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25 de julho a 8 de agosto de 2004

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UMA TRAGÉDIA FAMILIAR
Um guia para mergulhar no denso universo de Raduan Nassar em Lavoura Arcaica

por Hugo Maior (huguinhomaior@bol.com.br)

m seu primeiro romance, publicado em 1975, o autor paulistano Raduan Nassar trata de temas universais. Para descrever o universo humano com as todas as suas paixões e desafetos, Raduan constrói personagens alegóricos, o que aproxima bastante Lavoura Arcaica não só da parábola do filho pródigo como também da própria escritura sagrada como um todo.

O romance que, em 2001 ganhou uma versão cinematográfica, caracteriza-se também por ser uma escrita permeada de símbolos. Talvez seja o silêncio, o não-dito, incluindo todas as suas perdas e ausências, que torne esse belíssimo livro de estréia em uma leitura bastante rica e inquietante. Os personagens são densos, imersos numa narrativa profunda e, de certa maneira, se misturam, confundindo, de uma forma bastante lírica, sentimentos como amor e ódio e vivenciando experiências, a princípio, distantes como vida e morte.

A história é contada por André, o filho que volta para casa depois de viver alguns anos longe da proteção, dos valores e da rigidez do pai com o qual ele nunca concordou. O tecido textual é construído de maneira notável, adquirindo diferentes planos. André, por vezes narra em primeira pessoa, balbuciando suas impressões a respeito da casa e da família depois de tantos anos: “(...) mas me contive, achando que exortá-lo, além de inútil, seria uma tolice e, sem dar por isso, caí pensando nos seus olhos, nos olhos de minha mãe nas horas mais silenciosas da tarde”. Por outras vezes, é nos diálogos com seu irmão Pedro, o primogênito, que André nos evidencia toda docilidade e amabilidade tão sem lugar na casa paterna: “(...)você verá então que esses lençóis, até eles, como tudo em nossa casa, até esses panos tão bem lavados, alvos e dobrados, tudo, Pedro, tudo em nossa casa é morbidamente impregnado da palavra do pai”.

Enquanto a mãe é, notadamente, o afeto na família, André vê na figura paterna um oponente a toda essa dedicação, a todo esse dar-se constantemente, a todo esse amor sem limites, quase exaurido. “O amor que aprendemos aqui, pai, só muito tarde fui descobrir que ele não sabe o que quer; essa indecisão fez dele um valor ambíguo, não passando hoje de uma pedra de tropeço; ao contrário do que se supõe, o amor nem sempre aproxima, o amor também desune”, narra.

André sai de casa a fim de experimentar, de fato, esse amor verdadeiro que somente sua mãe soube lhe mostrar: “(...) e me ocorreu que eu pudesse também dizer não aconteceu mais do que eu ter sido aninhado na palha do teu útero por nove meses e ter recebido por muitos anos o doce toque das tuas mãos e da tua boca”. Porém, frustrado, retorna à casa paterna sem encontrar o que procurava, ainda que renovado, mais forte, tendo vivenciado outras potencialidades do amor, menos aquela que tanto ansiava encontrar.

Ainda que seu relacionamento com Pedro tenha um viés mais racional, pois, de alguma forma, ele representa toda a austeridade paterna, é no tratar com seus irmãos, em particular com Lula e Iohána, que André busca em última instância, um exemplo de amor mais próximo ao materno. Porém, toda essa busca é em vão, uma vez que o tempo cuidou de deixar muitas lacunas, muitas feridas ainda abertas. “Lula demorou para descobrir a cabeça e olhou sem virar o corpo, rosnando qualquer coisa hostil como se tivesse sido despertado, não conseguindo contudo esconder seu contentamento”, conta em certo trecho. No regresso, nota-se que os irmãos sucumbiram à vontade do patriarca e enterraram, assim como a si próprios, seus desejos, seus medos e sonhos, o que os tornavam, de alguma forma, mais humanos e mais próximos de André.

Iohána, ou Ana, depois de tantos anos vivendo e convivendo com a ausência de André naquela casa, metamorfoseava-se, assim como seu pai, no seu avesso, no seu contrário. Para André, a imagem da irmã paulatinamente se configurava num espectro com quem ele tentava, ainda que em vão, dialogar: “(...) eu procurava, ainda me queimando, aliciar a velha casa, seu silêncio de morcegos, os seus fantasmas; trazê-los todos como aliados para meu lado, e repeti ‘me responda Ana'(...) mas ficando sem resposta eu passei, num ranger de dentes e de tábuas e num furor crescente, a vasculhar todos os cômodos”. Cada vez mais, o encontro de seus corpos era iminente, pois convertia-se na única forma de dialogo possível. “Foi um milagre o que aconteceu entre nós, querida irmã, descobrirmos que somos tão conformes em nossos corpos, e que vamos em nossa união continuar a infância comum, sem mágoa para nossos brinquedos, sem corte em nossas memórias, sem trauma para nossa história...”.

O desejo de constituir um novo lar, uma nova família junto de Ana, parece ser a solução que André encontra para exercer sem culpa todo seu afeto, uma espécie de extensão da infância, quando recebia cuidados esmerados de sua mãe. Apenas constituindo sua própria família, ainda que de uma maneira análoga, André poderá ocupar o lugar de seu pai e, finalmente, poder fazer valer os sentimentos que lhe são tão caros. Porém, para o desespero do protagonista, se é que assim podemos chamá-lo, Ana, assim como próprio André, está marcada com o sangue da família, atada até o fim àquela casa, a tudo que ela representa e, mais do que isso, predestinada a um destino não menos trágico.

A força de André, sua vida pulsante, contamina a virtuosidade de seu clã, mancha a negra mortalha com a qual seus irmãos se vestem. Paradoxalmente, é o seu desejo pela vida que conduz a família de André à destruição, uma vez que ele representa a não-contenção, o não-conformismo, tão contrários ao pai. André, de certa maneira, é aquele que tem sede, que deseja vivenciar ao máximo todas as experiências até esgotar-se, esvair-se, é aquele que se entrega em suas relações, embora viva numa casa em que a paciência é a mais casta de todas as virtudes. Por isso, traz consigo todas as doenças, todas as suas chagas, “(...) e que nossas irmãs de temperamento mediterrâneo e vestidas de negro hão de correr esvoaçantes pela casa em luto e será um coro de uivos, soluços e suspiros (...) lenços pra cobrir os rostos e chorando e exaustas elas hão de amontoar-se num só canto e você grite cada vez mais alto ‘nosso irmão é um epilético, um convulso, um possesso'”.

Finalmente, é importante deixar claro que não existe uma luta do bem contra o mal, muito menos um confronto de gerações, como algumas vezes parece. O que há, de fato, é uma diferença de valores, são duas formas de enxergar vida e morte, coexistindo (quase) no mesmo espaço. Lavoura Arcaica é uma ótima opção de leitura para quem deseja de fato mergulhar nesse universo tão particular, denso e maravilhoso de Raduan Nassar, romancista que tão cedo abandonou a literatura, ainda que nos deixando um bonito legado.