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10 a 25 de agosto de 2004

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TIROS EM SARAJEVO
Há noventa anos, um atentado na capital da Bósnia deflagrava a I Guerra Mundial

por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

lvin York era um camponês do interior do Tennessee que se tornou herói na Segunda Guerra Mundial ao capturar sozinho 132 alemães usando apenas os seus conhecimentos de caça. Metido a valentão quando jovem, já adulto, se tornou um homem religioso. Quando os Estados Unidos entraram no conflito, em 1917, ele tentou recorrer contra seu alistamento, mas acabou convencido por seus comandantes que ele deveria seguir o destino de tantos outros heróis de seu país. Alegava que a Bíblia era contra a morte. Então, tomou conhecimento da história de Dave Crockett. De repente, um surto patriótico o levou a servir, junto com um milhão de americanos, para cair na vala comum da guerra de trincheiras na frente ocidental, na França. No fim da contra-ofensiva ianque, York apareceu surpreendentemente com uma centena de prisioneiros. Explicou depois que caçava os alemães armados até os dentes como se fossem patos de quermesse.

O homem religioso de antes se transformara num truculento assassino? Quando seus estarrecidos oficiais perguntaram o que motivou Alvin àquela façanha mítica e o levou a promover aquele banho de sangue e derrotas as hostes inimigas, ele explicou: agiu em defesa aos seus companheiros. De volta à pátria, se tornou um herói condecorado. Contudo, assim como ele, muitos outros soldados cumpriram o seu dever sem saber que diabos os levou até os conflagrados campos da Europa. Alguns até tinham ciência de que o estopim daquele conflito que envolveu tantas nações havia se fortalecido pelo imperialismo europeu e deflagrado por conta de um mero fato isolado: o assassínio do herdeiro da coroa dos Habsburgo, o arquiduque Francisco Ferdinando. A chamada Primeira Guerra Mundial (1914-1918) começaria num 28 de julho, ou seja, há 90 anos.

BARRIL DE PÓVORA

Quando o chefe de segurança do Reino da Sérvia, Dragutin Dimitrijevic, soube que o herdeiro do Império Austro-Húngaro iria à Sarajevo a fim de inspecionar suas tropas e demonstrar força na capital bósnia, ele decidiu agir. À princípio, fabulou um ato de repúdio. Os líderes sérvios nunca esconderam o sentimento de revanchismo desde que o os austríacos anexaram aquela região vizinha, em 1908, impedindo a formação do sonho de uma grande nação balcânica livre — a Grande Sérvia . Por conta disso, os interesses da monarquia de Belgrado se chocavam com a dos Habsburgo. Junto com o generalato sérvio e com o apoio direto da Rússia, Dimitrijevic decidiu eliminar o sucessor do trono austríaco, que visava anexar todos os territórios eslavos sob sua Coroa. Digamos, então, que as garupas sejam proibidas. No dia em que eu quiser dar uma carona, na minha moto fictícia, a um colega de trabalho, levarei uma multa. Ele seria a obrigado a utilizar um veículo próprio, colaborando com nosso trânsito já caótico.

Naquele momento histórico, a situação nos Balcãs era instável. No final do século XIX, esse canto do mundo foi agitado por diversas querelas territoriais, implicando sucessivas intervenções das potências européias, a fim de minimizar esta área, que tinha uma importante função no comércio com o Oriente. Além disso, o imperialismo russo do Czar Nicolau II (aliado com a França e Inglaterra, desde 1907) também tinha interesse naquelas províncias, a fim de obter o domínio do decadente Império Turco — chocando-se também com os planos alemães e austríacos de estabelecerem uma estrada de ferro que ligasse Berlim à Bagdá, para assim dominar economicamente a região balcânica, que era considerada a “esquina do mundo”.

MORRER PELA PÁTRIA

Já os pequenos reinos da península, reunidos numa liga, procuravam se livrar do domínio estrangeiro, proclamando sua independência entre 1911 e 1913. O problema é que os respectivos grupos étnicos que formavam o território, inflamados em movimentos nacionalistas, não chegavam a um termo a respeito de uma fixação de suas fronteiras. Isso acontecia principalmente com a Sérvia, cujo grande objetivo era retomar a Bósnia-Herzegovina, que logo estaria toda nas mãos do arquiduque Francisco Ferdinando. Ou seja, a sua investidura ao trono austríaco significava a perpetuação da indesejável influência dos Habsburgo nos Balcãs.

