| SINATRA DE TÊNIS
O jovem pianista inglês Jamie Cullum reinventa o jazz em Twentysometing
por
Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

m cantor de jazz é um sujeito classudo, encasacado com uma gravata borboleta no pescoço, um lenço cuidadosamente dobrado no bolso esquerdo do terno, cabelo lambido em vaselina enquanto sussurra vibratos para um cálido microfone art decó , certo? Nem tanto. A mais nova exceção é um jovem pianista de 24 anos, que virou fenômeno por traduzir a linguagem instituída do gênero consagrado por Louis Armstrong para um público diverso. O cantor Jamie Cullum é a mais nova aposta britânica da indústria fonográfica no fenômeno deflagrado por Norah Jones e Michel Dublé, e que popularizou esse paradigma: intérpretes despojados que investem num jazz style dissimulado em estilo pop (e vice-versa), ficando no limite do quase entre o tradicional e o iconoclástico. Seu novo disco, Twentysomething (“vinte e poucos”, em tradução livre), foi resultado de uma negociação milionária da Universal em contratá-lo (seu debut foi com Pointless Nostalgic , de 2003),depois que o pianista autodidata virou sensação, ano passado.
Cullum é o Sinatra da vez? Nem tanto. Ao contrário d'A Voz, na capa do disco, ele parece um reles calouro de faculdade de comunicação, com camisa social e Conga azul, atirado no chão, em prova de desprezo por qualquer protocolo. Sua voz possui um timbre fraco e expressivo, que lembra mais a de um Paul Anka. Naturalmente que o cantor não faz a mínima questão lembrar o velho Frankie, mas apenas abusar de seu espólio. Porém, a comparação é inevitável. Do contrário, soaria mais como Harry Cormick Jr. Há quem não aprecia Cormick por querer se parecer demais com algo que seus antecessores fizeram melhor, e com pose idem. Já Cullum (como Norah Jones e Diana Krall), inclusive, investem em composições próprias e “ousadias” musicais em seus respectivos “set lists” que transcendem a grande tradição “sinatriana” ianque. Desse vetor, o que resulta é um estilo que, se não é forçado para parecer “jovem”, ao menos é eclético o suficiente para agradar a gregos e troianos.
O jovem inglês não precisa pagar tributo a essa pesada tradição. Jamie Cullum demonstra que, ao contrário de muitos de sua idade, tem apreço ao elemento jazzístico, mas não abre mão de ser ele mesmo, sem microfone art decó ou Gumex na melena. Disse que resolveu optar por canções que falassem dele mesmo, ou seja, os tais inconseqüentes “vintepoucos” anos. A música que dá nome ao disco, por sinal, é uma espécie de ária de “caracterização”, como se diziam nas óperas antigas. Na divertida letra, após anos investindo em sua educação, ele não sabe se casa ou compra uma moto. É a boazinha do disco:
After years of expensive education
A car full of books and anticipation
I'm an expert on Shakespeare and that's a hell of a lot
But the world don't need scholars as much as I thought
Maybe I'll go travelling for a year
Finding myself, or start a career
Mesmo assim, Twentysomething não é um disco temático ou meramente autobiográfico. Como em seu estilo, ele fica no quase. Quase temático, quase autobiográfico, quase jazz, quase pop. O diferencial é que, no alto de seus vinte e poucos, ele pode ir além do tradicionalismo de cantar sempre a mesma coisa da mesma maneira, como Tony Bennett (sem comparações!), nem precisa provar nada para ninguém. Como pianista, Cullum carrega nas tintas e suja as notas, algo do tipo “olha o que eu consigo fazer com esse maldito piano de cauda”. Sua relação com o jazz propriamente dito passa pela sutileza da instrumentação camerística (bateria, contrabaixo, piano e trumpetes) e por standards do gênero, como “I Get a Kick Of You” (boa) e “What A Difference A Day Made” (ótima). Sua voz passa pelas faixas sem vibratos ou qualquer tratamento digital. Talvez aqui resida o fato mais curioso da produção do disco. Ele foi gravado totalmente em sistema analógico. Purismo? O responsável pela produção, Stwart Levine, também assinou trabalhos com George Benson e Simply Red.
O descolamento de Twentysometing pelo menos vale pela ousadia. Um garoto inglês autodidata que possui um sólido conhecimento do repertório dos grandes crooners dos anos 30 e 40 e que tem insights interessantes. Como se isso não bastasse, Cullum também registrou uma leitura bastante peculiar de Jimi Hendrix, “The Wind Cries Mary”, de 1967. É certamente a mais divertida do disco. Do original, ele manteve o esqueleto, mas incluiu divisões no piano que revelam o potencial da música em se transmudar em jazz. Outra “ousadia” é a sua versão de “Singin'In The Rain” que, claro, está longe do histrionismo de Gene Kelly. Prova também que as canções do jovem inglês são potencialmente “performáticas”, mas dificilmente se perpetuarão como versões definitivas. Pode soar barato por ser facilmente consumível, mas é impossível negar o seu talento. De certa maneira, o seu estilo opera em um nível em busca de uma certa musicalidade bem peculiar, já que é difícil estandartizar pianistas de jazz como bandas de rock.
Mas é importante afirmar: Jamie Cullum não é Frank Sinatra, nem Tony Bennett. Não adianta reclamar, depois de ouvir. 
|