| EFEITOS DE UMA PAIXÃO
Misto de ficção científica e suspense psicológico, Efeito Borboleta conserta um grande amor com idas e vindas no tempo
por
Luiz Andreghetto (
luiz_andreghetto@hotmail.com )

ara gostar de Efeito Borboleta ( The Butterfly Effect , 2004) é preciso “comprar” a idéia desde o início. Cheio de reviravoltas inesperadas que, no decorrer da história, acabam sendo “esperadas” com ansiedade, o filme trafega numa tênue linha entre a credibilidade e a inverossimilhança.
Lançado discretamente, tanto nos cinemas americanos quanto nos cinemas brasileiros, o filme possui alguns méritos que, por si, já o destacam da maioria. Dirigido pela dupla Eric Bress e J. Mackye Gruber, também responsáveis pelo roteiro, é corajoso em subverter a ordem reinante em Hollywood: todo filme precisa de um final feliz. Aposta também no ator Ashton Kutcher, conhecido por suas figuras bobocas e atrapalhadas, como o Kelso, da série That' 70s Show e dos filmes A Filha do Chefe e Recém-Casados , como o protagonista, em um papel sério e cheio de nuances. Evan (Kutcher) é um jovem com um raro distúrbio de perda de memória recente. Desde pequeno, anota em um diário, coisas do dia-a-dia, para que não caiam no esquecimento. Anos mais tarde, Evan descobre que, através da leitura do diário, consegue voltar no tempo e mudar o passado. A princípio, não percebe que, a cada alteração, por mais simples que seja, acaba mudando o futuro dele mesmo e de todas as pessoas envolvidas.
O roteiro do filme se apóia na Teoria do Caos, que prega que uma simples batida de asas de uma borboleta em Nova York, pode causar um tufão em Tóquio (daí o título do filme). É a lei da ação e da reação. Para Leonardo Boff “...tudo é interdependente. Às vezes, o elo aparentemente mais insignificante é responsável pela irrupção do novo. O pequeno produziu o grande”. É justamente isso que Evan aprende. A cada viagem no espaço temporal ocorre uma sucessão de equívocos que transforma, de forma irreversível, as pessoas e a própria vida de Evan. Após várias “viagens” sem êxito, ele percebe que a chave para evitar o sofrimento de todos é abrir mão do seu grande amor.
É nesse ponto que Efeito Borboleta torna-se crucial e relevante. Ao amar uma pessoa, e insistir/investir nesse relacionamento, estaríamos seguindo um “caminho” que seria melhor nem termos começado? Será que estamos sempre tentando consertar nossos amores fracassados? Algumas pessoas passam em nossa vida e, por maior que seja o amor, podem deixar feridas e cicatrizes tão profunda que, às vezes, pensamos que seria melhor nem tê-las conhecido. E se pudéssemos voltar no tempo e evitar conhecê-las? O quanto teríamos mudado o rumo de nossa vida atual?
São perguntas cujas respostas, com certeza, não acharemos tão facilmente. Mas, em se tratando de um filme comercial, o simples fato de fazê-las torna-o um “oásis” em meio à grande quantidade de produções americanas insípidas e estúpidas. E, caso ache mais fácil apenas apagar alguma pessoa da mente, sem ter que se preocupar com alguma alteração do futuro, assista Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças ( Eternal sunshine of the Spottless Mind , 2004), filme espetacular com o astro Jim Carrey e roteiro do “maluco” Charlie Kaufman, e veja as conseqüências que isso também pode trazer.
O mais fácil (ou seria o mais difícil?) é tentar superar a dor de um coração partido, sem reviravoltas temporais, ou algum tipo de “deletamento” radical, porque, às vezes, o tempo ainda continua sendo o melhor remédio.
|