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Then and Now traz o melhor do visceral e descarado The Who
por
Fernando Américo (fercastro@netcabo.pt)

que há mais a se dizer do The Who, a não ser que é a maior banda de rock de todos os tempos? A afirmação pode parecer meio excêntrica, mas até quem discorda há de concordar. O velho grupo inglês — formada originalmente por Roger Daltrey (voz), Pete Townshend (guitarra), John Entwistle (baixo) e Keith Moon (baterista e maluco profissional) pode não chegar inteiro no limiar dos seus quarenta anos, mas soa cada vez mais sangüíneo e vigoroso a cada nova audição. É claro que eles não tinham a visibilidade dos Beatles e dos Rolling Stones, mas a turma de Townshend era muito mais descarada e visceral. Consta que Mick Jagger resolveu abortar a apresentação do especial Rock And Roll Circus porque o Who iria roubar toda a cena e botar Lennon (que deu uma canja com “Yer Blues” na fita) e o quinteto londrino no bolso. No ensejo das quatro décadas de rock, a banda pode ser relembrada em seus melhores momentos na coletânea Then and Now (Polydor/Universal), que traz 18 grandes sucessos e mais duas faixas inéditas.
O Who é a imagem de Jimmy, aquele personagem da ópera-rock Quadrophenia , que era um jovem romântico que achava que o pop poderia mudar o mundo, mas que no fim, se transformaria num negócio qualquer. Mas também é a cara das letras da banda: a crônica do modo de vida de todo garoto. A puberdade, a busca de identidade: “as perguntas são sempre as mesmas, seja um mod ou seja um raver . Quem sou eu, o que quero ser”, explica Townshend. Aliás, o Jimmy de Quadrophenia realmente existiu. Ele se chamava Jack Lyons e era um rapaz irlandês perdido no mundo, que partiu para Londres. Um típico mod , tinha aquele visual comportado, herói da classe trabalhadora, porém um pequeno dândi, com a camisa social abotoada até a gola. Ele ia toda noite com sua turma no Goldhawk Club, onde o Who tocou o seu primeiro compacto, “I Can't Explain”. Pete revela que, no fim do show, Lyons se aproximou dele, e disse: “queremos que vocês escrevam mais destas. Essa música fala exatamente o que nós queremos dizer”.
Contudo, a banda não era mod. Roger Daltrey ria da afirmação, e respondia: “a gente sempre foi um bando de roqueiros enfiados em outras roupas por seu empresário”. Townshend até concordava, mas sabia que o público do Who era mod e eles se limitavam a imitá-los. “Os mods eram narcisistas e os espelhos eram seus instrumentos preferidos. Espelhos são a coisa mais importante do pop”, dizia. De fato. Peter Meadon, empresário do grupo, era um grande marqueteiro e os encorajou a comprarem aquela imagem. Meadon acreditava na história mod como em uma religião e o seu lema era “ser um mod significa viver limpo sob circunstâncias difíceis”. A idéia era ser um boêmio bem vestido com espírito de marginal. Townshend seria mais um “Jimmy”, preocupado com roupas e com as artes plásticas, até o dia em que ele viu os Stones andando pelas ruas suburbanas da região do Ealing.
— Eu achava que pop eram aquelas instalações nos museus. Depois de vê-los eu soube que o que eu queria de pop art eram os Stones: eles eram arte de uma forma emocionante só no jeito de andar na rua — diz o guitarrista.
Punk temporão
Pete revela que o Who nasceu do choque de gerações no pós-guerra. Os mais velhos olhavam para eles, e perguntavam: “nós ganhamos a guerra para você, seu merda”. A mentalidade de todos ainda estava conflagrada. Foi nesse clima que ele conheceu o fabricante de amplificadores Jim Marshall, e disse: “me faça um que seja maior do que todos os outros”. Jim perguntou: “por quê?”. Townshend apenas disse: “para que os outros fiquem quietos quando eu tocar. Eu comecei com esse emprego e não gosto de ser atrapalhado quando trabalho”. O ultimato narcisista se explicava. Era a descoberta de algo que não lhes pertencia. O rock americano era uma corruptela do blues. Se era, a música britânica, também. O ódio virou descaramento puro e Townshend seria um punk temporão que inventaria uma banda para deixar um rastro de destruição.