A vitória dos pequenos países agora independentes na guerra contra os turcos impressionou o mundo e alarmou a Áustria. Porém, quando aqueles se desentenderam quanto à partilha, Viena cautelosamente forçou o reconhecimento da Albânia como Estado independente. O isolamento sérvio espertamente promovido pelo Império Austríaco os deixava sem saída para o mar, e apenas aumentou o seu ódio à Coroa. Dentro do reino, forma vam-se sociedades secretas antiaustríacas, cuj a mais atuante era chamada Mão Negra. Esta sociedade se ramificou na Jovem Bósnia, situada dentro da região balcânica anexada à Áustria. Juntos, por meio de atentados terroristas e propaganda ideológica, eles pretendiam formar uma grande família de grupos eslavos na Europa Oriental.

Para tanto, era preciso eliminar o arquiduque. Dimitrijevic foi o algoz. Para agir em segredo, ele apoiou uma organização chamada Ujedinjenje ili Smiert (União ou Morte), braço armado da Mão Negra, à soldo de Belgrado. Em maio de 1914, alguns integrantes da Smiert chegava m à Sarajevo: os jovens Gavrilo Princip, Nedjelko Cabrinovic e Tri fko Grabez. C ontataram mais quatro mercenários pouco experientes e muito jovens. Por conta desses dois fatores e inflamados pelo nacionalismo pan-eslavista, eles aceitaram morrer pela Sérvia. Naquela manhã de verão de 28 de junho, todos os sete se colocaram estrategicamente entre a multidão ao longo da avenida Appel, que cortava a capital, prontos para abrir fogo no arquiduque, que se dirigia à Prefeitura da cidade.

UM ALVO FÁCIL

Na hora exata, Cabrinovic lançou uma bomba em direção ao cortejo, e se jogou no rio Milajcka, que margeava a avenida, para se ocultar, mas foi pego pela polícia. Por sorte, e pelo fato de o motorista do veículo oficial ter acelerado, a explosão ocorreu sob as rodas do carro que vinha atrás, atingindo dois membros da comitiva real. Furioso, Francisco Ferdinando repreendeu à segurança. Porém, apesar do clima desfavorável, após a visita ao prefeito, Sua Alteza resolveu se expor mais uma vez. Decidiu ir ao hospital da cidade à tarde, para uma visita às vitimas do atentado matutino. Confuso, Gavrilo, que passou ileso, resolveu encalçar o cortejo do arquiduque. Diante do Café Schiller, ele não acreditou quando viu o carro oficial em sua direção, perdido pelas ruas da cidade. O motorista, que antes havia salvo o príncipe, agora conduzia o casal imperial para as mãos de seu algoz.

O coche que conduzia Francisco Ferdinando e sua esposa, Sofia, estava com a capota arriada, e o casal era alvo fácil numa cidade conflagrada. O arquiduque, que viera à Sarajevo para dar mostras de seu poder e da sua superioridade militarista, não enxergou que estava exposto a qualquer tipo de atentado. Aliás, já havia escapado milagrosamente de um, horas antes. No meio da negligência da chancelaria austríaca, o governo imperial havia sido avisado sobre rumores de um atentado contra Sua Alteza, mas devido à brigas com o serviço secreto do Imperador, a notícia se perdeu. O príncipe não deu ouvidos ao embaixador sérvio. Tinha certeza de que seus planos de dominação imperialista estavam devidamente encaminhados. Esta tamanha cegueira o impediu de acreditar que ele mesmo se colocara na alça da mira dos nacionalistas radicais.

