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25 de julho a 8 de agosto de 2004

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MILHAS ADIANTE
Parceria musical de Miles Davis com o arranjador Gil Evans assinala um dos grandes momentos do jazz no século 20.

por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

m 1949, após deixar a banda de Charlie Parker e dar adeus ao Be-Bop, o trompetista Miles Davis travou conhecimento com o arranjador Gil Evans. Este o introduziu uma idéia nova: distante do frenesi da música de Bird, Evans tinha um gosto sofisticado. Em sua estética particular, ele queria conferir ao jazz uma nova fisionomia, mais orquestral, sem os “riscos” do sax de Parker, e liberto da norma geral daquele gênero. Por sua vez, o arranjador via naquele jovem músico negro o algoz daquilo que tinha em mente. Juntos, eles estabeleceriam o que seria chamado posteriormente de cool jazz . Na Capitol, fundariam a Miles Davis Orchestra, onde Evans, aliás, Ernest Gilmore Evans, foi o mecenas do novo Davis. Suas partituras originais formavam o espaço ideal para que o trompete de Miles pudesse desenvolver esta nova medida musical. Naquele mesmo ano, eles assinalariam a sua gênese sonora, com Birth Of The Cool . Sempre constantes, Evans e Miles se reuniriam ao longo dos anos 50, gravando três verdadeiras obras-primas: Sketches Of Spain (1958), Porgy And Bess (1960, recriação dos temas da ópera de Gershwin) e certamente o maior deles, Miles Ahead (1957).

das É importante ressaltar que Miles passaria por várias fases, como o quinteto que ele formou com com Paul Chambers, Red Garland, Phily Jones e Coltrane, mas o trabalho mais perene seria com Gil. Por toda a década de 50, o músico iria alternar o trabalho com o quinteto/sexteto com as experimentações de Evans. O zênite da dupla foi, justamente, o trabalho mais destacado deles, Miles Ahead, o primeiro daquela trilogia . O álbum marcou um mom ento singular, onde o maestro desenvolveu um estilo intimista, num prolongamento das proposições sonoras de Birth Of The Cool . Além dos noneto de 1949, o instrumentista escrevia agora para uma uma big band “moderna”, cuja moldura se compunha de cinco trompetes, três trombones tenores e um baixo, duas trompas, tuba, duas flautas, um sax-alto, clarinete, baixo, mais o piano e a bateria.

DIÁLOGOS

das A diferença crucial estava no f ato de que era uma banda “menor” e com instrumentos incomuns no jazz: aqui, não existe o naipe de saxofones em favor de um conjunto de sax-alto e as madeiras. Na concepção de Evans, essa era a forma de se duplicar o diálogo de vozes com os trombones. A tuba, por sua vez, concedia mais maleabilidade à linha de baixos. O resultado disso tudo era uma densidade harmônica singular e uma molduração mais diáfana, mórbida, que era a base para os solos puros e metalizados de fuldgehorn , concisos e sem vibrato, e que seriam a marca registrada de Miles Davis.

das Dentro do “fetiche” orquestral, Miles Ahead é disposto sob a forma de suíte, sem interrupção. As peças musicais ficam no limite do quase entre o camerís tico e o jazz mais telúrico, num repertório bem cuidado qu e forma um todo inefável. Miles Ahead abre com “Springsville” (Carisi) , tema rápido, que pega por ponto de partida muito do estilo de Duke Ellington do começo dos anos 40, porém, sem parecer retrô, mais dentro do esquema lógico da estrutura musical. “The Maids Of Cadiz” (Delibes) é um tema lento (dentro da dinâmica de suíte), e começa com um solo de Miles, que dialoga com as madeiras no início, e depois com as trompas e a tuba, numa variedade de timbres e de ritmos.

"QUASE"

Falando em Ellington, “The Duke” é uma composição de Dave Bruebek em homenagem ao autor de “Solitude” e “Prelude to A Kiss”. O estilo compreende bem a idéia musical de Duke, embora servindo apenas como um tributo, muito longe da sutileza e da ironia de Ellington (que ressurgiria de um amargo ostracismo com aquele disco ao vivo em Newport). Resta a brejeirice do tema, mais animado, e que precede a singeleza e a resignada melancolia de “My Ship” (Ira Gershwin - Weill) , um longo uníssono de clarinetes e madeiras, que vai compreendendo todos os metais até o solo. “Miles Ahead” (Davis-Evans) é outro tema rápido e breve, em tempo de fox, este sim, mais característico de big band , mas sem o burlesco, sempre no limite do quase , entre o “histriônico” e o “intimista”.

das A segunda parte da suíte abre lenta e suavemente com “Blues For Pablo” (Evans), talvez a precursora do álbum sobre o “Concierto d e Aranjuez”, de Joaquin Rodrigo, onde o maestro funde o modo menor do tema latino com o tempo m aior do blues, e Gil altera a tradicional forma simétrica desse estilo, dando espaço ao lirismo do tema espanhol. “New Rumba” (Ahemed Jamal), em tempo rápido, mais lembra um estudo de orquestração, onde um tema comum é proposto e o desenvolvimento maior reside nas múltiplas vozes dos metais e madeiras, entremeadas pelos solos. O destaque está na forma de mimetizar o estilo da rumba com a coloratura das peças da orquestra, até o final contrastante.

das “The Meaning Of The Blues Lament” (Worth – Troups) é mais um número le nto, onde o destaque é um lamento de trompete que dialoga com o fuldgehorn de Miles (os solos das baladas são os mais bonitos). “I Don 't Wanna Be Kissed (By Anyone But You)” (Spina - Elliott) é o tipo de fecho-surpresa dos gran des álbuns . Um tema breve, típico standard de jazz, como se fosse o derradeiro movimento de uma suíte orquestral clássica, só que em versão jazzística e, ao mesmo tempo, original. Traz a verve inspiradora de Duke Ellington (num distante parentesco), pela pena inteligente d e Gil Evans. De botar bem alto no repeat . Um belo finale para um excelente álbum, cujo trabalho orquestral é realmente impressionante.

das Miles Ahead é um exemplo de que, mesmo sendo considerado o arauto da renovação do jazz , do cool ao hard bop , da improvisação modal à fase eletrônica, a verdade é que ele sempre foi o mais lírico dos modernos jazzmen . Este álbum também não deixa de ser significativo. Ele vem à luz quando o Be-Bop desaparece com a prematura morte de Charlie Parker (1955).

das De certa maneira, c om Miles Ahead , uma era desaparecia e uma outra era instaurada. O curioso é que muitos dos seus fãs preferem cultuá-lo quando estava ainda milhas atrás de sua fase controversa, quando se tornou um excêntrico superstar , em sua produção musical a partir dos anos 70, quando o próprio gênero que o notabilizara sofria uma crise de identidade, devido à influência de outros estilos. De sua fase clássica, fica a sua eterna imagem de pureza, e de indescritível lirismo. Para tanto, basta ouvir as passagens de trompete de sua fase de colaboração com Gil Evans, num dos grandes momentos do jazz no século 20.

Em tempo: existem outros discos de Miles Davis.

Miles Ahead: Miles Davis + 19

Orchestra Under The Direction Of Gil Evans

Columbia/Sony