| O AMOR E A MORTE SEGUNDO FRANÇOIS TRUFFAUT
O último artigo do Rabisco sobre o cineasta francês disseca o dilema maior de sua obra: o duelo entre o Provisório e o Absoluto
por
Fernando Américo(
fercastro@netcabo.pt )

odo ser humano é presa de uma contradição básica: queremos o Amor e a Felicidade eternos, como num conto de fadas, mas a vida nos ensina que a morte põe um doloroso ponto final em tudo. Este paradoxo, essa defasagem entre o Absoluto dos nossos sonhos e o Provisório da vida, está no centro de toda a obra de François Truffaut. Ou, em suas próprias palavras:
“(…) Tudo o que é do domínio afetivo reclama o Absoluto. O filho quer a mãe por toda a vida, os amantes querem se amar por toda a vida, tudo em nós pede o Definitivo – enquanto que a vida nos ensina o Provisório. Na medida em que o tempo passa, torna-se conveniente esquecermos nossos mortos, pois, esquecendo-os, é a nossa própria morte que esquecemos. (…) O verdadeiro dilaceramento reside na necessidade de aceitarmos o Provisório – para sobrevivermos”. ( O Cinema Segundo François Truffaut , Editora Nova Fronteira, 1988).
Sendo assim, a obra de Truffaut, toda centrada no Amor, não podia estar mais distante da noção equivocada que temos de Romantismo no cinema. Em seus filmes, o Amor, este sentimento nobre e que nos eleva ao sagrado, não significa salvação , e sim destruição.
Em seus primeiros filmes, Truffaut se preocupava menos com este aspecto do que com a necessidade de equilibrar os personagens, fazer o público gostar de cada um deles igualmente – afinal, o Amor é o único aspecto da vida onde todos são rigorosamente iguais. Em Jules e Jim - Uma Mulher para Dois , por exemplo, Catherine (Jeanne Moreau) ama Jules (Oscar Werner) e Jim (Henri Serre) ao mesmo tempo. Ao contrário da maioria dos filmes, em que um deles é mostrado como ridículo, egoísta, mau, e o outro é belo, justo, perfeito (assim sabemos por quem vamos “torcer”) Truffaut coloca os dois amigos em pé de igualdade perante o espectador. Ambos amam Catherine, ambos a merecem, e ela deseja ambos. Como este dilema é resolvido? Os três personagens não são mostrados como “pecadores” ou “imorais”: é que a moral tradicional simplesmente não serve para eles. O que eles fazem então é buscar uma nova moral, uma nova forma de viver, uma nova família, morando os três juntos num chalé em pleno campo. O desafio de Truffaut aqui era encenar uma história indecente com a suavidade de um conto de fadas, sem atribuir culpa aos personagens, fazendo o público cúmplice de um ménage à trois consentido.
Mas mesmo nesta atmosfera de leveza, os personagens de Truffaut se entregam ao lado mais escuro do Amor: a Posse. Queremos tomar conta do que é nosso, trancá-lo a sete chaves, impedir que voe para longe de nós. E a única maneira de consegui-lo é, paradoxalmente, através da Morte. Como crianças egoístas, os amantes de Truffaut preferem destruir seu objeto de desejo a perdê-lo. Esta é a maior contradição do Amor segundo Truffaut: se levado às últimas consequências, ele destina o ser amado à destruição. Só a Morte, o Absoluto em si mesmo, pode concretizar o “felizes para sempre” do conto de fadas.
