| O MÁXIMO QUE VEM DO MÍNIMO
Denise Stoklos enxuga recursos do teatro essencial e renasce no palco em passeio pela vida
por
Washington Calegari
(wocalegari@uol.com.br)

la
abriu mão do movimento, na contramão do estilo frenético e arrebatado que a consagrou no teatro essencial. Nem por isso perdeu-se a energia. O efeito mais evidente dessa nova escolha na carreira se revela no reforço da dramaticidade, extraída dos mínimos detalhes do gestual contido, da fisionomia rígida e da voz monotônica, modificadas em breves surtos de sentimentos que irrompem e humanizam, pela palavra e pela expressão, a personagem e artista posta em cena.
Essa é a Denise Stoklos que se revela no espetáculo Olhos Recém-Nascidos , em cartaz no Teatro Popular do Sesi, em São Paulo, que segue temporada gratuita até dezembro. Os eixos do teatro essencial – mímica, movimento, música e reforço na interpretação – ainda se fazem presentes. Assim como o vigor da atriz, autora e diretora, que assina ainda a sonoplastia e a iluminação. Na nova peça, todos esses elementos se põem a serviço da palavra, na busca confessa por um teatro dotado do mínimo de movimento possível e que, ainda assim, continue sendo teatro, na tentativa de dar vazão à “energia magnética que une palco e platéia”.
A base de Denise nesse percurso em que se lança ao minimalismo – durante a peça toda, em cerca de duas horas, ela executa somente cinco movimentos – veio do trabalho do autor, ator e diretor norte-americano Spalding Gray. No palco, uma mesa, uma cadeira, um microfone, o ator. Na inspiração, a idéia de que “a narrativa da vida é, em si, dramática o suficiente”, como dizia Gray, que se suicidou este ano. Seu corpo foi encontrado em março no East River, em Nova York, dois meses após o artista, que estava em depressão, ter desaparecido.
A vida prescinde, de acordo com essa idéia, de recursos que incrementem seu drama. “Impressionava a maneira quase fria com que fatos corriqueiros, sem dramatizações, eram passados à platéia de forma aparentemente não passional, mas forte, para quem os recebia, talvez pela realidade e simplicidade”, lembra Denise Stoklos, referindo-se ao espetáculo do norte-americano encenado em Nova York. “A tragédia da vida dele realizou-se e eu continuei minha busca. Era inevitável que meu impulso se transformasse numa homenagem à dramaturgia daquele homem tão confiante na emoção do som de suas palavras.”
Cumplicidade e manifesto
Para a condução dessa narrativa "aparentemente não passional", Denise Stoklos assume a intimidade e cumplicidade com a platéia. O arroubo gestual cede lugar à expressividade da palavra e da interpretação minimalista que a modela. Com humor e ironia, faz um passeio pela própria vida e tece relatos do cotidiano, da memória individual e familiar, da construção da sua obra e dos sonhos e angústias que carrega no seio de artista. Relatos que se dão como uma leitura, página a página viradas sobre a mesa. Ela quer falar de essências. De pai, de mãe, de filho, de amor. Da micropolítica. E da criação do ofício, apoiada em recursos de vídeo para compor um panorama dos principais momentos de sua carreira.
Entre as narrativas dispostas, a princípio, de forma aleatória, marcam lugar considerações sobre a macropolítica social e a política internacional. “Não vou falar sobre essas coisas hoje”, adianta Denise à platéia no início do espetáculo. As mensagens de um protesto não tão evidente da artista ativista surgem, contudo, e se revelam inquietações inevitáveis daquela que se dirige ao público, assim como as confissões pessoais e profissionais por ela lançadas. Aparecem na estrutura da peça como os “spams” na internet, que também são alvo de sua ironia e simbolizam informações e exigências sociais indesejadas que nos desviam da tarefa de conduzir os próprios rumos.
Denise Stoklos define Olhos Recém-Nascidos como um espetáculo de “luto por renascimento”. De delírios e lembranças na tentativa de atingir a todos, sendo ela um instrumento. E da oposição a um teatro que reforce “parâmetros sociais enquadradores”. Realiza, para isso, um jogo metalingüístico na elaboração do manifesto em favor de um teatro “que não se exime de cavulcar raízes” e que se preocupe em ocupar espaços com o novo. Dirigido aos que querem ser donos da sua própria história, desenquadrar-se. Inclusive os artistas.
Atores ensaiando, acredita Stoklos, são como “mendigos vasculhando uma lata de lixo não-seletivo: vão em busca de tudo”. E o ator do teatro essencial quer romper com o “feroz da sociedade que não quer que saiamos da linha, do comportamento aceito, da subserviência”. “Fugir desse acordo de qualquer forma já desalinha, já colabora com a revolução que todos merecemos.”
Olhos Recém-Nascidos . De 18 de setembro a 5 de dezembro. Sábados e domingos, 16h. Teatro Popular do Sesi. Avenida Paulista, 1313. Tel: (11) 3146-7405. Entrada Franca. Sessões exclusivas para escolas: de quarta a sexta-feira, às 11h.
|