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11 de setembro a 2 de outubro de 2004

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MATERIAL DE CAMPANHA DEMOCRATA
A Vila é mais um trunfo para a candidatura de John Kerry. Isso se os eleitores americanos o compreenderem
por Julio Ibelli (julio@rabisco.com.br)

vermelho é utilizado pela Casa Branca para indicar iminência de ataque terrorista em solo americano, alarmando a população. Sem nenhuma coincidência, foi a mesma cor que M. Night. Shyamalan utilizou em seu novo filme, para atrair os “monstros” que amedrontam os moradores de A Vila (2004). O medo que rege as condições de vida desse vilarejo é o mesmo que permeia o cabresto que George Bush instituiu sobre seus compatriotas desde o 11 de setembro de 2001.

Esqueça as três regras proferidas pela voz diabólica da menininha do comercial e do trailler, bem como a esperança de ver um monstro de filme de terror adolescente. Isso é estratégia publicitária para fazer você pagar por uma das maiores peças de subversão já vistas dentro do cinema americano. E que, aliás, é bem difícil de acreditar que os cartolas de Hollywood tenham concordado em levar para a tela grande.

Ou não, se formos bem preconceituosos e levar em conta que a maioria dos americanos deve bater em igualdade de intelecto com o seu presidente. Ou seja, os executivos dos estúdios não se ligaram na tal mensagem do filme, assim como a maioria dos espectadores brasileiros, que tem saído das salas de exibição com vontade de pedir o seu dinheiro de volta. Mas não se pode reclamar de ter ido ao cinema a procura de certos monstros e acabar topando com outros, verdadeiros.

Se Fahrenheit 11 de Setembro , de Michael Moore, é a obra definitiva sobre a administração Bush para o americano comum e médio, A Vila é de causar pesadelos em magistrados, literatos e outros “atos”. É por isso que não é exagero a recomendação de leituras sobre semiótica e linguagem subliminar antes de se sentar na cadeira do cinema.

Apresentando sua predileção pelos temas sobrenaturais primeiro em Sexto Sentido (1999), com Bruce Willis, que ainda alçou o garoto Haley Joel Osment ao estrelato, Shyamalan logo depois deu a luz a Corpo Fechado (de 2000, novamente com Willis, fazendo parceria dessa vez com Samuel L. Jackson), que muitos nerds consideram ser o melhor filme sobre super-heróis já feito. Depois veio Sinais (2002), com Mel Gibson, que deixa no chinelo o que Independence Day tratou como visões familiares sobre um ataque alienígena. O governo americano é o mais novo tema fora do entendimento comum a ser abordado.

Este ano, Shyamalan contou com figurinhas como Sigourney Weaver e o oscarizado Adrien Brody para dar vida à sua mais nova produção. Joaquin Phoenix, de Sinais , também está lá, confirmando a prática do diretor em utilizar atores por mais de uma de suas produções. Antes relegados ao primeiro plano, em A Vila os atores tem que suar a camisa, e (porque também não?) a tanga, para conseguirem se equiparar à perspicácia do roteiro.

É a história que se desenvolve entre os monstros que rodeiam a minúscula cidade que acaba por deflagrar todas as segundas intenções de A Vila . Quando a vida do personagem de Phoenix (Lucius Hunt) está por um fio, sua pretendente, Ivy Walker (vivida com primor por Bryce Dallas Howard) é obrigada a atravessar a floresta habitada pelas criaturas para buscar ajuda na “cidade”. Em se tratando de Hollywood, o baque do desenrolar da trama pode ser comparado com o desfecho arrasador de O Show de Trumman , só que melhor trabalhado por Shyamalan, que o trata com uma simplicidade e importância impressionantes.

Os elementos complementares para fazer o espectador acreditar na história são fornecidos pelo próprio diretor, que aparece em um reflexo no filme. Antes tido como o novo Spielberg, Shyamalan se assemelha mais com um Hitchcock da nossa era, aprendendo como ninguém a dar sustos, com classe.

Cega, a personagem de Bryce Dallas é uma caricatura de grande parte da população americana. A cena derradeira do filme é para ser marcada como lema do estilo de vida yankee adotado depois do maior ataque que os Estados Unidos já sofreram. Esse lema é a fuga, também tema central do filme. Ainda a clausura, a alienação que surge da acomodação e confiança depositada nas pessoas que decidem o rumo de nossas vidas. A Vila é uma estranha cidade, com monstros e segredos à mostra, tal como os Estados Unidos, o Brasil, ou qualquer outra nação do mundo.