| O GRANDE MOTIM
The Lost Riots marca com louvor a estréia da banda inglesa Hope of the States
por
Fabio Freire (
fabio_fcosta@hotmail.com )
've got no good in me for anybody
I've been ruined by the lies I told to everybody
It's so desperately sad that my life has come to this
I hope there's something better than this for me
É fato: hoje em dia os produtos culturais - filmes, CDs, programas de televisão e rádio, peças de teatro, etc - estão cada vez mais padronizados e apostando na mesmice de fórmulas já testadas, aprovadas e saturadas para conquistar um mercado mais amplo e um lucro maior. Sendo assim, é louvável que alguns artistas não abram mão de sua personalidade e nadem contra a maré, não se rendendo ao marasmo criativo e lançando obras ousadas e que testam o público. Um desses raros exemplos de resistência é a banda Hope of the States. Se o grande barato das bandas de rock da atualidade é revisitar o passado, remetendo a ídolos de um tempo já distante, o sexteto inglês foge de qualquer rótulo preconcebido no seu álbum de estréia The Lost Riots , um trabalho inspirado e difícil.
I used to think I had something to say
But my dumb ideologies gave me away
I keep my mouth shut, but it's always the same
Over and over and over again
The Lost Riots é composto por doze faixas que atestam o talento da banda ao apostar em músicas climáticas e melodias bem construídas. Nada de refrões grudentos, canções dançantes e feitas para serem tocadas à exaustão nas rádios. Aqui, os hits em potencial não têm vez e abrem espaço para arranjos mais definidos e uma atmosfera de tristeza que permeia todo o álbum. Em alguns momentos, o som do sexteto pode até remeter a outras bandas inglesas como o Radiohead e sua aura depressiva; o Coldplay e sua revisita ao rock progressivo; e a pouco conhecida Doves e sua grandiosidade, por exemplo. Mas suas composições que misturam bateria e guitarras barulhentas a instrumentos mais melódicos como pianos e violinos soam originais, trazendo um frescor à banda, por mais que essa combinação de elementos com sonoridades distintas não seja nenhuma novidade.
Today I am wrong again, but it's not surprising
O
nce more heaven has forgotten me so everybody
Clap your hands together for me, as I watch my world collapse
Don't waste your sympathy on me, cause I made it all
Outro ponto que diferencia o Hope of the States das bandas de rock em voga é que o vocal à beira do desespero de Sam Herlihy fica, muitas vezes, em segundo plano, o que acentua a melancolia das composições. Um exemplo é a emblemática “Black Dollar Bills”, que deixa a letra mínima dar espaço a um ritmo crescente que termina de maneira quase apoteótica, com um piano que soa como uma martelada. Ao final dos quase 7 minutos da música, você nem lembra que em algum momento a faixa trazia vocais. Já “The Black Amnesias” dispensa totalmente os vocais e cresce com isso. Pode até não ser o experimentalismo exagerado de um Godspeed You! Black Emperor (com músicas que chegam a ultrapassar os vinte minutos) ou o lirismo quase doentio de um Sigur Rós, mas o grupo inglês sabe como valorizar a instrumentação da banda para criar climas memoráveis. Ainda assim, as letras de The Lost Riots são essenciais para o estabelecimento de uma unidade e harmonia ao trabalho.
I used to think I had something to say
But my dumb ideologies gave me away
I keep my mouth shut, but it's always the same
Over and over and over again
Um dos destaques de The Lost Riots é a bela “Enemies/Friends”, que traz uma letra poderosa (All the money in the world won't save you/ We're coming home/ All the prisons that you build won't hold us/ Just let us go) e uma bateria marcando o ritmo da música e contrastando com violinos que lhe conferem uma sonoridade única. O vocal arrastado, quase um lamento de dor do vocalista, ganha espaço na soturna “Me Ves Y Sufres”, que começa sofrida e desponta como a melhor música do CD. Também se evidenciam a eficiente “Sadness on My Back” e a mais comercial “The Red The White The Black The Blue”, que tem direito a refrão e se salva do lugar comum dos riffs repetitivos pela energia que o vocalista Herlihy emprega na sua execução.
My mistakes happen so much it's success
But I'll drag you all down into my sorry mess
I said I was sorry, but it's always the same
Over and over and over again
Mas não é só o talento dos integrantes da banda e a competência das canções que fazem The Lost Riost se sobressair na enxurrada de discos que chegam às lojas todos os anos. Um fato trágico marcou a realização da obra, o que acaba conferindo uma carga dramática bem maior ao trabalho. Durante o processo de finalização do disco, no começo do ano, foi noticiado o suicídio do guitarrista Jimmi Lawrence, chegando a ser especulado se o álbum de estréia do sexteto iria mesmo ver a luz das prateleiras. Passado o trauma, The Lost Riots não só foi lançado e ganhou o respaldo da crítica como é, também, uma bela homenagem à memória do guitarrista. E se Lawrence precisou morrer para que The Lost Riots atingisse à perfeição, então ele tem seu lugar garantido no céu dos grandes artistas do rock.
I have been doomed from the first time I tried
If I jump into sanity from all of my lies
I'm always fake, and it's always the same
Over and over and over and over again
(“Me Ves Y Sufres” – Hope of the States) |