| APARTAMENTO DA TOLERÂNCIA
Albergue Espanhol , agora em DVD, mostra um pequeno painel das relações entre vizinhos europeus
por
Luiz Andreghetto (luiz_andreghetto@hotmail.com)

avier é um jovem francês que, para arrumar um bom emprego em uma grande empresa, vai até Barcelona para aprender a língua e os costumes do povo espanhol. Não conseguindo alugar nenhum local para passar a temporada em solo catalão, acaba sendo aceito em um apartamento/albergue, dividido por várias pessoas, com diferentes nacionalidades. É nesse microambiente que vizinhos europeus tentam conviver com todas as idiossincrasias tão pertinentes a cada pessoa e cultura.
Albergue Espanhol , o filme e o apartamento em questão, funciona como uma clara alusão à necessidade do Velho Continente, agora refeito novo com a União Européia, de entender-se e compreender-se, pois, dividindo a mesma moeda e padrões políticos, encontram-se em um enorme “caldeirão étnico-cultural”. É nesse contexto que o filme se insere, mostrando, através do ponto de vista do ingênuo protagonista toda a heterogeneidade existente nas relações interpessoais. Albergue mostra que as dificuldades culturais, sociais e idiomáticas devem e podem ser superadas, em razão de uma maior tolerância e harmonia entre vizinhos tão díspares.
Dirigido com muita habilidade e frescor pelo francês Cédric Klapisch, o filme ganha em verossimilhança ao colocar no apartamento atores com as respectivas nacionalidades de seus personagens. Apela, contudo, para alguns estereótipos: a inglesa reprimida, o alemão metódico, o italiano desorganizado... É nessa convivência forçada e necessária que cada um amplia seus horizontes étnicos, sexuais e emocionais. Nesse ambiente multifacetado, Xavier experimentará angústias e incertezas, colocando seu relacionamento com a namorada, que ficou na França, e todo o percurso da sua vida em questionamento. O intercâmbio com pessoas tão diferentes entre si fará com que Xavier conheça e aceite melhor os outros, passando a conhecer a si próprio melhor.
Como uma torre de Babel moderna, onde cada um fala uma língua diferente, esses amigos/colegas de quarto vão aos poucos descobrindo o quanto a nacionalidade é apenas um pequeno detalhe e o quanto tolerância, respeito e amizade são a base de todo entendimento e aceitação. O preconceito e a falta de diálogo são trazidos na cultura rasa e xenófoba do recém-chegado irmão de Wendy, a londrina do apartamento. É através dele, uma figura chata e boçal, que o filme se permite alguns dos momentos mais engraçados e embaraçosos do filme.

Albergue pode não ser o filme cabeça e intelectualizado que todos esperam do cinema francês, mas consegue ser leve, bem humorado e nos fazer refletir sobre um mundo que, a cada dia, diminui mais as suas fronteiras. Se até algum tempo atrás a palavra de ordem era “globalização”, vivemos agora em uma época que a palavra que pode definir nosso rumo futuro é “tolerância”. |