| CARMINA BURANA
Ou como um códice medieval se transformou na mais popular das cantatas de todos os tempos
por
Marcelo Xavier (
marcelo@rabisco.com.br )

odo mundo que travou contato com os meios de comunicação nas últimas décadas é certamente capaz de reconhecer os primeiros compassos de uma cantata chamada Carmina Burana , certo? Pois essa singular peça musical, criada por Carl Orff (1895-1982) acabou se tornando uma constante trilha sonora que se tornou facilmente reconhecível aos ouvidos de todos tanto pela feérie de seus acordes quanto pela sugestão “apocalíptica” que a sua sonoridade proporciona. Por conta de sua característica, ela serviu de pano de fundo para filmes como Excalibur , aparece num trecho de Saló o 120 Giornate de Sodoma, de Pasolini (o trecho “Primo Vere – Veras Leta Faces”), serviu de baixo contínuo às peripécias dionisíacas de Jim Morrison em The Doors de Oliver Stone e, mais recentemente, foi o motivo condutor de uma maquiavélica vilã da novela das oito.
Com efeito, toda essa fama repercute mais ou menos o que ocorreu com a cantata desde a sua prémiere , em Frankfurt, no longínquo ano de 1937. Contudo, se a fama e o ouriço da música de Orff reflete o ecletismo musical dos tempos modernos, ela passa muito longe do que Carmina Burana realmente representa enquanto literatura viva. Para começar, os poemas que deram origem à peça musical nasceram muito, mas muito tempo antes do século passado. Para tanto, é preciso conhecer uma história que aconteceu na Idade Média e retornar ao tempo das universidades medievais na Europa feudal.
O começo A história se inicia no mosteiro de Benediktbeuren , na Baviera, ao leste da França. Naquele tempo, a música se dividia em duas: a sacra, representada pelos cantochões e pelo Canto Gregoriano, símbolo de austeridade e opulência da hegemonia da Igreja; e a musicalidade profana, que se traduzia pela poesia alegre e palaciana dos trovadores. Porém, enquanto a melodia religiosa narrava passagens do ofício da Igreja, a lírica trovadoresca cantava o prazer da bebida, os excessos, a fugacidade do tempo e o amor. Esta temática residia e se exaltava tanto no cantar dos trovadores quando no folclore do povo. E essa música ecoava nas ruas, nas festas, nas tavernas. E quem cantava a fanfarronice da vida eram os aldeões, boêmios errantes, ciganos, enfim, gente como todo mundo, e que vivia para amar, jogar, beber e contar relatos de histórias picantes e muita sátira à corte e ao clero.
Por conta disso e da identificação popular com esses temas, essa “temática” correria muito pela Europa Ocidental naquela época. Assim, a música profana se difundiu com facilidade e chegou a todas as partes. Cabe ressaltar que na Idade Média não existia imprensa nem Gutemberg nem Orkut nem coisa alguma. Portanto, a melhor forma de difusão de impressões e informações, lendas e crônicas era através da música dos trovadores ( minnesingers , em alemão, troubadours , em provençal). Por isso, milhares de poemas corriam o Velho Continente na voz desses cantadores. Contudo, como toda essa lírica vivia na cabeça dos cantores e na tradição oral do povo, muito pouco do que se produziu naquele tempo chegou até os nossos dias. O texto sobreviveu, mas a música se perdeu na memória dos povos, com o passar dos séculos.
Algumas delas, porém, foram registradas em livros — os cancioneiros — guardadas em bibliotecas, e que resistiram ao tempo. Foi dessa fonte que Carl Orff bebeu, para compor a sua cantata.
A origem da Carmina
Mas o leitor deve estar se perguntando: que raios quer dizer Carmina Burana ? A expressão significa “Poemas de Beuren”. Para quem lembra, tudo começou em Benediktbeuren. Assim como a lírica de D. Dinis preexiste na Torre do Tombo, em Portugal, a “carmina” (“poema”, em latim vulgar), se trata de uma antologia, um cancioneiro como poemas daquele mosteiro da Baviera. Como no caso do trovador lusitano, de acordo com os historiadores, os poemas não foram escritos na Baviera, mas sim na região do Tirol, em meados do Século XIII, ou seja, na Baixa Idade Média. Os textos, em geral, foram recolhidos e copiados em alemão ancestral e em latim, nos primórdios da língua neolatina. O Português ainda não era o que conhecemos hoje, o mesmo ocorria com as demais línguas nacionais, que estavam em gestação. Junto à “carmina”, foram acrescidos outros temas, compostos em baixo alemão, francês antigo e grego.
Como no caso da arte medieval, não existem autores propriamente ditos àquelas poesias. Era uma arte do povo e para o povo, e com uma finalidade transcendente ao autor. Poucos eram notórios, como Ruy Diaz de Vivar (El Cid) ou Wolfram Von Eisenbach. O que se pode dizer é que os autores daqueles poemas de “Beuren” eram estudantes e professores de universidades medievais, que à época, eram corporações intelectuais, que nasceram a partir do século XII, como as de Salerno e Bolonha. Esses estudantes, professores e boêmios anônimos eram conhecidos como “goliardos”. Guardadas as devidas proporções, eles tinham o mesmo espírito juvenil e lúdico de qualquer universitário, com suas paixões e idealismos. A partir daí, dá para se ter uma idéia do que eram e do papel “libertário” que eles representavam numa sociedade estamental, hierárquica e fechada, em tempos do Feudalismo — considerada de forma equivocada como a “Idade das Trevas”.
