| MAIS MULHERZINHA, MENOS GATUNA
Mulher-Gato interpreta mal tanto os quadrinhos quanto a cartilha feminista
por
Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

os quadrinhos, a origem da Mulher-Gato é tão antiga quanto a de seu rival morcego. Também criada por Bob Kane, ela surgiu na primeira edição da revista Batman , conhecida apenas como “A Gata”. Através dos anos, não só seu nome como também sua personalidade foi incrementada. Foi progredindo de bandida a quase heroína, primeiro motivada por seu eterno “rolo” com Batman, depois porque se tornou refém da própria popularidade – uma armadilha que já descaracterizou outros vilões como Venom, do Homem-Aranha, e Deadpool, dos X-Men. Ainda hoje sua revista mensal patina tanto na definição de sua índole quanto nas vendas.
Sua longevidade, porém, prova que a Mulher-Gato ainda sabe permanecer, com graça felina, em cima do muro. Seus roteiristas, tanto da DC Comics quanto de sua empresa-mãe, a Time Warner, é que não sabem lidar com suas ambigüidades, como revela Mulher-Gato , o filme-solo da personagem que estréia no dia 13. Como desgraça pouca é bobagem (ainda mais para uma gata preta numa sexta-feira 13), o filme vem ensanduichado pelas expectativas de ambas as grifes: a Warner espera finalmente voltar a abocanhar parte do filão das adaptações de quadrinhos, do qual esteve ausente nas últimas temporadas; e a DC torce para que o filme turbine o interesse pela revista, como os longas da Columbia, UIP e Fox fizeram pela Marvel.
É, contudo, mais um projeto do estúdio do que da editora. Rodava Hollywood desde Batman – O Retorno e inicialmente contava com o interesse de Ashley Judd – o que já indicava um distanciamento da loirice fílmica de Michelle Pfeiffer, mas mais fidelidade à morena original das HQs. Quando, porém, Halle Berry, uma negra, foi anunciada como protagonista, a Warner oficializou a extração completa da Mulher-Gato de seu contexto original. Os leitores de quadrinhos já estavam alertados que nem deveriam se aproximar dos cinemas.
Berry não é Selina Kyle, e sim Patience Phillips, uma tímida designer publicitária que vive sozinha numa cidade que pode ou não ser Gotham City. Sua vida é alterada quando ela descobre que a empresa para a qual trabalha, a Hedare Cosméticos, planeja lançar um creme com graves efeitos colaterais. Patience morre mas é ressuscitada por um raça egípcia de gatos, que lhe confere parte de seus instintos animais e... superpoderes.
Ao contrário das Mulheres-Gato antecessoras, que a patética premissa mística do roteiro dá reviravoltas para justificar e incluir, a versão de Halle Berry conta com agilidade sobrehumana. Julie Newmar evidenciava a manha felina; Michelle Pfeiffer, o mistério. Para o diretor francês Pitof, Halle Berry só é gata por subir nos telhados. Um perigo, haja vista que Pitof é, originalmente um supervisor de efeitos especiais, e que, portanto, abusa de cenas digitais similares às de Homem-Aranha , mas mais constrangedoras.
Ainda: Newmar sendo manhosa e Pfeiffer sendo misteriosa eram sexies. Berry tenta ser sexy e não é nada. É, senão, um mero fetiche sadomasô que aliena o subtexto feminista da personagem para enquadrá-la numa perspectiva machista. Trazer a história para uma empresa de cosméticos adicionou um quê de dilema moderno, arquetípico, entre a mulher que descobre sua própria força internamente e a outra, que o faz pela beleza externa – a supermodelo Laurel Hedare, vivida por Sharon Stone. Mas, quando Patience veste sua roupa de couro rasgada, e só assim consegue lidar, em pé de igualdade, com as figuras masculinas de sua vida, o filme faz sua escolha ideológica, ainda que passe o resto da trama se contradizendo para favorecer a heroína, à mando da cartilha de Hollywood.
Para horror de suas antecessoras, que a nova Mulher-Gato é mais mulher do que, de fato, gata. Para horror dos fãs de quadrinhos, ela é mais mulher e gata do que gatuna. Assim, desrespeitando ambos os seus públicos-chave, fica difícil um filme desse dar certo. Menos mal, então, que Batman tenha ficado de fora. |