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11 de setembro a 2 de outubro de 2004

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"QUEM SABE FAZ A HORA..."
Spielberg oferece um novo sonho americano para o imigrante Hanks em O Terminal

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

ob quase todos aspectos, Steven Spielberg e Tom Hanks são o diretor e ator epítomes do cinema hollywoodiano e do sonho americano que ele tão habilmente vende. Natural, portanto, que sua filmografia em parceira se debruce sobre esta temática. Pranda-Me Se For Capaz extenuava a mítica do self-made man – alguém capaz de construir não apenas sua própria carreira mas também sua própria personalidade, de modo que ambas fossem codependentes, como parece ser o mal mais comum da América corporativa (à margem da lei ou não). O papel, porém, pertencia a Leonardo DiCaprio. Neste mais novo O Terminal , cabe a Hanks aportar na “terra das oportunidades” e interpretar outro homem disposto a fabricar seu próprio destino: o imigrante.

O ciclo retorna à (e revolve-se em torno de) O Resgate do Soldado Ryan : os EUA invadiram solo estrangeiro para, segundo Spielberg, preservar a democracia e a liberdade. Agora, cinqüenta anos depois da Segunda Guerra Mundial, na nova ordem geopolítica estabelecida, são os estrangeiros que invadem os EUA, num movimento antropológico que usualmente flagra a demagogia do discurso anterior. As falhas burocráticas dos EUA não concedem qualquer fragmento de democracia ou liberdade a Viktor Navorksi, personagem de Hanks que chega ao aeroporto JFK, em Nova York, poucas horas após um golpe militar dissolver seu país de origem, uma republiqueta fictícia mas claramente ex-comunista.

Como explica a agente de imigração, sem país Viktor não tem passaporte. Sem passaporte, não consegue um visto. E, sem visto, não pode circular pelos EUA. A experiência de Nova York de Viktor Navorski se resume ao solo neutro do terminal internacional de embarque e desembarque do JFK. Quer dizer, solo neutro apenas na política internacional. Em se tratando da economia global, há ali outro regente, acima das culturas, línguas e origens: o dinheiro. “Só há uma única coisa a fazer aqui”, diz a Viktor um dos seguranças, tentando confortá-lo em sua situação desoladora. “É comprar”.

O roteiro de Sacha Gervasi e Jeff Nathanson é criativo ao mostrar como os mega-aeroportos de hoje, mais similares a grandes shopping centers, podem suprir as necessidades diária de qualquer pessoa. Claro, Viktor sofre para dormir nos assentos de espera (uma rara chance para que Hanks explore o humor físico), mas logo se enquadra num cotidiano provinciano que garante as melhores piadas do filme. É o trecho em que O Terminal remete a outro longa deste ano: Madrugada dos Mortos . Ambos abordam de maneira velada a acomodação forçada do americano médio a uma rotina cega, mesmo com uma guerra estourando do lado de fora – zumbis sedentos de sangue ou um golpe militar na Krakhozia sendo as mais óbvias alegorias da constante “predisposição bélica” americana, dentro ou fora de suas fronteiras.

E esse reajuste à normalidade aparente se dá, necessariamente, pelo viés do consumo. Para seduzir a aeromoça vivida por Catherine Zeta-Jones, Viktor precisa de dinheiro, e para conseguir dinheiro, precisa de emprego. É contratado, por debaixo do pano, como operário de construção numa reforma do próprio aeroporto. Nem o público nem ele não se dão conta em nenhum momento de que sua verdadeira experiência do que é a América está ali, e não talvez no aprendizado, às duras penas, da língua inglesa. Num fluxo imperceptível como o seria até para um patriota autêntico, Viktor rapidamente integra-se a uma máquina capitalista na qual ele e seus colegas funcionários, todos de minorias étnicas, são a engrenagem menor.

Se O Terminal não tem o tom de libelo tão estranho à carreira de Spielberg é porque, no momento em que o guarda diz a Viktor que há ali só uma coisa a fazer, o roteiro prega “comprar”, mas a mente do espectador antecipa o verbo “aguardar”. O Terminal funciona num delicioso e profundo segundo plano como uma fábula da espera – apropriadamente ambientada no interstício transitório-mor da modernidade, onde não se pertence a lugar nenhum e em que, ou não se tem tempo, ou se tem tempo de sobra. É nesse âmbito que os personagens de Hanks e Zeta-Jones se relacionam: ambos aguardam as resoluções de seus casos, ele como um imigrante entricheirado numa falha do sistema, ela como amante de um político que vive lhe prometendo largar a esposa. Todos, enfim, esperamos alguma coisa. Ao que parece, até mesmo o self-made man não saber fazer a hora e espera acontecer.