| TECENDO DESEJOS
Lygia Bojunga inquieta a alma em relato que trata da beleza de realizar atividades artesanais
por
Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

leitor ou a leitora já sonhou com livros? Sente vontade de cheirar um livro todas as vezes que toca em um novo? Manifesta vontade de levar uma livraria inteira para casa ou viu o próprio quarto ou escritório ou sala de estar, aos poucos, transformando-se em uma biblioteca? Vou além, você já viu sua alma inteira remoer de vontade de fazer um livro? Não de escrever apenas, mas de produzir mesmo? Colocar a mão na massa e fazer o papel, escolher a letra, compor o texto, construir a capa, encadernar e elaborar o título?
A escritora gaúcha Lygia Bojunga vivenciou essa vontade de conceber uma obra inteira; e assim nasceu o Feito à mão (Editora Agir – 2000). A autora relata a construção do livro de uma maneira bastante intimista e poética. Se não estivesse em uma situação espaço-temporal bastante distante da época de lançamento, o leitor juraria que está na casa dela, sentado em um confortável sofá estampado, tomando cafezinho e ouvindo Lygia contar suas aventuras artesanais.
Existem livros que falam do autor, outros tratam de experiências que gostariamos de viver, uns tantos falam diretamente para nós (e sobre nós!) e há aqueles que reúnem todas essas características. Feito à mão é assim. Uma obra que tinha tudo para ser apenas autoral, mas transcende as páginas e acaba abrindo aquele baú que guarda todas as idéias que gostaríamos de colocar em prática, mas são sempre adiadas, além de nos bombardear com a inquietante pergunta: e por que não ?
Acompanhar as experiências de Bojunga é questionar os nossos próprios limites. É refletir se, de fato, não temos condições de fazer o que desejamos. A leitura vai nos tirando de um certo estado de inércia provocado pela rotina. Sair de uma zona de conforto, mesmo que com uma leitura gostosa e agradável, requer cautela, porque existe a possibilidade de ser tomado pela histeria e começar a colocar em prática tudo o que o coração quer, sem se preparar antes. Esse é um ponto importante.
Lygia foi se preparando aos poucos e por esse motivo Feito à mão deu tão certo. Em todos os aspectos. Inclusive, naqueles em que a autora não cogitava no começo, como transformar o livro construído de maneira artesanal em uma obra produzida em editora, para ser comercializada em livrarias comuns. No entanto, guardadas as devidas proporções, foi necessário. Eu provavelmente não teria acesso se ele continuasse artesanal e nem estaria com um exemplar comprado para enviar a um amigo querido, que merece ler esse livro.
A escritora não elaborou a obra para um público específico, é claro; e consegue emocionar até aquela criatura que acha que o mundo começou a existir depois do computador. No entanto, talvez haja um grupo de pessoas que se identifique um pouco mais com livro: aquele que sabe o significado de sentar no chão e mexer com massa de modelar, gesso, barro, tintas, colas, tecidos, tesoura, papéis, lápis coloridos, linhas, agulhas, lonas, lãs; e gasta dias a fio em atividades que produzem itens artesanais.
Quem já sentiu as mãos ficarem inquietas ao ver alguém fazendo papel machê, pintando, bordando ou modelando barro, e venceu a barreira da curiosidade para dizer “eu quero fazer, também!”, sabe do que se trata. É uma vontade incontrolável dialogar, no tato, com a possibilidade de criação. Essa conversa, também, acontece por meio das palavras. Bilhetes, poemas, anotações de lembranças. Tudo isso é matéria prima para se fazer coisas à mão. O melhor do processo é expandir as possibilidades e o relato de Lygia Bojunga explora esse viés com nitidez. Feito à mão é fantástico, porque não termina com a leitura da última página. Apesar de acabado, impresso e disposto para vendas, o livro não é o fim; e sim é o meio pelo qual recebemos um dos melhores presentes que um escritor pode nos dar: o desejo. Desejo de fazer algo realmente nosso; mesmo que seja para ficar guardadinho, em um canto do quarto, sem que ninguém possa ver. |