Ao ver o calhambeque real passar pelo Café, P rincip atirou. Em passos rápidos, correu em direção do carro, descarregando a arma. Um, dois, três, enfim, uma chuva de petardos crivou Ferdinando e sua mulher. Todos vieram socorrê-lo enquanto populares caçavam o jovem sérvio. Sofia estava morta, com um tiro certeiro no peito. O arquiduque, resfolegava, mortalmente ferido, alvejado na altura do pescoço. Em sua loucura, sobre o corpo da esposa, num vestido branco manchado de sangue, ele repetiu, até a morte :

— Sofia, Sofia! Não morra! Fique viva para nossos filhos! Fique viva para nossos filhos! Fique viva para nossos filhos!

Ao serem conduzidos às pressas de volta ao palácio governamental, no enlevo do suave estio de Sarajevo, os dois lá chegaram sem vida. O clima de terror e perplexidade era geral.

CASTELO DE CARTAS

A trágica visita do arquiduque, que havia sido mandado até à Bósnia a fim de pôr termo na “Questão Balcânica”, consolidando a presença dos Habsburgo sobre as minorias daquela região da Europa, fez com que todos os acordos entre os países do Velho Continente e seus respectivos equívocos diplomáticos ruíssem como um castelo de cartas. No calor da hora, o governo austríaco exigiu da Sérvia a abertura de inquérito para apurar responsabilidades da morte do príncipe, devendo colaborar nas investigações uma comissão de funcionários austro-húngaros. A exigência foi rechaçada pelos sérvios, sob a alegação de atentar contra a soberania de seu país.

A trágica visita do arquiduque, que havia sido mandado até à Bósnia a fim de pôr termo na “Questão Balcânica”, consolidando a presença dos Habsburgo sobre as minorias daquela região da Europa, fez com que todos os acordos entre os países do Velho Continente e seus respectivos equívocos diplomáticos ruíssem como um castelo de cartas. No calor da hora, o governo austríaco exigiu da Sérvia a abertura de inquérito para apurar responsabilidades da morte do príncipe, devendo colaborar nas investigações uma comissão de funcionários austro-húngaros. A exigência foi rechaçada pelos sérvios, sob a alegação de atentar contra a soberania de seu país.

O bombardeio de Belgrado pôs em jogo as alianças feitas anteriormente de acordo com as conveniências políticas e econômicas de cada região. A Rússia apoiava a causa sérvia, mobilizando as tropas alemãs. Pela Entente, os franceses entravam no conflito, em auxílio ao Czar. Em resposta, os alemães invadem a Bélgica e declaram guerra à França. Esta invasão, por seu turno, também provocou a entrada da Inglaterra na luta. Países vizinhos, sob a promessa de soberania sobre áreas vizinhas, ofereciam reforço militar à parte que melhor soubesse atraí-las. Desta forma, Turquia e Bulgária ficaram do lado da Aliança, enquanto Japão, Montenegro, Romênia e Grécia se juntaram à Entente, em apoio à Sérvia. Pelo controle do Adriático, a Itália mudaria de lado, em 1915.

— Como que impulsionado por um incontrolável efeito multiplicador, o brutal assassinato do casal de arquiduques, ao longo dos quatro anos seguintes, gerou a morte e ferimentos graves em quase oito milhões de europeus — diz o historiador Voltaire Schilling.

HERANÇA DE ÓDIO

O corolário da I Grande Guerra foi avassalador. Cerca de 10 milhões de soldados mortos, 20 milhões feridos, mutilados e inválidos e mais 10 milhões de civis mortos por bombardeios, massacres, fome e epidemias. É necessário destacar alguns dos muitos genocídios. Além da matança aos judeus ( pogroms ), o massacre imposto aos armênios (1915-16). Os Turcos, vendo que perdiam os combates, assassinaram mais de 1 milhão de armênios radicados no país, com requintes de selvageria. Mais do que isso, as condições dos acordos de paz impostos aos povos vencidos não resolveram a questão da disputa imperialista. A herança da guerra de 1914 foi de puro ódio e contribuiu para que as nações vencidas adotassem mais tarde ideais totalitários e ditatoriais.

Para saber mais:

A Era dos Extremos , de Eric Hobsbawn. Companhia das Letras, 1996.

A Primeira Guerra Mundial , de Luiz Rodrigues. Coleção Discutindo a História, Atual.

O Século XX , de René Remond. Cultrix.