| VENDETA COREANA
Vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes é um excelente estudo sobre vingança e redenção
por
Paulo Gustavo Freire (pgvarandas@yahoo.com.br)

ara entender Oldboy é preciso analisar a carreira de seu diretor, Chan Wook Park. Ele é o responsável por JSA – Joint Security Área , thriller político que desbancou Titanic do recorde de primeiro lugar nas bilheterias de países asiáticos como a Coréia do Sul. Depois Chan Wook Park realizou Sympath for Mr. Vengeance , o primeiro capítulo de sua trilogia de vingança. Baseado em um manga japonês, Oldboy é o segundo capítulo a ser finalizada em breve.
O enredo segue Oh Daesu (em excelente atuação de Min-sik Choi), um sujeito comum que um dia é seqüestrado ao sair bêbado de uma delegacia. Fica preso num quarto de aspecto sujo onde há uma televisão, pela qual interage com o mundo e descobre ser o suspeito de assassinato de sua mulher. Lá há também um diário, onde torna seus fantasmas interiores e seu desejo de vingança seus únicos companheiros. Enquanto aguarda sua libertação, esmurra a parede para treinar, aprende a lutar através de programas sobre artes marciais e faz tatuagens para cada em que está naquela espelunca. Tenta suicídio e dorme com o mesmo gás que os russos usaram contra os terroristas chechenos, mas duas perguntas ficam na sua mente: quem teria feito aquilo? E por quê?
Depois de quinze anos Oh Daesu escapa. E então começamos a acompanhar sua readaptação ao mundo. Oh Daesu quer cheirar as pessoas, fumar um cigarro, espancar alguém e comer algo vivo (acredite, a cena em que ele come um polvo vivo é para estômagos fortes). Ele se pergunta: ”Eu não tenho o direito de viver?”. Instila-se a dúvida sobre sua real inocência. Ou seria uma mera indagação para alguém que foi punido durante quinze anos?
Ele conhece Mido (Hye-Jeong Kang) uma sushi-girl que se empenha em ajudá-lo a encontrar os culpados. E então começa a jornada da dupla, buscando restaurantes que servem a mesma gororoba que Oh Daesu comeu durante anos. Nesse momento surge uma das sacadas de Wook Park, o humor. Num filme pesado como Oldboy , o humor chega como um calmante. O celular de Oh Daesu toca e um anônimo lhe sussurra: “Seja um grão de areia ou de pedra, na água eles afundam da mesma maneira”. Uma verdade que Oh Deasu está prestes a comprovar.
Com um tema como vingança, o filme é carregado de imagens fortes e bem construídas. A cena de tortura com o martelo arrancando os dentes não é totalmente explícita, mas é impossível ficar indiferente. Em um plano-sequência lateral, Oh Daesu emprega o mesmo martelo para combater dezenas de capangas com pedaços de pau, replicando a sensação de estarmos diante de um jogo de luta 2D e nos tornando testemunhas de quanto um confronto pode ser cansativo.
A história vai ganhando novos rumos assim que fatos importantes são revelados. Entrar em mais detalhes do roteiro poderia estragar o plot point , uma das grandes virtudes do filme. Há tempos não se via um final-surpresa que, além de ser dos mais retorcidos, remonta toda a trama do filme como um quebra-cabeça trágico e lúdico. O confronto final, violento não apenas fisicamente, mas também psicologicamente, demonstra que na vida real não há distinção entre quem é o herói e quem é o vilão.
Chan Wook Park sabe fundir os miolos do espectador, sendo capaz de transformar uma simples caixa roxa de presente num objeto aterrador. Diante dos fatos, Oh Daesu toma ações ridículas, e aposto que você faria o mesmo. É o que torna Olboy tão ambíguo e perturbador - um filme sobre revanche e redenção mas, acima de tudo, sobre como nossas vidas são afetadas pela vida dos outros. Mistura de filme-cabeça com entretenimento de vingança, é definitivamente a melhor surpresa desse ano. |