Não havia nada de errado em quebrar guitarras. Bastava alugá-las. A idéia tinha o atavismo do eco da geração pós-guerra mas desembocava na influência do contato com as artes plásticas. Era um happening partir guitarras ao meio e jogá-las ao público, com o braço ligado ao corpo apenas pelas cordas, como quem joga tinta sobre paredes brancas. A coisa chegou num ponto em que ninguém queria alugar mais nada para eles. O Who não se preocupava em torrar rios de dinheiro nisso. Afinal, a gravadora também não lhes pagava os royalities . E quebrar guitarras hoje ainda é sinônimo de arte? “Enquanto a Mercedes continuar fabricando carros que, de uma hora para outra, simplesmente desmancham, eu posso arrebentar uma guitarra sem que um músico qualquer tenha o direito de dizer que isto o ofende em sua concepção de músico profissional”, diz Pete. De qualquer maneira, era tão artístico para o Who quanto tocar com os dentes para Hendrix. Jimi precisava fazê-lo, sob ameaça de levar uma garrafa de cerveja na cabeça, no começo. Já Townshend, por sua vez, devolvia a garrafada na testa do público...
Porém, nenhuma banda sobrevive de destruição de instrumentos. A banda sobreviveu à morte de Moon e Entwistle, ao progressivo e ao movimento punk, que soube tripudiá-los para obter seu lugar no pódio como anarquistas do rock-pop. Resistiram à própria morte do rock — decretada tantas vezes por tantas vozes enganadas — e às separações da banda. Pete chegou a afirmar que só faria outra turnê do Who se os outros aceitassem sua mãe (!) como líder da banda. Townshend, por seu turno, ria dos punks. O rock fora engravatado pelos tubarões da indústria fonográfica e o movimento punk não foi inventado por músicos, mas sim por estudantes de arte, como... o Who. “O agente dos Sex Pistols, Malcolm McLaren, encontrou-se na época com nosso agente, Chris Stamp, e lhe perguntou: ‘quero montar uma banda que esteja à altura dos Beatles. O que faço?'”. Stamp apenas respondeu: “Ora, pegue quatro meninos feios que não saibam tocar. Funcionou com a gente. Vai funcionar com vocês, também”. Genial.
Espírito juvenil
No caso de The Who, a surpresa estava em tribalizar a mesma música que os Stones faziam, e seguir a própria voga. Eles não cochilaram no psicodelismo e nem cantaram sobre flores na cabeça. Eis que o interessante de Then And Now é que não cheira a revival para um convescote de velhos ripongas barrigudos. The Who está longe de qualquer datação. Aliás, nada que eles fizessem com baixo e guitarras está sequer perto da extinção como espécie. Afinal, tudo o que eles fizeram nos anos 60 pertencem ao estereótipo do espírito juvenil e ao espólio do rock como um todo. “My Generation”, “Substitute”, “Happy Jack”, “I'm a Boy”. Tudo o que eles disseram está naqueles primeiros discos. Mais: a apresentação de Woodstock, em 1969 (“See Me, Feel Me” e “Summertime Blues”). Falando em Stones, o álbum traz um registro do “Rock and Roll Circus”, de 1968, com “A Quick One (While He's Away)”. Dois momentos máximos do rock: “Pinball Wizard”, de Tommy , em sua gravação original, quando Townshend se transformou no Pucinni do rock e o topo da carreira da banda, com “Who's Next”, do álbum homônimo (deste constam "Behind Blue Eyes" e a clássica “Won't Get Fooled Again”) . Já “Summertime Blues” é do Live at Leeds , o melhor disco ao vivo do gênero depois do Get Her Ya Ya's Out , dos Stones.
As duas novas, “Real Good Looking Boy” e “Old Red Wine”, foram gravadas após a morte de John Entwistle. Podem soar como acessórias, ou servir como uma forma de completar o ciclo. Na verdade, é o Who pela metade. É difícil equipará-las em um conjunto — até porque quem ocupa hoje o lugar de Keith Moon é um certo Zak Starkey, o filho do ex-beatle Ringo Starr. Mas servem como termômetro, pelo menos para mostrar para Jimmy que a roda da fortuna não pára jamais. Pete Townshend nunca soube entender o envelhecimento em canções de rock. Talvez ele seja um sujeito eternamente infeliz porque ele não sobreviverá a elas. Ou porque não morrerá antes de ficar velho. |