| ALÉM DOS PALCOS
Festival de Rio Preto promove intercâmbio entre grupos, propostas e amores que ousam ou não dizer seu nome
por
Washington Calegari
(wocalegari@uol.com.br)

no mínimo curioso chegar à conclusão de que, num festival internacional de teatro, as peças apresentadas acabem sendo, no final das contas, um detalhe - que confere sentido oficial ao evento, é verdade, mas certamente não dá conta de traduzir a energia ali trocada, que extrapola os palcos e debates e inunda as festas e os bastidores dos restaurantes, dos hotéis e dos mais variados cantos da cidade-sede. Possibilidade estimulante e vibrante, que ajuda a definir o espírito do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, encerrado no último dia 25 de julho, sob o tema “Américas por todos os lados”.
das A integração em Rio Preto nasce nas coxias, mas também nos almoços e jantas em conjunto e na hospedagem no mesmo hotel da maioria dos participantes – elementos que deveriam ser rotina de todos os congêneres que pretendem ser efetivas usinas de intercâmbio teatral. Esse que é um dos mais antigos festivais de teatro do Brasil, surgido em 1969, e que há quatro anos tornou-se internacional, teve, neste ano, pequena participação estrangeira – uma peça da Colômbia, uma do Japão e outra dos Estados Unidos. Revelou-se, assim, espaço privilegiado de performances e experiências cênicas diversas de grupos nacionais – Oficina Uzyna Uzona, As Graças, Cia. Linhas Aéreas, Lume e Os Satyros lado a lado a propostas experimentais e grupos iniciantes de capitais como Belo Horizonte e Florianópolis e cidades do interior paulista.
das A troca de experiências profissionais e pessoais entre companhias foi, certamente, motivo primeiro de gratificação para os profissionais, seja nos bastidores, seja nos palcos. Intercâmbio que pode ser traduzido na tentativa de um grupo de atores e jornalistas brasileiros expressar, em japonês, o quanto os convidados da T Factory, de Tóquio, eram bonitos e bem-vindos, numa demonstração de carinho em plena hora da janta – momento, aliás, apropriadíssimo para esses encontros em Rio Preto, entre alfaces, lasanhas e sorrisos. Ou ainda nos sonolentos “bom dia” na mesa de café da manhã do hotel, rigorosamente retirada às 10 da manhã e quase única responsável pela debandada matutina dos lençóis dos convidados do festival, baladeiros ou não.
das E, se “a única coisa que faz o teatro é o instante, o encontro do ator com o público”, conforme define o ator e dramaturgo Gero Camilo, que apresentou seu A Procissão , o calor do contato humano não poderia, é claro, ser exclusivo dos bastidores. No quesito programação, provavelmente nunca o Festival de São José do Rio Preto reuniu, de uma só vez, como este ano, tantos atributos artísticos capazes de estabelecer ligação com o público por meio da sensibilidade ou da perturbação com temáticas nada conservadoras, que aprofundaram, entre outros temas, o homoerotismo e o sadismo.
das Da delicadeza de Coisas Invisíveis , da Cia. Clara, de Minas Gerais, e Agreste , da Razões Inversas, de São Paulo, ao poder transgressor de Filosofia na Alcova , passando pela overdose de sofrimento de Oscar Wilde em De Profundis , ambas da companhia curitibana-paulistana Os Satyros, e pela combustão hormonal adolescente de O Amor Que Ousa Dizer Seu Nome , o amor e o sexo foram temas recorrentes dos espetáculos.
asjdAté mesmo as montagens internacionais Mosca , da Colômbia (adaptação de Titus Andronicus , de Shakespeare) e Hamlet Clone , do Japão, adentraram o universo da sexualidade e dos valores que a definem em cada sociedade, com direito, inclusive, a Hamlet gay. Sem esquecer do Oficina Uzyna Uzona, que apresentou A Terra , O Homem 1 , O Homem 2 e o ensaio aberto de A Luta , montagens que concebem a sexualidade de forma libertária – como não poderia deixar de ser em se tratando de Oficina. Já no campo das performances, a ousadia revelou-se em trabalhos como O Banquete , em que um buffet de guloseimas e indivíduos nus sobre a mesa mesclou-se a um massacre de galinhas, comidas vivas e veladas ao som de techno.
AMORES VISÍVEIS E INVISÍVEIS

das Tais montagens teatrais são exemplos de que Rio Preto refletiu um fenômeno já notável no Festival de Curitiba e na capital paulista neste 2004: a profusão de espetáculos que abordam as diversas manifestações do afeto humano e do sexo. A capacidade de envolver, chocar ou, até mesmo, incomodar o público é explícita, por exemplo, em Filosofia na Alcova , uma das peças mais aguardadas do festival. O texto sem pudores de Marquês de Sade, aliado a interpretações viscerais, encontrou eco na curiosidade da platéia, que ria, contorcia-se de incômodo em algumas cenas de simulação de relações sexuais ou até mesmo num simples beijo entre dois homens.
das O extremo oposto da incisiva montagem d´Os Satyros no trato da sexualidade encontra expressão principalmente nos espetáculos Coisas Invisíveis e Agreste . Na primeira, a encenação da trajetória de quatro jovens que descobrem seus desejos e amores demonstra sua força e poesia nas coisas não-ditas pelos personagens, que sentem, mas pouco se expressam por palavras - que, no final das contas, só atrapalham a comunicação, como conclui um deles.
das Olhares e expressões se adequam à proposta de tratar do invisível que cerca as relações amorosas, hetero e homossexuais, para culminar na conclusão de que, entre encontros, desencontros e reencontros, deve prevalecer a riqueza de possibilidades e a capacidade de cada um em transformar a vida de outros.
das Em Agreste , indicada ao Prêmio Shell de melhor texto (Newton Moreno), direção (Márcio Aurélio) e ator (João Carlos Andreazza), a delicadeza se faz presente na aridez da (in)comunicação de um casal aparentemente comum do Nordeste, assim como na ingenuidade e o desconhecimento de uma mulher em relação ao próprio corpo e ao de seu(ua) amado(a). A revelação, após a morte do marido, de que ele, na verdade, era uma mulher, expõe não somente a ignorância da mulher, mas a pureza de seu amor, exposto ao preconceito de uma sociedade conservadora e patriarcal.
das Entre amores que ousam ou não dizer seus nomes, visíveis e invisíveis, a programação de Rio Preto 2004 ofereceu panorama variado e consideravelmente ousado sobre o amor e a sexualidade humana. O festival se enriquece, assim, por confirmar-se como importante espaço de contato entre grupos, propostas e abordagens que, no campo da arte, serão tanto bem-vindas quanto necessárias e desejadas, especialmente quando postas em prática com sensibilidade, honestidade e talento.
das Para além das substâncias temáticas e estruturas dramatúrgicas, o festival se fortalece, sobretudo, pela integração que transcende os palcos. Ao menos durante onze dias, respirou-se, em Rio Preto, teatro. Experiências cênicas dialogaram. Sotaques e línguas se misturaram. E beberam-se novas e velhas amizades, em nome e benefício da arte. Não é herança pouca num país em que, para (sobre)viver de teatro, só mesmo sob as bênçãos de Dionísio. |