências, mas parecem utilizarem-nas como um jorro de desperdício em meio a um turbilhão de desconforto e vazio emocional. Resta-nos muito pouco.

A temática de Ana também é acertada e convidativa. O ícone pop que foi os anos setenta é indiscutível, reverberando fortemente até hoje em trabalhos como o do diretor Quentin Tarantino, que resgatou a década com toda a sua força, ou no seriado de TV That 70s Show . O conto satiriza e explora ao máximo a possibilidade de construir literatura pop carregada de simbolismo, da paixão e da ironia com que se olha para aquela época; e encerra com uma frase que poderia ter sido dita pelo próprio Tony Manero ou por um jovem urbano nos dias atuais: "permaneça vivo, ainda que por esta noite".

No romance de estréia de Ana, O Habitante das Falhas Subterrâneas, lançado em 2003 pela editora 7 letras, as referências pops não deixam por menos. Um texto escavado e articulado. Um ensaio muito bem-sucedido no qual a autora dá voz a um adolescente de 17 anos, Ariel Esperanto. Uma espécie de Holden Caulfield, só que mais sóbrio de seus problemas. O controle sobre a forma do discurso empregada para construir a personalidade do protagonista, que a explicita através de ações, opiniões e diálogos, é excepcional. Poucos escritores conseguem verdadeiramente expressar seus personagens além do diálogo, limitando-se ao âmbito das descrições de pensamento. Diante de O Habitante das Falhas Subterrâneas e do conto “Nós, os Excêntricos Idiotas”, parece que surge no cenário literário uma promessa de boa escritora, principalmente no que diz respeito a diálogos e coesão de idéias, sustentado suas histórias sem deixar vazar brechas dispersivas.