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26 de outubro a 13 de novembro de 2004

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MUITO MEL NUM SÓ FILME
Olga sucede fenomenalmente na tarefa de se fazer apenas um filme oscarizável
por Igor Matheus ( imathpm@yahoo.com.br )

tome filme oscarizante no cinema brasileiro. Folhetinesco e pujante, Olga preenche todos os requisitos de um estandarte tupiniquim na Copa do Mundo das estatuetas. Ainda que com uma assustadora qualidade técnica e o convincente ar germânico da protagonista, a película de Jayme Monjardim é cansativa.

O filme se perde por não conseguir equilibrar a balança entre a excelência técnica e as sobras de sentimentalismo. Trechos e mais trechos de frases empoladas acompanhadas de violinos elegíacos dariam certo em qualquer série da Rede Globo, mas não em um filme de duas horas e pouco. Longe das comparações com a verdadeira Olga Benário – algo que necessariamente não cabe ao cinema enquanto experiência estética – a interpretação dada à protagonista tem como ossatura o estereótipo do mártir. Aquele tom solene de indignação, aquela vontade incansável de mudar o mundo, nada disso sai da fôrma pré-determinada das heroínas. A Olga do Monjardim, sob uma ótica cinematográfica, é uma Valquíria resoluta qualquer.

Mesmo não tendo alcançado o lirismo de O Pianista de Roman Polanski, Olga é um filme tecnicamente bem-feito, sim. É difícil acreditar que a equipe não foi além dos trópicos para retratar a convulsionada Europa quarentista. Mas a maneira como a história – e que história – da militante alemã foi estruturada estava direcionada para o fiel público das novelas. É essa intenção que legitima o romantismo açucarado e o maniqueísmo. É uma tarefa tão Global que a menininha que vive a pequena Anita parece ter saído daquele medonho Gente Inocente . A garota atravessa a sala e acaricia a foto da mãe: a melhor paródia de R2-D2 do cinema.

A principal regra de um filme feito para as massas é supri-la a necessidade de alimentar seus preconceitos, seus estereótipos. Como o filme – e o cinema em geral – pode se privar de ter compromisso com a verdade histórica e com a paciência dos leitores de Fernando Morais, construiu-se em cima daquela norma. Não faltou nada: romantismo, criancinha bonitinha chorando, os orcs nazistas. Até a Fernanda Montenegro estava lá. Na tarefa de se fazer um filme oscarizável, Olga obtém êxito completo.