Com o passar do tempo, a obra de Truffaut vai assumindo cada vez mais este lado cruel. Quase dez anos depois de Jules e Jim , ele faria Duas Inglesas e o Amor , invertendo a equação do triângulo amoroso: desta vez, um homem é amado por duas irmãs. Claude (Jean-Pierre Léaud) não consegue se decidir entre Anne (Kika Markham), e Muriel (Stacey Tendeter). Anne e Muriel são opostas: a primeira representa o senso prático, a vida imediata, o Provisório, enquanto a segunda é o idealismo, o romantismo, o Absoluto. Mas Claude não pode se fixar em nada, ele é por demais livre, por demais “leve” para se prender a alguém. Pela primeira vez em sua obra, esta “liberdade” é mostrada como algo egoísta e cruel. Ao final, Claude fica sozinho. Truffaut parece dizer que quem brinca com os sentimentos acaba se transformando numa marionete do destino.
Ao contrário de Jules e Jim , em que o Amor era mostrado de uma maneira leve e arejada, Duas Inglesas e o Amor mostra o lado carnal e sujo da relação amorosa: Truffaut não nos poupa das lágrimas, do vômito, do escarro, do sangue virginal. Os fluídos corporais são pequenos lembretes mandados pela Morte de que ela nos espera logo ali na esquina. Aos personagens, só resta crer no Amor. Crer é a palavra chave; para Truffaut, o Amor é uma religião.
Este amor mostrado de forma litúrgica, como algo que nos eleva mas também nos condena, remete à literatura do século XIX, que exerceu grande influência sobre Truffaut. Jules e Jim e Duas Inglesas e o Amor são histórias situadas no passado; isto torna mais fácil para o público entender e aceitar estes sentimentos avassaladores. Mas, quase ao final de sua vida, Truffaut aceitou o desafio de trazer esta visão do amor para nossos dias, fazendo seu filme mais atordoante: A Mulher do Lado . Nada de saias rendadas, coches, belas casas de campo, velas, castiçais, cartas de amor. Bernard (Gerard Depardieu) e Mathilde (Fanny Ardant) vivem no presente, entre telefones, carros, carrinhos de supermercado e quadras de tênis.
Tudo começa quando Bernard e Mathilde se reencontram anos depois de seu caso de amor. Ambos agora estão casados e vivem com suas respectivas famílias. Mas não é fácil esquecer o passado: os amantes voltam a se encontrar, até que, numa cena chocante, o marido de Mathilde e a mulher de Bernard descobrem tudo. A partir daí, os personagens são obrigados a “voltar à razão”, à rotina que tinham antes. Bernard consegue; Mathilde não. Ao contrário dos longas anteriores, não existe triângulo amoroso. No início do filme, Bernard e Mathilde estão numa relação a dois (os personagens dos cônjuges não têm importância dramática). Da metade para o final, Mathilde se vê sozinha com seu amor e perde a referência da realidade. Em uma das cenas mais dilacerantes da obra de Truffaut, Mathilde conversa com o seu psicanalista, que diz a ela que ela precisa “esquecer”, deixar para trás a dor. Mathilde, com um olhar perdido, diz que ele não entende nada. O que ela sente, o que a corrói, é a mesma matéria de que são feitas as canções de amor. Para entender sua dor, é preciso levar a sério os versos rasgados de “Ne Me Quitte Pas”.
Ao trazer o amor romântico para a atualidade, Truffaut condenou seus personagens à solidão absoluta. Nada pode ser mais triste e patético que alguém que não consegue esconder seus próprios sentimentos. Mais uma vez, a Morte é o refúgio final do Amor, num jogo sem vencedores.
A Mulher do Lado é o filme mais belo e trágico de Truffaut, porque acontece inteiro ao sol, em ambientes modernos, onde os coches são trocados por carros velozes e as cartas se transformam em telefonemas de amor. Passa o tempo, mas a busca dos amantes pelo Absoluto enquanto fogem do Provisório continua a mesma de sempre. Ao fazer este filme, Truffaut já estava doente do câncer que o matou três anos depois. A morte levou o Homem, mas não fez esquecer sua obra. Os filmes de Truffaut continuam vivos, vibrantes, testemunhos do dilema tragicômico da Humanidade: correr a vida inteira atrás do Amor para cair nos braços da Morte.
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