| O CINEMA EM FUGA
O segundo artigo do Rabisco sobre Truffaut traça o perfil de Antoine Doinel, um personagem que o cinema acompanhou da infância à maturidade
por
Fernando Américo (
fercastro@netcabo.pt)

omo
omo seria se víssemos o que aconteceu com Scarlett O'Hara depois de voltar a sua tão amada fazenda Thara em ...E O Vento Levou ? Ou se conhecêssemos a infância de Hannibal Lecter, astro de O Silêncio dos Inocentes ? E se pudéssemos visitar o rebelde Jim de Stark, de Juventude Transviada , na maturidade, já casado com Judy? O cinema, para contar suas histórias, privilegia momentos na vida dos personagens, e deixa à imaginação dos espectadores o trabalho de completar os períodos de vida não cobertos pelo filme. Mas existe pelo menos um personagem de cinema que nasceu, cresceu, viveu, amou e amadureceu aos nossos olhos: Antoine Doinel, o homem-menino que François Truffaut criou para ser seu alter-ego, mas que acabou por se fundir à imagem de um ator, e a de todos os espectadores que um dia já se perguntaram sobre o seu lugar no mundo.
Tudo começou em 1959, quando François Truffaut ia fazer o seu primeiro filme. Ele queria falar de sua infância, do abandono emocional a que seus pais – e principalmente sua mãe – o relegavam. Escreveu o roteiro de Os Incompreendidos e começou a procurar o ator mirim para o papel principal. Fez vários testes e, através de uma entrevista (que aliás, entrou na edição final do filme), Truffaut teve a certeza de que Jean Pierre Leaud era o astro que queria.
Foi o início de uma relação de amizade na vida e no cinema que se espalhou por décadas. Além de Os Incompreendidos , haveria ainda O Amor aos Vinte Anos (em que Doinel se apaixona pela primeira vez), Beijos Proibidos (o mais “livre” dos filmes do ciclo, feito durante as agitações de maio de 68, todo centrado na “educação sentimental” e nas trapalhadas profissionais de Doinel), Domicílio Conjugal (em que o vemos em sua vida de casado) e O Amor em Fuga (onde tenta fazer um balanço de sua vida). A simbiose entre a ficção de Truffaut e a frágil figura de Leaud era tanta que, certo dia, ao comer num restaurante, Truffaut foi surpreendido por um comentário do garçom: “Você é ator de cinema, não? Ontem vi um filme com você na televisão. Mas o filme deve ter sido feito há muito tempo, você estava muito mais novo”. Ele se referia a Beijos Proibidos.
Mas o mais importante é ainda Os Incompreendidos , um grande sucesso na época, ganhador de um prêmio especial no Festival de Cannes. É um filme que trata a infância de uma maneira dolorosa, por vezes brutal. É o mais pungente do ciclo, onde o único alívio vem da inocência que o personagem preserva, apesar de tudo o que sofre, apesar das transgressões que pratica. Ao final do filme, Antoine Doinel foge do reformatório para onde foi mandado, e corre, corre, corre, corre, até o mar. Numa seqüência que ficaria famosa, Truffaut mostra Doinel chegando à praia, depois olhando para a câmera, e por fim congelando este olhar, como se Doinel perguntasse: “Que será de mim agora?”.
Aí, neste plano final, estava contida a melhor definição para Antoine Doinel: aquele que está sempre correndo. Aquele que está em fuga. De que foge Doinel? Da infância, talvez? Truffaut sempre disse que quando era criança ele sempre quis “passar para o mundo dos adultos”, que sempre podiam fazer o que quisessem sem ser punidos. No entanto, em todos os outros filmes, observa-se um comportamento quase infantil da parte do personagem, no trato com as mulheres, e principalmente, na vida profissional. (Truffaut lhe dava as mais absurdas ocupações, como por exemplo, “tintureiro de flores” em Domicílio Conjugal ).
Talvez ele fuja do compromisso com as mulheres? Doinel nunca foi um Don Juan. Mais do que estar aberto ao amor, ele procura obsessivamente estar apaixonado, e muitas vezes, ele se “casa” com a família da moça antes de estar namorando com ela (como no segundo episódio da série, o curta-metragem O Amor aos Vinte Anos ).
Ou ainda: da opressão da sociedade? Não. Doinel nunca foi um “revolucionário”, sempre teve a inquietante necessidade de se fazer aceitar, de tentar conciliar, nunca confrontar. Era um personagem deslocado na década de 60, e por que não dizer, no século XX. Truffaut sempre dizia que a graça de Jean Pierre Leaud é que ele tinha algo de anacrônico, mesmo quando se relacionava com elementos do mundo atual, como os telefones.
Doinel foge da morte? Aí talvez comecemos a ter uma resposta. Doinel foge não da morte, mas do Definitivo, do Absoluto. Tudo para Doinel é transitório, a não ser a sua necessidade de ir em frente. Em Beijos Proibidos , por exemplo, depois de Doinel ter passado por várias aventuras amorosas, ele se une à moça pela qual estava apaixonado no início do filme. Esta mesma moça é vista durante todo o longa sendo seguida por um homem de sobretudo, que nunca sabemos quem é. Ao final, quando Doinel e ela passeiam no parque, felizes, ele vem falar com eles e faz uma proposta estarrecedora: diz à amada de Doinel que ele a ama, que seu amor é incondicional, que ele nunca deixará de amá-la, que ele não precisa trabalhar para sustenta-lá, e que o amor de Doinel um dia vai acabar. O dele não. Este final, que não remete a nada no filme e que o próprio Truffaut chamava de gratuito, na verdade revela em sua simplicidade e em sua arbitrariedade algo que une toda a obra de Truffaut: o conflito entre o Absoluto e o Transitório. Mas este é um tema para o próximo artigo do Rabisco sobre a obra do cineasta francês. |