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25 de agosto a 8 de setembro de 2004

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O LIVRO DA SINA
A tragédia perpassa as entrelinhas de Mario Vargas Llosa, em Os Filhotes.

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

eia o prefácio depois. Esqueça-o por uns dias. Não cometa a obviedade proposta pelas editoras de seguir a ordem numérica das páginas. Se quiser sentir a história lancinar, deixe o prefácio descansando. Um pouco, apenas, nem irá doer. Siga em frente e caso encontre a “Introdução à Primeira Edição” pela frente, ignore. Tudo isso pode ficar para depois. Procure a página cor de creme em que se encontra escrito Os Filhotes e, então, se entregue.

É um merecimento ler uma história de Mario Vargas Llosa sem receber explicações prévias. Os Filhotes (Companhia das Letras – 1999 – Tradução: Sérgio Molina) é uma narrativa que caminha na fronteira da tragédia – no sentido aristotélico do termo. Por isso é tão forte. Ela parece agregar o que há de mais extremo nesse gênero, colocando o leitor no centro de um redemoinho emocional.

Entre o ponto de partida e o de chegada podemos somar três décadas. Trinta anos acompanhando a vida de Cuellar, Curió, Chibo, Maneco e Lalo. Crianças. Adolescentes. Adultos. Completos? Talvez. As lacunas deixadas pelo caminho, possivelmente, não afetariam o resultado. De fato, não influenciariam. Uma vez que o herói trágico não tem outra opção que não seja o cumprimento de seu destino. Ele pode até tentar driblar o olhar dos Deuses e procurar outro caminho, mas a sina estará esperando por ele em algum ponto da estrada.

Quando Vargas Llosa deu a Cuellar, personagem principal, a marca da divindade, provavelmente não imaginou que causaria tanta inquietação. Os Filhotes foi um texto concebido entre dois romances do escritor peruano - A Casa Verde e Conversa no La Catedral – e ele não deve ter atentado para a força simbólica que emana daquele garotinho inteligente que encontrou, nos amiguinhos de escola, sua redoma de proteção, e quis seguir assim até que eles não existissem mais.

Se folheada com descuido, a obra pode não passar de mais um conto machista calcado em um incidente bizarro. Se apreciada com cuidado, é um mergulho nas dores mais secretas do ser. Aquelas que fazem qualquer indivíduo ocupar todos os horários livres do dia para não pensar nelas. Pois bem, o drama do protagonista é construído nesse patamar e o panorama social que ambienta a trama não é dos mais favoráveis: uma sociedade repressora, machista e moderadora das atitudes do indivíduo.

Qual é a novidade, então? Entre tantos textos construídos com essa temática, o que pode haver em Cuellar que o leve ao Olimpo, e deixe diversos personagens similares no purgatório? A resposta pode ser colocada assim: escolha atribuída a ele. Enquanto muitas figuras, trágicas por excelência, fazem parte da geração de malditos, que retratam seres marginalizados por quebrarem as normas sociais, o rapaz deseja fazer parte dessa sociedade, por mais deteriorada moralmente que ela seja.

Ele quer, anseia, faria tudo para ser machista e opressor, mas não pode. Enquanto seus companheiros vão se desenvolvendo e seguem didaticamente todos os rituais de continuidade naquele universo, Cuellar é, aos poucos, expulso da redoma, do meio em que as dores eram amenizadas pela fantasia de que, um dia, ele acordaria com um visto de passagem permanente para aquele mundo e nunca mais lembraria que fora marcado pela diferença. A tragédia teria um revés e ele seria feliz para sempre.

No entanto, é no ápice da ilusão que o coro grego aparece e anuncia que a fuga é vã. Na narrativa de Vargas Llosa, é da boca dos amigos, dos pais, das meninas da cidade, das vozes desconhecidas da vizinhança, dos bairros mais afastados, que o personagem ouve a sua sentença. Não há jeito. “Tem que ser forte, rapaz”. O que é a força diante das algemas do destino? Que coragem pode ter um homem fadado a cumprir uma sina, que lhe caiu sobre os ombros, sem o seu consentimento?

Antígona que, sabendo a desgraça que a espera, decide seguir em frente, não é um modelo costumeiro de selecionados para o Olimpo. Boa parte deles é como Édipo, que tomou o caminho oposto, afastou-se de sua terra e lutou até o fim para evitar a realização da profecia do Oráculo: matar o pai. Não conseguiu. A um herói trágico não é permitida a fuga. A escolha não estava escrita na trajetória de Cuellar e a resignação que o leva a cumprir o que estava reservado, acaba sendo, naquele meio, a porta para a sua libertação.

É a catarse, tão importante para a concretização da tragédia. Vale a pena ler e reler esse livro; mas siga o conselho: deixe o prefácio e a introdução para mais tarde. Sim, alguns dias depois. Não apressemos as coisas. Que a poeira assente sozinha. No seu devido tempo. As considerações adicionais, por melhores e mais lúcidas que sejam, podem esperar um pouco. Por fim, se, ao ler este artigo, o leitor achou que o final do livro é óbvio, não se atormente. A grandeza de Os Filhotes não está em adivinhar o final, mas em sentir o percurso até ele.