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2 a 23 de outubro de 2004

Equipe Edições Anteriores

O QUE FAZER COM TANTO PODER?
Reeditada pela Panini, a série O Reino do Amanhã adquire uma nova leitura em pleno governo Bush

por Darlon Carlos ( darloncarlos@yahoo.com.br )

editora Panini editou faz algum tempo a série em quadrinhos O Reino do Amanhã , de autoria de Mark Waid e desenhos de Alex Ross. O enredo acompanha os descendentes dos atuais super-heróis, que se tornaram um problema brigando e atuando arbitrariamente para defender o seu território. O Super-Homem tem que sair do seu exílio auto-imposto para retornar a Liga da Justiça da América ao seu devido lugar: o de defensores o mundo e promotores da liberdade e a verdade.

Na época considerada uma obra-prima da nona arte, Reino do Amanhã merece uma reavaliação graças ao relançamento patrocinado pela Panini. Os desenhos de Ross hoje podem ser considerados marcos, mas não deve demorar até que outra vanguarda estilística o substitua como referência visual para as próximas gerações. No seu rico universo de metáforas, há os acertos e também os vacilos. Já na primeira página aparece uma águia transliterada em uma bandeira dos EUA (uma referência à atuação da Mulher Maravilha futuramente na série). A simbologia, na atual conjuntura, já não é lá grande coisa. O Capitão América teve suas aventuras canceladas aqui no Brasil por serem consideradas pelos leitores uma propaganda da atual política internacional dos EUA. A editora descarta esta interpretação, porém na Internet a conversa tem sido outra. A pergunta é: quando deixou de ser?

Umberto Eco costuma fazer algumas incursões nos quadrinhos, tanto nos norte-americanos quanto nos europeus, para saber como anda a mentalidade do gênero. Literatura de massa sempre vem com uma grande gama do que um país e seus cidadãos pensam. Em O Reino do Amanhã , Super-Homem tenta salvar o mundo uma vez mais, no eterno papel do bom escoteiro. O Batman, por outro lado, continua fazendo as coisas na surdina, mas ao final sempre está do mesmo lado que o último filho de Krypton. Mas o desempenho realmente surpreendente, diante da realidade apocalíptica traçada por Waid, não vem dos heróis, mas sim da ONU. Para tratar do problema dos meta-humanos (como o universo da DC chama os “super-humanos”, em contraste ao termo “mutantes”, da Marvel), a Organização das Nações Unidas apela para uma bomba nuclear desenvolvida especialmente para este fim! Usa, portanto, a força em vez da diplomacia! O que isto quer dizer?

Existe alguma coisa nas entrelinhas de O Reino do Amanhã . Algo que Mark Waid não quis dizer abertamente. A primeira vista parece que ele quer falar que não somos deuses e temos que conviver com as nossas decisões. Que temos falhas. Que pecamos. Mas, em uma visão mais profunda parece que ele se encontra perdido, tal qual os EUA. O que fazer com tanto poder? O que fazer com tantas bombas atômicas? O que fazer com a grande quantidade de imigrantes, que pensam e vêem o mundo de um modo diferente do que os americanos? A salvação do planeta, segundo a ótica dos poderosos, pode significar o fim dele? O que há por trás das páginas coloridas desta revista?

Talvez o medo, o temor de que os maiores sonhos, como o sonho americano, se torne o pior de todos os pesadelos. Remete a tantas estruturas da ficção cientifica, como, por exemplo, o livro de H. G. Wells, A Máquina do Tempo , em que um brilhante cientista vai ao futuro para descobrir que toda a humanidade se resumiu a duas raças – a da superfície servindo de alimento para a que vive em baixo da terra –, e que um mundo que tinha tudo para oferecer foi dizimado pela ganância dos políticos. Parece que o Reino do Amanhã teme exatamente isto. Imagine se alguém do passado, cerca de um século atrás, viesse ao presente e constatasse tudo o que conseguimos. Se ele olhasse os satélites que circundam a terra feito pelas mãos do homem, as viagens espaciais, os remédios que foram inventados, as doenças que outrora dizimaram continentes hoje quase totalmente extintas, os transportes que levam pessoas a velocidades incríveis, tudo isto feito pelo ser humano. Com certeza ele nos consideraria deuses. No mínimo, pessoas extraordinárias. Entretanto, o que temos feito com tudo isto?

É uma pergunta que tem que nos incomodar, mas que na realidade aflige poucas mentes no mundo, e este talvez seja o problema. A falta de indignação diante do que tem acontecido em vários cantos do mundo, como na América Latina, no Iraque, em Israel, na Palestina, nos EUA... ou com o nosso vizinho.

Não temos um corpo indestrutível nem visão de raio X. Não temos um cinto de utilidades nem um bat-computador que sabe tudo. Somos humanos, com nossas limitações, com nossa fragilidade e com a nossa grandeza que repousa em vasos de barro, como disse o apóstolo Paulo. Para se ter uma idéia da nossa pequenez, basta imaginar que, no caso de uma guerra nuclear (como a proposta pela ONU da DC), as baratas é que serão as sobreviventes. Pense nisto: as baratas podem chegar ao poder! Que coisa, não?