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2 a 23 de outubro de 2004

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ASSASSINATO ENTRE AMIGOS
Bully , de Larry Clark, mostra as humilhações, intimidações e ameaças do cotidiano adolescente

por Luiz Andreghetto ( luiz_andreghetto@hotmail.com )

rincadeiras e xingamentos entre crianças e adolescentes, à primeira vista, podem ser vistos como coisas normais e corriqueiras. O problema é quando isso vem acompanhado de preconceitos, apelidos horríveis e violência física e verbal gratuitas que ofendem, humilham e acabam traumatizando as vítimas desse mal-estar. Conhecido como bullyng , termo que vem do inglês to bully , esta prática de violência está tornando-se cada vez mais freqüente no dia-a-dia dos adolescentes.

Larry Clark, cineasta interessado em “desnudar” o universo “teen”, mostra em Bully (2001) o reflexo dessas humilhações e reflete sobre a amizade e a violência, física e psicológica, entre os adolescentes que, no filme, pertencem à classe média americana, mas poderiam ser de qualquer outro país ou estatura social. Bully (que pode ser traduzido como “valentão”), foi exibido recentemente no canal a cabo Cinemax e ainda não existe disponível em VHS e DVD no Brasil. É inspirado em fatos reais, contado no livro Bully: a true story of a high school revenge , de Tim Schutze.

Marty (o garoto-problema Brad Renfro) e Bobby (o excelente Nick Stahl, visto anteriormente em Entre Quatro Paredes), são amigos inseparáveis desde a infância. Marty é tímido e calado, aceitando todas as imposições e humilhações do amigo, que leva-o a drogar-se, a dançar de cuecas em uma boate gay e a participar de orgias. Ambos conhecem duas garotas, Lisa (Rachel Miner) e Ali (Bijou Phillips), e as levam para passear. O que era para ser um simples encontro termina com Bobby humilhando Lisa e estuprando Ali. Influenciado por Lisa, Marty resolve acabar com todas as humilhações e perversões do parceiro e, junto com ela, Ali e mais alguns outros amigos, planejam matá-lo.

Perdidos em um mundo de agressividade, os adolescentes de Bully só conseguem evitar a violência apelando para mais violência. O perigoso de tudo isso é que, ao retratar um personagem tão desprezível quanto Bobby, Larry Clark justifica um assassinato hediondo e cruel. Quem é a vítima da história? Aqueles que eram humilhados ou aquele que foi assassinato? Ao usar o discurso de que violência gera violência, Clark adota uma visão simplista e conservadora desse universo “teen”.

Todos os adolescentes Clarkiniano são estúpidos, não sabem o que fazer da vida, drogam-se a exaustão e acham que sexo é a única maneira de expurgar o tédio e a solidão à que estão submetidos, sendo que o sexo em Bully é sempre violento e culposo, nunca prazeroso. Essa visão manifesta-se também nas relações entre pais e filhos, na qual os adultos são sempre colocados como ausentes e boçais e, quando aparecem, são apenas para perguntar banalidades ou fazer algum comentário inadequado. Não interessa a Clark mostrar esses personagens, e sim dizer que os pais possuem uma grande parcela de culpa na alienação e no comportamento auto-destrutivo desses adolescentes. Mas, não seria clichê demais, estar sempre culpando os pais pelo comportamento de seus filhos? Pelo jeito Larry Clark acha que não, pois, em seu filme seguinte, Ken Park , ainda utiliza esse mesmo discurso para analisar essa inter-relação de “pais-omissos” igual a “crianças-problemas”.

Também não aprofunda a relação homoerótica, que quase beira ao sadomasoquismo, dos dois protagonistas, que é vista apenas como pano de fundo, mas que, sendo mais detalhada e explicada, contribuiria muito para entender melhor as motivações de Bobby e Marty.

Sem respostas fáceis, Bully consegue ser muito melhor que o posterior Ken Park, que deve muito do seu sucesso as polêmicas cenas de sexo explícito, mas perde para a contundência quase documental de Kids , esse sim um relato “perverso” e irônico do que é ser adolescente.