| NO INTERSTÍCIO DA DESCOBERTA
Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e Eu flagra as epifanias do mundo, de seu autor e do mundo de seu autor
por
Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)
 comum no meio literário a recomendação de que não se deve tentar escrever um livro antes dos 25 anos. O resultado é, inequivocamente, imaturo, marcado tanto pela ansiedade profissional quanto pela parco discernimento ante os tumultos da vida pessoal: o que é eventual e o que é matéria-prima para a literatura? Há autores precoces, porém, dispostos a desafiar a referência etária. A coletânea de contos Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e Eu , primeira publicação do paulistano Julián Fuks, 22 anos, mostra com sobriedade que o instante em que floresce o escritor independe da idade. É simultâneo ao de outro despertar – o dos personagens sobre os quais ele discorre.
Habituado pela formação jornalística na Universidade de São Paulo, mas ao mesmo tempo desgostoso com a profissão, Julián deposita sobre o cotidiano, portanto, um olhar ambíguo e clínico, disposto a flagrar o ridículo das pequenas epifanias diárias. Fragmentos narra não mais que migalhas de personagens inconclusas, no momento exato em que suas vidas, substratos da imprensa mundana, se tornam, por assim dizer, literárias, mais até do que ficcionais. São os suicidas à beira da ponte, os funcionários frustrados que sonham com a demissão, os falecidos a escrever do além-túmulo.
Julián tomou gosto pela escrita rabiscando versos, mas só passou a aprovar suas próprias criações quando migrou para a prosa. Os contos que compõem Fragmentos , embora abarquem um longo período da sua vida, não perdem o frescor e os tropeços de um escritor na gênese da própria formação, por vezes estupefato consigo mesmo a encará-lo de volta no papel. Como confirmou em entrevista ao Rabisco , Julián não enxergava, a princípio, uma coesão narrativa nas dezenov e histórias. Era a percepção do autor. Hoje, quem o lê, sabe que o livro prende (e se prende) porque é uma janela de volta à esta época. Descobrindo-se a si mesmo, Julián é tão ou mais personagem que seu proverbial Alberto, Ulisses e Carolina.
Nasceu ali o escritor – de fato, muito antes do limite dos 25 anos. O escritor publicado , contudo, só viria à luz com o apoio da Editora Sete Letras e o Projeto Nascente. Se há um título ironicamente apropriado, é o desta premiação, organizada em parceria pela USP e pela Editora Abril. Julián conta que foi a vitória no Nascente que o estimulou a tentar publicar os contos inscritos. Eram outros, além da pouco confiável consciência de todo escritor, que, enfim, aprovavam seu talento. A Sete Letras abrigou-o dentro da coleção Rocinante, ao lado de colegas emergentes como Clarah Averbuck ( Das Coisas Esquecidas atrás da Estante ) e Ana Paula Maia ( O Habitante das Falhas Subterrâneas).
O próprio livro cede espaço a justas homenagens a Milan Kundera e Ítalo Calvino – este último, na sensível crônica “Os Destinos Cruzados”, introjeatada como suas irmãs, mas provavelmente a de estrutura mais conservadora e mais deliciosamente eficiente. Julián, contudo, dribla ágil qualquer pergunta sobre suas influências. “Em se tratando de primeiras experiências, acho que não tinha tanto controle a respeito de adora ou evitar certos estilos”, conta. “Fui escrevendo e descobrindo qual era o meu”.
O resultado é uma narrativa paradoxal de tão talentosa, que desconstrói a catarse de cada personagem para revelar, no núcleo de todas, uma inação. Julián se debruça sobre longas descrições que, ao retardar o momento climático breve, por vezes pífio, alargam aquele pequeno buraquinho pelo qual todo escritor (e seu leitor) quer observar a alma humana. Pelo mesmo motivo, os diálogos também são refratados. “Se tendo à descrição, é porque algo em cada parágrafo me pede que eu o faça. Se escrevo poucos diálogos, talvez seja por incapacidade de escrever boas conversas, profundas, necessárias”, acredita.
Os dois e pontos e travessão sumiram de Fragmentos , talvez, por outro motivo. O flagrante da natureza humana só se revela nos momentos de solidão. Com mais freqüência do que se quer acreditar, não há, em cada historieta, o interlocutor que se faz necessário aos personagens. A falta, enfim, é nossa motivação máxima – e eis ali o pai de família desenganado pela medicina, a comunicar-se com o passado com uma carta numa garrafa; o cão colocado de escanteio, ganindo baixo, em busca da atenção do dono; o garoto de luto, que não responde aos apelos da mãe para que desça do telhado da capela onde seus irmãos estão sendo velados. São fábulas de incomunicabilidade, todas elas, mesmo quando, diante de si, estão viajantes num mesmo trem ou amantes num mesmo relacionamento (reversos da mesma fortuna; as metáforas são todo um capítulo à parte).
Este desencontro (título, aliás, do conto final) pouco faz para evitar um clima geral de desamparo e frustração por todas as páginas. Julián, como bom escritor, lava as mãos. “Não acho que seja um livro pessimista, mas confesso que, colocado dessa maneira, talvez possa ser, mesmo”, alega. Apressa-se, porém, a acrescentar que não se trata de um reflexo de seu estado de espírito. Nem deveria ser. Não há razão para desolação diante de um talento que surge com tanta força. Julián anuncia que já tem preparado seu segundo livro. É seu trabalho de graduação, a respeito de três escritores cegos que mesclaram jornalismo e ficção: Borges, João Cabral e Joyce. O jovem autor prefere escolher grandes companhias. Ainda não completou 25 anos nem perdeu a visão – como seus personagens, está ainda no interstício, no ínterim, o momento máximo da descoberta e da criação. |