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26 de outubro a 13 de novembro de 2004

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PESSO E DISSONÂNCIA
Veteranos do Helmet voltam dispostos a mostrar com quantos acordes dissonantes se faz metal de qualidade.

por Laedson Moreira Junior( laedsonjr@pop.com.br )

começo dos anos 90 foi uma das épocas mais generosas para o rock pesado. Bandas como Metallica e Guns N'Roses atingiam o ápice de popularidade, enquanto uma nova leva de conjuntos influenciados tanto pelo punk rock dos Ramones quanto pelo metal do Black Sabbath começava a despontar em Seattle. Com isso, muitos grupos de estilos variados mas com o peso das guitarras em comum começaram a surgir em todos os lugares. A maioria desses grupos foi tragada pelo fenômeno das bandas pop adolescentes (Spice Girls, Backstreet Boys e outros) que assolou o final da década e sumiu. Outros, apesar da repentina queda de popularidade, mantiveram-se firmes durante o período de entressafra. E há ainda aqueles que mesmo tendo feito uma breve interrupção em suas atividades parecem ter encontrado, com o surgimento do nu-metal, o fôlego que faltava para retornar e dar prosseguimento às suas carreiras. É o caso do Helmet , grupo fundado pelo guitarrista e vocalista Page Hamilton em 1989 que se dissolveu no começo de 99 e agora, totalmente reformulado, volta para divulgar o seu mais novo trabalho: Size Matters .

Nascido no Oregon, o guitarrista Page Hamilton mudou-se nos anos 80 para Nova Iorque com o objetivo de estudar jazz. Lá chegando, ele ficou encantado com a efervescência da cena alternativa local, principalmente com bandas que desenvolviam trabalhos mais experimentais, com afinações poucos usuais, harmonias jazzísticas, quase minimalistas, e guitarras dissonantes, como o Sonic Youth e a orquestra de guitarras de Glenn Branca, com quem inclusive chegou a tocar. Em 1998, Hamilton entrou para a Band Of Susans, que reunia todos os elementos de noise guitar e texturas poucos convencionais que tanto o encantaram no início. Após um ano na banda, ele decidiu sair e formar seu próprio conjunto, juntando todo o trabalho que vinha desenvolvendo até então com as influências de Black Sabbath que trazia desde a adolescência. Para isso, recrutou Henry Bogdan, um amigo dos tempos do Oregon, para o baixo, John Stanier para a bateria e o guitarrista australiano Peter Mengede. Estava formado o Helmet.

No começo, eles percorreram o circuito underground nova-iorquino, juntando dinheiro para gravar um disco independente. Strap It On , lançado em 1990, mostrava uma banda com boas idéias que não foram muito bem trabalhadas, talvez fruto da inexperiência. O fato de o disco ter sido produzido em um pequeno estúdio de oito canais, pela própria banda, também contribuiu para a crueza do som. O Helmet ficou preso ao formato concebido inicialmente por Page Hamilton (muita gritaria, guitarras cheias de feedbacks e harmonias atonais) e não conseguiu desvencilhar-se das comparações com as bandas que os inspiraram. Os destaques são “Sinatra”, “Bad Mood” e “Repetition”.

Com o estouro do Nirvana e das demais bandas de Seattle, as grandes gravadoras passaram a contratar todo e qualquer grupo que soasse um pouco mais pesado e pudesse ser enquadrado no mesmo tipo de som que eles vinham fazendo. A Interscope não demorou a ver naquela banda de Nova Iorque, equivocadamente comparada ao Soundgarden, uma promessa de boas vendagens. Em novembro de 1991, Strap It On foi relançado em todos os Estados Unidos e em alguns países da Europa, preparando o terreno para o disco seguinte.

Meantime foi lançado em junho de 1992, produzido por Steve Albini, que depois faria In Utero , do Nirvana. O disco traz um Helmet mais maduro, menos experimental. Ficam latentes as influências de Black Sabbath, tanto nos riffs de guitarra quanto na voz de Page Hamilton, mas, mesmo assim, a banda consegue mostrar identidade própria, abusando dos acordes graves e pesados, repetidos a exaustão, solos despojados e andamentos quebrados nas canções. Apesar do sucesso e da qualidade de faixas como “In The Meantime”, “Iron Head”, “Unsung” e “Give It”, as vendagens de Meantime ficaram muito aquém das expectativas da gravadora.

Em 1993, o Helmet participa da trilha sonora do filme Uma Jogada do Destino , estrelado por Emilio Estevez e Cuba Gooding Jr.. O longa é fraco e irregular, mas o disco o superou em sucesso e é considerado por muitos o marco zero do nu-metal, pois apostava em encontros pouco ortodoxos entre artistas de rap e bandas de rock alternativo e metal: Ice-T/Slayer, Boo Yaa Tribe/Faith No More, Onyx/Biohazard, Cypress Hill/Mudhoney, entre outros. Ao Helmet coube uma colaboração com o House of Pain na faixa de abertura do disco, “Just Another Victim”.

O guitarrista Peter Mengede deixa a banda no começo de 1994, antes deles entrarem em estúdio para gravar o novo disco. Para o seu lugar é recrutado Rob Echeverria, egresso da cena underground nova-iorquina. É durante as gravações que chega a notícia do suicídio de Kurt Cobain. O clima passou a ser de tristeza geral, pois um dos produtores do disco, Butch Vig, havia produzido também Nevermind do Nirvana e se tornara amigo da banda.

