| UMA TÃO LONGA AUSÊNCIA
Há vinte anos, morria o cineasta que amava as mulheres, as crianças e o cinema: François Truffaut
por
Fernando Américo (
fercastro@netcabo.pt)

o próximo dia 21 de outubro, assinalam-se os vinte anos da morte de François Truffaut. De lá para cá, muita coisa mudou, no cinema e no mundo, o que nos leva a perguntar: será que o cinema do mais lírico diretor da França ainda sobrevive em nossa era de Armageddon s e Bin Ladens? A resposta é: mais do que nunca. Nunca precisamos tanto voltar a Truffaut, ao seu estilo de contar histórias, à sua paixão pelos pelos personagens, pelos atores (e principalmente pelas atrizes), à sua fixação no amor como o maior dos temas e à sua escolha de fazer do cinema uma verdadeira profissão de fé.
François Roland Truffaut nasceu em Paris, no dia 6 de fevereiro de 1932. Seu pai era um jovem arquiteto e amante do alpinismo que não conseguia aceitar a paixão do filho pelos livros; sua mãe trabalhava como secretária numa revista e passava a maior parte do tempo fora. Até os oito anos, Truffaut foi criado pela avó, e depois da morte desta, voltou para a casa dos pais, que simplesmente não tinham tempo para cuidar dele. O abandono empurraria o jovem François cada vez mais para o escuro do cinema, que para ele tinha uma função quase terapêutica. Acostumado a desconfiar da autoridade desde a tenra infância, matando aulas sempre que podia, não é exagero dizer que Truffaut foi educado pelo cinema. Nesta época, os filmes que ele via tinham um sabor proibido; ele entrava quase sempre sem pagar, e além do mais, tinha que estar em casa antes dos pais voltarem, o que às vezes o fazia perder o final do filme.
Numa noite, os pais de Truffaut o levaram para ver um filme que ele já tinha visto à tarde. O problema é que ele não podia dizer nada, ou estaria confessando para os pais que matou aula. Resultado: viu o filme de novo, e só então percebeu que este procedimento permitia que compreendesse ainda mais o filme, que encontrasse elementos que a primeira visão não tinha revelado. Era o germe de onde nasceria o seu gosto pela discussão, o primeiro passo para o crítico que Truffaut viria a se tornar alguns anos mais tarde.
Quem o levou à crítica foi André Bazin, um dos maiores críticos franceses dos anos 50, misto de mentor e figura paterna para o jovem Truffaut, que apenas começava a tatear na sua reflexão sobre o cinema. Bazin o encorajou a escrever em várias revistas, entre elas a Cahiers du Cinema , onde Truffaut encontraria uma confraria de cinéfilos e futuros diretores: Jacques Rivette, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer, Alan Resnais, Claude Chabrol. Estava formado o embrião da Nouvelle Vague francesa, movimento que ecoaria nos quatro cantos do mundo um grito de guerra contra o cinema das estrelas, o cinema industrial, o cinema dos “pais”. Para esta nova geração, o cinema devia voltar a seus primórdios, quando as filmagens eram uma aventura, quando ninguém sabia muito bem o que estava fazendo, e portanto a liberdade era a palavra de ordem: a época de Griffith, Chaplin, Stroheim, Murnau. A “profissionalização” engessara o cinema como uma arte cara e sem imaginação; era preciso recuperar o espírito dos pioneiros. A figura central desta revolução seria o diretor de cinema, o verdadeiro autor do filme. Contra a figura do diretor-pau-para-toda-a-obra, aquele que pegava um roteiro já pronto e simplesmente o traduzia em imagens, a Nouvelle Vague opunha o Autor, que criaria seu próprio roteiro ou imprimiria sua digital estética aos argumentos, fazendo filmes simples, baratos, sinceros. Todo este conjunto de preceitos desta “nova onda” cinematográfica foi sistematizado por Truffaut em seu famoso artigo “Uma certa tendência do cinema francês”. Mas se a geração da Nouvelle Vague estava unida para destruir o “velho” cinema, seus membros não demorariam a seguir caminhos diferentes. Se esta geração queria fazer da câmera uma caneta, então podemos separar cada um deles a partir da sua “escrita”: Godard fazia “filmes-manifesto”; Resnais estava interessado nos “filmes-ensaio”; Rohmer era o responsável pelos “filmes-diário”; Vadim era mais inclinado para os “filmes-pixação de banheiro”; e Truffaut fazia “filmes-cartas de amor”.
Deles, o mais “anacrônico” era Truffaut. Avesso a qualquer idéia de “modernidade”, de “engajamento”, seus filmes remetem à literatura do século XIX, e, na contestatória década de 60, eram encarados como objetos estranhos. Mas Truffaut nunca se rendeu aos modismos “pró e contra”: sempre foi fiel a suas obsessões. Amava os filmes memorialísticos, voltados para o passado, para as lembranças de um outro tempo; amava as mulheres, e adorava mostrá-las não como pedaços de carne, mas como seres contraditórios e belos; e tinha um interesse especial pelas crianças, queria partilhar com elas as primeiras descobertas e a busca do seu “lugar no mundo”.
Mas a maior paixão de todas ainda era o cinema. Depois da análise crítica, Truffaut passara ao próximo passo de sua formação: a depuração da sua própria linguagem cinematográfica, calcada nos clássicos, nas comédias de Lubitsch, no suspense de Hitchcock, no amor de Jean Renoir pelos atores, e principalmente, na sua própria observação das “regras do espetáculo”. Ao contrário de alguns de seus colegas da Nouvelle Vague , que não davam a mínima para o público e faziam filmes centrados no próprio umbigo, Truffaut estava interessado em quem assistia seus filmes. Ele encarava uma sessão de cinema como uma “noite no circo”.
“Meus filmes são espetáculos circenses, ou pelo menos desejo que o sejam. Jamais mostro dois números de elefantes consecutivos. Após o elefante, o malabarista, depois do malabarista, os ursos. (…) Criei para mim mesmo certas leis, completamente ingênuas, mas às quais me prendo, procurando melhorá-las a cada filme”, diz em O Cinema Segundo François Truffaut (Editora Nova Fronteia, 1988). Truffaut estava agora na melhor fase de sua vida, mesclando a arte e a vida. Fez isto em seu primeiro filme, Os Incompreendidos ( Les Quatre Cents Coups , 1959), um acerto de contas com sua própria infância. Para realizá-lo, Truffaut criou um alter-ego, Antoine Doinel, vivido por um ator infantil que se tornaria uma marca registrada de sua obra: Jean-Pierre Leaud. O personagem e o ator voltariam à obra de Truffaut de tempos em tempos, numa experiência única no cinema mundial. Mas este é um assunto para um próximo artigo do RABISCO sobre a obra de Truffaut: o ciclo Antoine Doinel. 
|