| PARA VER (E OUVIR)
Donnie Darko mistura Jake Gyllenhaal, viagens no tempo, um coelho gigante e Duran Duran em uma ótima embalagem pop
por
Fábio Freire (
fabio_fcosta@hotmail.com )

órmula
para se produzir um cult alternativo. Primeiro, chame um ator prestes a estourar para ser protagonista da produção. O diretor, geralmente também roteirista, deve ser jovem e encher o filme de referências pop. A história precisa ser simples, quase banal. Ou não, talvez seja melhor fundir a cabeça do espectador com uma trama que envolva fé, questionamentos existenciais e, quem sabe, até viagens no tempo e uma realidade paralela. Em seguida, para atrair um público mais velho, tire do limbo um astro de outrora. Por fim, recheie o longa com uma trilha sonora que vai deixar qualquer indie de plantão babando de tanta emoção. Pronto, fácil, não?
Lógico que nem todo cult que se preze segue as regras acima, mas, no caso do surpreendente Donnie Darko , elas estão todas lá. Mas nem precisava, porque o filme é realizado utilizando outros preceitos: talento e ousadia. De quebra, o público ainda ganha o direito de acompanhar a trajetória do protagonista que tem alucinações com o coelho gigante mais bizarro da história do cinema. Melhor impossível.
A trama se passa em um subúrbio qualquer dos EUA, no ano de 1988, em plena época de eleição presidencial, com o Bush pai dando o ar de sua graça em programas de televisão. Jake Gyllenhaal (o provável futuro astro da receita, que, de fato, estourou em O Dia Depois de Amanhã ) é Donnie Darko, um garoto problemático, sonâmbulo e com um olhar de psicopata de meter medo. Um certo dia, em um dos seus ataques de sonambulismo, Darko acorda no meio de um campo de golfe. Ao chegar em casa, pela manhã, o jovem descobre que uma turbina de avião caiu bem em cima de seu quarto. Sortudo, mas nem tanto.
A partir daí, o que poderia ser mais um filme sobre adolescentes deslocados e problemáticos ganha ares de episódio de Além da Imaginação . O garoto começa a ter visões com o tal coelho, que se chama Frank e manda Darko fazer uma série de coisas inusitadas e transgressoras, como inundar a escola e incendiar a casa de um guru chato de auto-ajuda (ninguém menos que o astro de outrora Patrick Swayze). Outro detalhe: segundo o coelho Frank, o mundo irá acabar dentro de 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos. Enfim, escapar da morte pode não ter sido um bom negócio.
Com uma premissa nunca menos que absurda, o diretor/roteirista Richard Kelly fez um trabalho mais do que interessante. Basicamente se apoiando na história e no talento de seu elenco, que ainda conta com participações de Drew Barrymore, Noah Wyle (do seriado ER ) e de outra sumida, a ótima Mary McDonnell (mais conhecida como o interesse romântico de Kevin Costner em Dança com Lobos ), o diretor não faz apenas um filme alucinante, mas compõe o painel de uma sociedade doente, conservadora e hipócrita. Donnie Darko questiona o relacionamento entre pais e filhos, professores e alunos e, porque não, entre alucinados e suas alucinações.
A princípio, o filme pode parecer um pouco confuso, mas Richard Kelly tem talento para a coisa. Por mais que a história parece absurda (e ela realmente é), o diretor conduz o longa com extrema sobriedade; o elenco está lá para o que der e vier; e a trilha sonora é muito bem utilizada, mesmo que, algumas vezes, as cenas fiquem com cara de videoclipe.
Mas, ainda que o filme tenha méritos, Donnie Darko não seria o mesmo sem a presença de Jake Gyllenhaal. É o ator que consegue transmitir toda a melancolia, indiferença e rebeldia necessárias para transformar a produção em algo mais do que um cult de locadora (já que o longa, de 2001, não foi exibido nos cinemas brasileiros). É através de seu olhar vazio, boca torta e postura relapsa que o ator consegue transmitir toda a confusão mental da personagem. E não é de estranhar, já que, além de ter um coelho gigante o acompanhando para todo lado, o jovem ainda tem que lidar com pais que não sabem como se comportar diante de seus problemas emocionais, a irmã metida a superiora (Maggie Gyllenhaal, irmã do ator na vida real) e a chegada de uma estranha colega que desperta seu interesse (Jena Malone). Isso sem contar com o fim do mundo e as viagens através do tempo.
O filme de Richard Kelly pode até não agradar ao grande público, mas, com certeza, fará a alegria de quem procura algo mais do que uma diversão ligeira. A produção é inteligente, ousada e pop. Com direito a discussão sobre a sexualidade dos Smurfs, "Notorius", do Duran Duran, servindo de pano de fundo para uma apresentação de dança para lá de nonsense , e um cover melancólico de "Mad World", do Tears for Fears, no final. Donnie Darko é a redenção de um cinema que não precisa de regras.
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