Certo era que eram conhecedores de literatura antiga e que apreciavam autores latinos clássicos, como Ovídio ou Horácio. Walther Von Der Vogelweide, um patriarca da língua alemã, é certamente o mais conhecido de todos os goliardos. Da diversidade de temas, toda aquela lírica seria enfeixada no Cancioneiro de Beuren em três seções: temas satíricos ( Carmina Moralia ), cantigas de amor ( Carmina Veris et Amoris ) e as cantigas dionisíacas, que louvavam o estouvamento e a bebida ( Carmina Lusorium ).Um exemplo do teor do Códice de Beuren é In Taberna , que Orff utilizou:
Quando na taverna estamos
Falar da morte evitamos
Jogar, isto nos conforta,
O dado é que importa
....
Bebe a dona, bebe o senhor,
Bebem o cabo e o monsenhor
Bebe o servo, bebe a ama
O apressado e o tardo,
Bebe o branco e bebe o pardo
Com seis ducados não pagamos
Todo o vinho que tragamos
Bebendo todos à porfia
Mas ao beber na alegria,
Irmãos falsos de nós judiam
Sempre nos vilipendiam
Quem nos inveja, seja maldito,
No livro dos justos, não fique inscrito.
Existe ainda um epílogo, de poemas sacros ( Carmina Divina ) que foram coligidos muito tempo depois. De Beuren, a “carmina” foi parar na Biblioteca Estadual de Munique, num códice (livro feito por copistas em letra gótica), onde adormeceu por anos, até ser exumado por Carl Orff, sete séculos depois.
A descoberta Orff viveu em Munique. Como musicólogo, travou contato com a Carmina Burana . Maravilhado com a qualidade daqueles temas, ele decidiu imprimir numa cantata o trabalho instrumental que desenvolvia com o Schulwerk , método musical que lidava com coral e percussão, basicamente. Essa ênfase nesse status “percussivo”, segundo ele, tinha relação com a memória do ouvinte. Cativo de sua época (começo do Século XX), o compositor tinha interesse na ruptura com a tradição romântica (Wagner, Strauss) e naquele descompromisso entre música moderna e popular, querendo ser moderno sendo popular também. A idéia deu certo: a sonoridade de sua melodia caiu no gosto do público sem soar difícil ou onírica demais. Porém, a “carmina” de Orff é diferente da ópera, já que não tem enredo e não é encenada nos moldes tradicionais. Foi essa ruptura, além da originalidade da música em geral, que guindou Carmina Burana ao posto de obra-prima.
Contudo, uma coisa deve ser ressaltada: a música do autor alemão não tem relação direta com a poesia popular da Idade Média. Quer dizer, trata-se de um irrefutável anacronismo. Mesmo que ela dê a impressão de ser de época, não possui qualquer relação: é a forma com que o compositor decidiu recriar aquele espírito de época. Daí a sugestão “apocalíptica” da primeira parte da cantata (a mais conhecida), “O Fortuna”, que virou mania como trilha em cinema e tevê. A verdade é que, se a poesia resistiu ao tempo, os trovadores não escreviam a melodia na pauta (já que guardavam ela na cabeça), ficando apenas as letras. Mais: mesmo sendo a versão mais popular, Orff não foi o único a musicar trechos do Códice de Beuren. Com efeito, ele foi quem menos utilizou qualquer notação musical relativa à procura de um “sugestivo” estilo da época.
Embora parcos, no entanto, esses trabalhos existem. Poucos, porém, chegaram ao formato de disco ou CD. Um deles é o trabalho feito pelo Studio Der Frühen Musik , especializado em música medieval. Esse trabalho de retorno à essência da “carmina” original foi coroado com reedições críticas e bilíngües dos poemas, em várias línguas, inclusive no Brasil. Em 1994, a editora Ars Poetica lançou uma tradução brasileira. Realizada por Maurice Van Woensen, ela mostra toda a riqueza poética que exala daqueles textos ancestrais. A tradução é elucidativa e contextualiza muito bem o espírito da época. Aliás, é um fator importante para se compreender a produção literária do medievo e a sua representação pelos trovadores — algo diverso da pompa e circunstância de Carl Orff, de reconhecimento e popularidade esmagadoras.
Porém, o que muita gente não sabe é que Carmina Burana faz parte de uma trilogia concebida por Carl Orff, dentro do mesmo espírito musical do Schulwerk que ele trabalhava. Junto com a prosódia dos poemas de Beuren, o compositor criaria mais duas cantatas: Catuli Carmina (1943) e Trionfi Dell'Afrodite (1952), todas inspiradas por textos clássicos greco-latinos e gravadas em disco. E embora ele seja famoso por sua obra-prima, o criador da cantata não logrou o mesmo sucesso em outras peças musicais. No fim das contas, Orff é mais conhecido como o “autor de Carmina Burana ” do que pelo conjunto de sua obra, caindo na vala comum dos autores de uma obra só. A despeito disso, não há nada que impeça que ela desperte no público em geral o interesse em outros elementos de sua obra.
Para saber mais:
Carmina Burana
Tradução de Maurice Van Woensen
Editora Ars Nova, São Paulo, 1994
250 páginas.
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