| CULTURA CARIOCA SE MOBILIZA
Manifesto da Cultura Independente aglutina artistas em busca de condições melhores para a produção cultural no Rio
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Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

cultura carioca decidiu colocar o “bloco na rua” em busca de desenvolvimento profissional e melhores condições de trabalho. O Manifesto da Cultura Independente Carioca, iniciado em fevereiro, percorre a todo o vapor a cidade do Rio de Janeiro e mobiliza músicos, produtores, artistas e profissionais da cena local, com o objetivo de elaborar uma alternativa para a política pública cultural da metrópole.
São realizados shows de tempos em tempos, nos mais variados espaços, onde bandas e artistas desconhecidos se apresentam. Há inclusive performances e exibições de outras formas de arte, como a poesia, teatro, artes plásticas, entre outras, além de debates acerca de planejamentos culturais para a cidade e formas de colocá-los em prática. Sem patrocínio ou qualquer tipo de investimento, o projeto é tocado na “raça” pelos idealizadores e pelas bandas que apóiam a empreitada.
Rodrigo Quik, membro fundador do Manifesto, afirma que a idéia surgiu de conversas informais com produtores do cenário independente. “Percebemos que a produção de pequeno e médio porte daqui estava andando para trás, enquanto a do resto do país, para frente. Percebemos que tínhamos que fazer algo para reverter esse quadro”, conta.
Segundo a coordenadora e uma das idealizadoras, Débora Martins, a proposta do Manifesto é fazer a cultura chegar às pessoas. “Nossa principal tarefa era reunir a cultura independente carioca em torno de uma discussão sobre a política cultural atual. A partir deste fórum começamos a elaborar as propostas, que se tornaram projetos”, afirma Débora, que organiza, em conjunto com Quik e com Gabriel Thomaz, do Autoramas, o festival de música independente Ruído.
Para o organizador do Projeto Sintonia de bandas independentes realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Augusto Lohmann, o mérito do Manifesto está em unir todas essas idéias para o benefício da cultura local, evitando o que ele chama de “marasmo cultural” que a produção carioca passava. “Sua formação coincidiu com o surgimento de grandes eventos independentes, novas casas de show, a volta do Circo Voador. Vivemos um momento único, em que finalmente os independentes começam a aparecer para a grande mídia”, acredita.
Uma das propostas mais urgentes do Manifesto está em eleger um representante na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro como parte do plano de ter um representante legislativo, crendo na possibilidade de uma modificação na produção cultural da cidade com essa candidatura. Rodrigo Quik se candidatou pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). “É preciso levantar o debate sobre a importância da participação política das pessoas, principalmente dos artistas, pois eles são referência para o público”, acredita.
Para Quik, o primeiro passo já foi dado, referindo-se à criação de um projeto alternativo de cultura e a abertura para outras pessoas da cena carioca. “O problema é que falta estrutura. Sendo assim, as condições ainda não são bacanas. Mas o objetivo é exatamente viabilizar condições de trabalho”, justifica.
De acordo com ele, cerca de 2 mil pessoas, entre artistas, público, formadores de opinião e produtores de baixo e médio porte, fazem parte do movimento pró-manifesto. Quik afirma que os artistas e produtores cariocas sentiram a necessidade de se mobilizar em busca de uma representação política para lutar pela cultural local. “Falta iniciativa do poder público de gerar uma interatividade entre a produção cultural e o Estado, pois artista e público não vão faltar nunca”, diz.
Dentre as propostas do Manifesto estão o cumprimento da lei de incentivo cultural pelo Imposto Sobre Serviços (ISS) e o redirecionamento de 5% do orçamento de grandes projetos incentivados pela lei do ISS ou feito em parceria com a prefeitura às produções de pequeno e médio porte. Entre os projetos há, também, a criação do Conselho Municipal da Cultura que não existe na capital carioca, a legalização dos eventos de música independentes, a implementação de cursos de capacitação cultural, a realização de festivais gratuitos com novos artistas em praças públicas. Estas e outras idéias constam do site pessoal de Quik.
Lohmann comenta que o apoio dos segmentos artísticos do Rio de Janeiro é “imenso”, pois esses grupos concordam com a proposta do Manifesto de democratizar a cultura à população, e também abrir espaços para as pessoas praticarem. “Mesmo após um problema recente que impediu o Manifesto de se realizar fisicamente no Madame Vidal, no bairro do Botafogo, ‘choveram' propostas de novos locais, mensagens de apoio, de incentivo”, relata. Segundo o site de Rodrigo Quik, no fim de agosto um evento foi impedido de ser realizado no Vidal devido a um pedido que teria sido feito por uma vereadora fluminense, candidata à reeleição na cidade e que atua naquela região.
Martins vê um movimento importante da cultura carioca “levando o Manifesto para frente” em prol da cultura local, apesar dos percalços impostos até o momento. “O Manifesto continuará, aconteça o que acontecer, apesar de todas as ameaças, de todas as represálias. Podem nos tirar o espaço, pois conseguiremos outro, e outro, e outro. A pequena e média produção cultural do Rio, e isso inclui o público destas produções, tem de se unir cada mais. Só a partir desta união é que chegaremos a algum lugar”, conclui.
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