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11 de setembro a 2 de outubro de 2004

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ELIS E TOM ... NAKED
O encontro do maior compositor com a maior cantora do Brasil retorna em versão remasterizada e ampliada

por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

mantes da MPB e discófilos de todo o Brasil, uni-vos: a gravadora Trama está lançando a edição especial do álbum Elis & Tom , um dos maiores discos de todos os tempos no Brasil. Gravado e editado em 1974, o encontro da cantora com o papa da Bossa Nova faz trinta anos renovado num edição remixada em super-Áudio CD — diferente das tiragens anteriores, cujo “master” foi apenas remasterizado em formato digital. Apesar do preço para lá de salgado (R$ 51,90), muito caro em tempos de pirataria e MP3, o disco vale a pena. Por trás da beleza lapidar do elepê original, consta agora o resultado do trabalho empreendido pelo arranjador e co-produtor do projeto original, César Camargo Mariano. Na verdade, o projeto do novo álbum foi uma empresa a oito mãos: nasceu de conversações entre o presidente da Trama, João Marcelo Bôscoli (filho de Elis e Ronaldo Bôscoli) com o vice-presidente artístico da Universal (a antiga Philips , detentora do maior acervo de MPB no país), Max Pierre, que cedeu os originais às mãos de César Camargo que, junto com o engenheiro de som, Luís Paulo Serafim, viabilizaram o projeto de empreender uma cara definitiva ao álbum e à altura de sua qualidade.

Brigas nunca mais

O encontro histórico entre Tom e Elis foi o final feliz de um longo e tortuoso episódio que os separou dez anos antes, em 1964, desde os testes para a produção do disco Pobre Menina Rica , de Carlos Lyra, trilha sonora da peça de mesmo nome. Na época, Jobim era o co-produtor. No fim, ele a refugou em favor de Dulce Nunes. A alegação, segundo as más línguas, era que o compositor de “Dindi” teria antipatizado com os modos da jovem. Verdade ou mentira, restou a história de que a Pimentinha fora dispensada por ser “muito caipira”. Mesmo passado tanto tempo, a fofoca não se dissipara. Tom foi questionado sobre o assunto e, naturalmente, negou tudo. Disse que já tinha o nome de Dulce em mente, muito antes dos primeiros testes. Contudo, Elis levou muito tempo para se refazer daquele veto, embora cantasse muita coisa de Tom e Lyra no Fino da Bossa . No ano seguinte, a gauchinha faria contrato com a Philips, no calor da hora da suas apresentações no Festival da Canção da TV Excelsior, quando venceu o certame defendendo “Arrastão”. Naquele mesmo ano, ela lançava o seu primeiro disco pelo novo selo , Samba Eu Canto Assim.

O que ninguém contava é que Elis e Tom tinham ninguém menos que Ronaldo Bôscoli em comum, já que, na época, ela era casado com o conhecido autor de “Lobo Bobo”. Pois Bôscoli acabou servindo para aplacar ressentimentos e quebrar o gelo entre a maior cantora e o maior compositor do Brasil. O resultado apareceria aos poucos, como em 1969, quando a cantora resolveu registrar um tema de Jobim em disco (“Wave”). A partir de então, ele seria notório freqüentador dos álbuns dela. Dois anos depois, Roberto Menescal tocou para Elis a mais nova criação de Tom: “Águas de Março”. Ela gostou tanto que a incluiu em seu disco posterior. Foi quando brotou na mente da cantora a idéia de fazer um álbum-encontro, só com canções de Jobim. Em 1974, quando Elis, separada de Bôscoli há dois anos e re-casada, agora com César Camargo Mariano, comemorou dez anos de casa na Philips, a gravadora lhe deu como presente a sonhada sessão de estúdio com Tom em Los Angeles, onde o maestro brasileiro então vivia, junto com a velha turma de “exilados” da “brazillian” jazz West Coast : Aloysio de Oliveira, Moacyr Santos e Laurindo de Almeida.

Apesar do inicial choque de gerações, as coisas foram se arranjando, com o andar da carruagem. Elis partiu com uma lista de quinze músicas favoritas, dentro de um repertório de vinte e cinco números que o compositor havia sugerido. Juntos, eles concordaram no tocante ao repertório, reduzido a quatorze temas, amalgamando velhos sucessos com canções menos conhecidas. No lado musical, o meio termo era a sobriedade das cordas que Tom utilizara em produções de Creed Taylor (Verve) um tanto amerizanizadas , como Tide , com a modernidade nada ortodoxa de teclado, guitarra e contrabaixo elétrico de Camargo Mariano. Os arranjos ficariam a cargo dele, em cima de algumas indicações de Jobim (Mariano se baseou no arranjo original de “Corcovado”, por exemplo), que participaria em suas próprias com vocais, flauta e piano. A batuta seria de Bill Hitchcock, que daria o toque norte-americano na sonoridade do álbum. Com efeito, foi esse “choque de gerações” e a diversidade de músicos durante as gravações (entre eles, Oscar Castro Neves) o responsável pelo primoroso ecletismo do disco.


