Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

25 de agosto a 8 de setembro de 2004

Equipe Edições Anteriores

FÓRMULA DE BOLO, MAS FALTA O FERMENTO
Jim Carrey e Adam Sandler não conseguem fazer graça em dois lançamentos em vídeo que apostam no óbvio

por Fábio Freire (fabio_fcosta@hotmail.com)

odo Poderoso e Tratamento de Choque são filmes que seguem uma cartilha mais que batida em Hollywood. Lançadas praticamente na mesma época, primeiro semestre de 2003, as duas produções foram sucessos de bilheteria enveredando pelo mesmo gênero, a comédia, e sendo protagonizadas por dois astros consagrados do estilo, Jim Carrey e Adam Sandler, respectivamente. Os filmes também têm em comum a presença de atores tarimbados tentando esconder as falhas do roteiro, Morgan Freeman e Jack Nicholson, e duas belas atrizes como interesse romântico dos protagonistas, uma Jennifer Aniston em ascensão e uma Marisa Tomei em decadência. Mas as coincidências não param por aí.

Todo Poderoso é um filme médio feito para faturar horrores nas bilheterias (o que, de fato, aconteceu) e recuperar o prestígio de Jim Carrey depois do fracasso comercial do drama Cine Majestic . O astro se reuniu com o diretor Tom Shadyac, que esteve no comando de dois de seus maiores sucessos, Ace Ventura e O Mentiroso , e embarcou em um longa falho e irregular. Apesar da premissa interessante (o que você faria se tivesse os poderes de Deus por uma semana?), a produção deixa a comédia de lado e prefere adotar o estilo Disney de ser: o ritmo narrativo fica em segundo plano enquanto o foco é passar uma mensagem politicamente correta. Não sabendo dosar comédia e “drama”, o diretor e Carrey se perdem nas próprias pretensões.

skljlA trilha sonora edificante, a mensagem melosa e o roteiro esquemático diminuem a força do filme e quebram o fluxo narrativo, fazendo o espectador perder o interesse na história que está sendo contada. As atuações do trio protagonista não ajudam. Jim Carrey é muito melhor em papéis sérios do que quando apela para suas famosas caras e bocas. O atuação do astro acaba soando falsa e as poucas piadas engraçadas são em decorrência de gags visuais ou efeitos especiais. Carrey não consegue fazer rir, muito menos emocionar, com sua suposta “transformação” em uma pessoa melhor. Morgan Freeman é um ótimo ator, mas não tem muito o que fazer aqui. Já Aniston é bela e talentosa, mas fica relegada ao papel de catalisadora da mudança de comportamento de Carrey, já que, em determinado momento do longa, ela dá um pé na bunda dele.

Tratamento de Choque , do diretor Peter Segal, não foge muito do esquema. Apesar do desenvolvimento mais interessante que o do filme de Carrey e da atuação irritante de Jack Nicholson, que atrai a atenção do espectador sonolento, a produção não foge do esquemático final feliz, no qual o mocinho recupera a mocinha e se “transforma” em uma pessoa melhor. Enfim, a mesma fórmula de Todo Poderoso . A diferença do filme de Sandler é que o final é tão sem sentido que o espectador se sente enganado e qualquer simpatia pela trama se esvai.

Adam Sandler interpreta o boa praça de sempre, mas que, aqui, não consegue expressar sua fúria e superar traumas do passado. Algo que ele já tinha feito antes, com mais competência e sem a habitual apatia, no interessante Embriagado de Amor . Depois de um incidente em um avião, Sandler é obrigado a fazer terapia para aprender a controlar sua raiva interior. É a partir daí que ele passa a conviver com os tipos mais estranhos, o que acaba salvando, em parte, o filme com participações bem inusitadas: John Turturro, Woody Harrelson, Heather Graham e John C. Reilly. Mas ainda é muito pouco para afastar a sensação de dejá vu da conclusão piegas.

Ao final das duas produções, fica com aquela sensação de que faltou algum ingrediente para a fórmula do bolo funcionar. Algo como fermento, ou, em outras palavras, espontaneidade. Todo Poderoso e Tratamento de Choque acabam servindo de exemplo como Hollywood funciona, sempre apostando no óbvio. Até os astros sabem disso, tanto que, de vez em quando, partem para fazer produções mais ousadas e que lhes dão mais credibilidade. Caso de Carrey, no recente Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, e Sandler, no já citado Embriago de Amor.