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Paul Greengrass tenta colocar boas rédeas no personagem de Matt Damon em A Supremacia Bourne
por
Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

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preservar e reciclar sua identidade criativa, durante os anos 80 e 90 a literatura de espionagem procurou afastar-se de seu mais conhecido paradigma – o espião 007, das obras de Ian Fleming. A decadência do comunismo e o conseqüente esfacelamento da Guerra Fria e a ascensão da globalização alimentaram, explicita e implicitamente, os heróis de autores como Tom Clancy e Robert Ludlum, entre outros. As missões arriscadas, de conteúdo pseudopolítico minguado, repletas de traquitanas mirabolantes, deram lugar à politicagem interna das grandes agências de inteligência, retratadas não muito diferentes de qualquer megaempresa que, desde a ascensão da globalização, em muitos casos, rivaliza em poder com a economia de pequenas nações. O espião, portanto, saiu da soldadesca e foi trazido à mentalidade corporativa, mais atado a um parâmetro pessoal de realização do que, propriamente, a um heroísmo patriótico tradicional.
Para Jason Bourne, cria de Ludlum em sua segunda incursão pelo cinema com A Supremacia Bourne , não há objetivo superior a, exclusivamente, sua autopreservação. Havia, enfim, ao lado de sua namorada Marie, que o ajudara a resgatar parte de sua memória amnésica em A Identidade Bourne . Depois de dois anos escondido na Índia, porém, o casal se vê a volta com os antigos patrões do agente, que, com um balaço inclemente e surpreendente, lhe retiram a única razão pela qual vivia. Cabe agora ao ex-espião vingar-se e descobrir porque não lhe dão sossego.
A emersão de Bourne (Matt Damon) coincide com um ataque de contra-espionagem que frustra os planos de Pamela Landy (Joan Allen), agente no alto escalão da CIA, em Berlim. Incriminado, Bourne se torna o principal suspeito, forçando o retorno de outros rostos conhecidos do filme anterior: Ward (Brian Cox), Nicky (Julia Stiles) e Conklin (Chris Cooper, em off). É Nicky quem sumariza o perigoso status autônomo do ex-colega. Pamela pergunta a ela quem poderia estar ditando as ordens a Bourne. “Quer a versão realmente assustadora? Ele mesmo”.
Na verdade, quem ditou as ordens foi o diretor Paul Greengrass, substituindo Doug Liman. Embora ambos tenham experimentado um razoável tempo como realizadores independentes, antes de explodir no meio dos anos 90, possuem estilos divergentes. Greengrass impregna o filme de uma carregada claustrofobia urbana, acinzentada, lúgubre, distinta da iluminação mais arejada e conservadora do falso liberal Liman. O resultado são cenas de ação mais duradouras, porém sinteticas visualmente, com um impacto que as colocam dignamente dentro do gênero de espionagem, ao invés do de ação pura e simples. Há uma perseguição nas ruas russas que em nada deve a Conexão França . Greengrass, de Domingo Sangrento , mostra muito pouco, mas muitas vezes.
Se Supremacia chega a superar Identidade , é porque o cineasta contou ainda com outros trunfos. John Powell, que criou uma das melhores trilhas no ano passado, com a bossa paranóica e estilosa de Uma Saída de Mestre , retorna com composições que travam um belíssimo duelo com a montagem do filme. A gravidade geral e o tom sóbrio, porém, são asseguradas sobretudo pelo imbatível Brian Cox, pela ótima Julia Stiles (uma das melhores atrizes de sua geração) e pelo bem-vindo acréscimo de uma rejuvenescida Joan Allen (coincidência ou não, também uma das melhores atrizes de sua geração).
Damon, que todos costumam desdenhar, não se acanha e sobe ao nível dos comparsas, aprofundando o que poucos conseguiram visualizar na literatura de Ludlum: a amnésia de Bourne torna-o não um personagem unidimensional, mas justamente o contrário. Há uma duplicidade no leão adormecido que é vigiado pela alfândega de Nápoles, mas que, subitamente, em questão de poucos gestos, é capaz de imobilizar todos os adversários. Nicky estava parcialmente correta: quem dá as ordens ao Bourne de hoje é um Bourne comatoso, esquecido, de anos atrás. Espera-se, assim, que novos diretores possam dar continuidade à série, adaptando The Bourne Ultimatum e The Bourne Legacy (este último escrito após a morte de Ludlum, por Eric Von Lustbader), e que Greengrass consiga falar com seus futuros substitutos tão lucidamente quanto dialogam as personas passada e presente de seu protagonista. |