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25 de julho A 8 de agosto de 2004

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LIMBO AMOROSO
Jim Carrey tenta não esquecer Kate Winslet na tragédia romântica Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

ocê conhece bem a história. Já passou por ela. Seu namoro acabou e você está devastado. Parece que tudo que seus amigos sabem dizer é “dê tempo ao tempo”. Você não entende... até que entenda. Os meses apagam as memórias do amor que passou. Há quem se alivie na bênção do esquecimento. Mas, se você for um espírito inquieto, talvez se questione (não sem certa decepção) se seu amor se resumia a apenas isso: uma punhado de lembranças, boas e más.

das Ao menos você conta com Charlie Kaufman como um de seus confrades. Ele desfaz e refaz a mesma pergunta ao longo de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças , que estreou no último dia 23 no Brasil. Mais que um espírito inquieto, Kaufman é um roteirista inquieto, como autoretratado no indicado ao Oscar Adaptação . Tanto, que não se sabe ainda se seus roteiros agradam Hollywood pelo suposto insano desprezo à linearidade comercial ou se por exporem ridiculamente seu hobby predileto: escrutinar a própria mente, traduzindo-a à força da linguagem sináptica para a linguagem cinematográfica.

das Talvez por Brilho Eterno não ser uma idéia original sua, e sim do diretor Michael Gondry, Kaufman opta por representações mais evidentes para discutir o curto-cicuito que o amor parece provocar no cérebro. Todo o filme dura uma exata noite, período necessário ao procedimento mental ao qual Joel (Jim Carrey) pretende se submeter. Ele quer apagar as memórias de seu namoro fracassado com Clementine (Kate Winslet), após descobrir que ela já fez o mesmo. A técnica, revolucionária, é administrada pelo Dr. Mierzwiak (Tom Wilkinson), sua recepcionista Mary (Kirsten Dunst) e seus dois ajudantes, Stan e Patrick (Mark Ruffalo e Elijah Wood). No plano real, a dupla é responsável por localizar no mapa cerebral de Joel tanto o espectador quanto as lembranças das quais o paciente quer se livrar. Contudo, no reino do inconsciente e, por assim dizer, de Kaufman, seu alter-ego Joel volta a se apaixonar por Clementine, ao esquecer-se primeiro das brigas e desilusões. Sua luta é para tentar preservar o pouco que restou daquele amor: os bons momentos.

 

das Kaufman despontou com Quero Ser John Malkovich , em que analisava nosso desejo mais inadmissível de nos tornarmos outra pessoa. Seu filme seguinte, Adaptação , o confirmava também como vítima desta vontade de autoalienação, ao analisar quão doloroso é seu próprio processo criativo. Esta metalinguagem, contudo, não se repete em Brilho Eterno , porque, ainda que instigante, trata-se de um filme que fala sobre paixão sem qualquer paixão. E, como tal, nem é necessário a operação do Dr. Mierzwak para esquecê-lo.

Os apaixonados, ou melhor ainda, os de coração partido, perceberão, porém, que sua sobriedade não parece uma falha – ou um sintoma da ausência do parceiro habitual de Kaufman, o cineasta Spike Jonze, que melhor traduz suas concepções visuais. Há, em Brilho Eterno , um corretíssimo tom de dormência, como se toda a saga melancólica de Joel transcorresse em um limbo sentimental, aquele composto pelos mementos de cada separação e ao qual estão condenados os amores dissolutos. Corroboram o tom documental, a fotografia insípida, os efeitos especiais crus e principalmente a interpretação contida de Jim Carrey. Brilho Eterno trafega sobre o namoro de Joel e Clementine de trás para frente, mas é, enfim, nesta insensibilidade gritante, mais até do que no surrealismo convidativo necessário às histórias de Kaufman, que o filme marcha adiante no terreno estéril dos romances não-cômicos.