Arqueologia

Para o trabalho de reconstituição do álbum, realizado em Los Angeles, três décadas depois, César Camargo Mariano refez todo o caminho anterior, faixa a faixa, com lavor de joalheiro. Primeiro, ele se debruçou diante da matriz do disco, a fim de digitalizar a fita analógica, com o cuidado de não desgastar mais o tape, transferindo o material para uma fonte eletrônica. César Camargo pôde desmontar a desgastada fita de áudio de uma polegada, abrir os oito canais das gravações originais e redistribuir cada instrumento e as vozes no sistema “surround”. Curioso é que tal sistema demonstra perfeitamente que repassar a fita analógica para o disco digital serve apenas para conservação.

Para um material histórico, tal descaso seria quase jogar pérolas aos porcos — o velho “AAD”, onde gravadoras se limitam a fazer uma “fotocópia” sonora do tape do velho vinil. Para o ouvinte que já conhece o disco, as faixas estão mais longas, já que a edição foi refeita. E em alguns casos, o tempo de algumas canções foi aumentado. O ofício de recuperação prescinde do fator artesanal e do arqueológico para chegar a um resultado digno de ser lançado em compact-disc.

E o resultado é incomum. Pelo menos, para os puristas e os fetichistas de arranjos minimalistas, o salto para o “surround” é maior do que o do elepê para o CD. Além de “puxar” os instrumentos para o ouvido, a musicalidade separa totalmente as respectivas texturas sonoras, na verdade, jogando o ouvinte (principalmente ao colocar os fones-de-ouvido) dentro da gravação, cara a cara com Elis Regina.

Finda a primeira parte, ele descobriu diferenças entre o elepê de 1974 e os tapes, principalmente com relação ao acabamento anterior nas mixagens, cortes mal feitos ou fades bruscos (aquele lance quando a música vai baixando). A outra seção curiosa era retrabalhar a sonoridade do álbum com a “crueza” dos deliciosos ruídos de estúdio, como contagens, falas, risadas, versões alternativas (os outtakes ) — uma espécie de “mania” típica de fã, mas que dão um toque de despojamento e improviso ao disco. Pode-se dizer que, de certa forma, hoje não existe tanto a preocupação em “limpar” ao limite da insipidez as gravações nos discos, e a inclusão desses traços é muito comum em reedições de velhos discos de jazz.

Hai-Kais sonoros

Como não poderia deixar de ser, Elis & Tom foi produzido pelo Aloysio de Oliveira, como nos bons tempos da Elenco, quando registrou muitos outros encontros históricos, como Caymmi e Vinícius. No repertório que entrou para o estúdio, constam pérolas como a já citada “Águas de Março”, o cavalo de batalha de Elis. Também estão lá as velhonas “Corcovado”, “Só Tinha que Ser Com Você” (com e Aloysio) , “Brigas Nunca Mais” (com Vinícius, do Chega de Saudade , de 1959), “Fotografia” (velho sucesso com Sylvinha Telles e um dos primeiros êxitos de Jobim), “Inútil Paisagem” (gravada originalmente pelo sexteto de Sérgio Mendes, nos anos 60), a valsinha alegre “Chovendo na Roseira”, a egotrip “Retrato em Branco e Preto” (a melhor do disco), e “Triste”. As duas últimas seriam “copiadas” por João Gilberto para o Amoroso , de 1977.

Já o outro “lado” do disco reside na delicadeza dos verdadeiros hai-kais sonoros, de temas menos conhecidos de Tom, porém não menos inspirados. Como a langorosa “Pois É” (com Chico Buarque), “Modinha” (com Vinícius) só com arranjo de cordas de Hitchcock, “O que Tinha de Ser” e uma prosódia em cima do “Soneto da Separação”, de Vinícius de Moraes, com um dramático arranjo de cordas ligeiramente wagneriano, meio “ Tristan Und Isolde ”. No novo lançamento, constam dois “outtakes”, ou sobras de estúdio, entre elas a versão original de “Fotografia”, bastante diferente da que saiu no elepê de 1974 (que foi regravada no Brasil). A primeira gravação soa “moderna” demais, e demasiadamente moldada com bateria. A outra surpresa do disco é Elis cantando “Bonita” (“What can I say/ To You/ Bonita”), que Tom havia gravado no seu A Certain Mr. Jobim , mas que a cantora preferiu não incluir, por discordar do resultado final e de seu sotaque na letra.