Betty , terceiro disco do Helmet, é lançado em junho de 1994 e traz músicas mais trabalhadas, fazendo uma ponte entre os dois álbuns anteriores. Estão lá os acordes graves e os andamentos quebrados, bem como os solos dissonantes e as harmonias elaboradas. A banda ainda flerta com o blues em “The Silver Hawaiian” e com o jazz em “Beautiful Love”, improvável cover de Dizzie Gillespie. Destaque ainda para “Wilma´s Rainbow”, “I Know” e “Milquetoast”. Vale mencionar a singeleza da capa, que pode até levar os incautos a achar que estão comprando o disco errado. Apesar de ter sido bastante elogiado pela crítica, Betty teve vendas decepcionantes, o que começou a gerar tensão entre os membros bandas e culminou com a saída de Rob Echeverria, que se juntou ao Biohazard. O Helmet precisava de férias e seus integrantes resolveram dar um tempo. Para que o nome da banda continuasse em evidência, foi lançada, em 1995, uma coletânea de lados-B, Born Annoying , que trazia poucos bons momentos como “Primitive”, cover do Killing Joke, e “No Nicky No”.

O próximo disco vinha com a promessa de ser uma volta às raízes. O grupo voltava das férias revigorado e, esperava-se, cheio de gás. Mas não foi isso que se ouviu em Afterstate , lançado em março de 1997. O disco é bastante irregular e traz uma coleção de canções pouco inspiradas. As melhores músicas são “Pure” e “Renovation”. O fraco desempenho de público e crítica acabou precipitando a dissolução da banda após o término da turnê.

Page Hamilton não ficou parado durante esse tempo sem o Helmet. Primeiro ele foi para Nova Orleans compor e gravar músicas com Charlie Clouser no estúdio de Trent Reznor (Nine Inch Nails). Também participou como músico de trilhas sonoras ( S.W.A.T. e Lance de Sorte , entre outras), compôs uma ópera-rock ainda inédita ( Transposed Heads ), cantou no primeiro disco da banda eletrônica Überzone ( Faith In The Future ), excursionou com o trompetista Ben Neill e, por quatro meses, com David Bowie, durante a turnê do álbum Hours . Em 2002, ele fundou a banda Gandhi, com amigos de Nova York. O grupo durou poucos shows. Hamilton também foi produtor do primeiro disco do projeto paralelo de Gavin Rossdale, vocalista do Bush, Institute, que deve sair em novembro.

Com a entrada do novo milênio, o nu-metal passou a ser o som do momento. Bandas como Korn, Limp Bizkit, Linkin Park e outras vendiam milhões de discos seguindo a cartilha Helmet de composição: guitarras ultragraves e arranjos minimalistas, mas com muito peso. Era o momento ideal para a volta da banda. Page Hamilton percebeu isso e começou a articular um retorno. Em janeiro de 2004, foi lançado uma coletânea com os maiores sucessos, batizada como Unsung: The Very Best of Helmet (1991-1997) . Com os comentários positivos a respeito do disco, ele tentou contatar seus antigos companheiros, John Stanier e Henry Bogdan. Diante da recusa destes em reformular a banda, Hamilton partiu em busca de novos parceiros. Primeiro ele conheceu através de amigos comuns o baterista John Tempesta, que já tocou com o Testament e com Rob Zombie. Logo a eles se juntou o guitarrista Chris Traynor, ex-Bush, que tocou com o próprio Helmet durante a turnê de Afterstate . Com essa formação eles passaram a trabalhar em cima das novas composições e no primeiro semestre de 2004 entraram em estúdio com Traynor assumindo também o baixo (para a turnê do disco já foi contratado Frank Bello, ex-Anthrax).

O resultado é o recém-chegado Size Matters , lançado no Brasil pela Universal. O disco contém todos os elementos que fazem parte do chamado som do Helmet, mas a banda diminuiu muito os experimentalismos e os toques jazzísticos. As influências de Black Sabbath não estão mais tão presentes como antes, principalmente na voz. As músicas têm refrões mais acessíveis.

“Smart” abre o disco com um riff pesado e uma voz que chega a lembrar a Rollins Band nos tempos de End of Silence. “Crashing Foreign Cars” é rápida e tem um refrão mais melódico. “See you Dead” é uma das melhores músicas do disco, tem um acento bluesy, ao estilo Corrosion of Conformity. Enquanto “Drug Lord”, “Surgery” e “Last Breath” lembram o velho Helmet, “Unwound” mostra que no Helmet 2004 existe espaço para músicas mais lentas, quase baladas. “Enemies” é uma canção melancólica e depressiva, mas com apelo pop. “Every Body Loves You” e “Speak and Spell” são mais contemporâneas, chegando a beirar o nu-metal. “Throwing Punches” também lembra muito a banda de Henry Rollins em algumas passagens.

Quando Page Hamilton anunciou o retorno do Helmet, muita gente torceu o nariz, achando que seria mais uma banda voltando para tocar as mesmas antigas músicas e ganhar uns trocados. Size Matters é um bom disco feito por veteranos, sim, mas que não caíram na tentação e no comodismo da auto-repetição. Muito pelo contrário o disco apresenta novas propostas que modernizam o som da banda e mostram que eles ainda têm fôlego para continuar na estrada por muitos anos.