| SUAVE CECÍLIA
A poesia é pátria da inefável alquimista do verbo
por
Marcelo Xavier(
marcelo@rabisco.com.br )
 ão reverenciada e tão pouco lida, Cecília Meireles (1901-1964) possui uma obra singular, que passa muito além das antologias escolares. A poetisa carioca, que nos deixou há quarenta primaveras, escreveu a mais bela trajetória literária do último século. Sua obra diz tanto ou muito mais do que a sua vida. O livro que melhor compreende todas as fases de Cecília é a Antologia Poética , da Nova Aguilar, que teve três edições: a primeira, em 1958, a Segunda, em 1963 (as duas podem ser facilmente encontradas nos sebos da vida ou nas melhores bibliotecas) e a mais recente, em 1998, que é mais uma edição crítica, com ensaios, iconografia e muita coisa inédita. A primeira coletânea teve a seleção de textos feita pela própria Cecília em 1963, pouco tempo antes de morrer - originalmente lançada numa série para a José Olympio, que havia publicado antologias de gente da estirpe de um João Cabral de Melo Neto.
A Nova Fronteira também editou vários de seus livros em edição original, como o Romanceiro da Inconfidência (1953), além da sua própria antologia, que não tem a abrangência da brochura em papel-bíblia da Aguilar, mas mostra um retrato irretocável de um dos maiores momentos da Literatura Brasileira. Também são as publicações mais acessíveis, onde podemos travar conhecimento com livros como Baladas para El-Rei (1925), Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto (1945) e Retrato Natural (1949), que por si só, constituem o maior momento de Cecília. Os volumes não substituiriam sua obra completa mas podem fornecer valiosas pistas de seu traço lírico. Aqui, Cecília visita cemitérios marinhos, navega em nau de insanos, atravessa os sete mares e nas alquebradas asas de albatroz, pousou suas vogais coloridas e consoantes de gris, ritmadas nos versos livres que a caracterizaram:
Fez tanto luar que eu pensei nos teus olhos antigos
E nas tuas antigas palavras.
O vento trouxe de longe tantos lugares em que
Estivemos,
Que tornei a viver contigo enquanto o vento passava
As amarras do navio de sonhos de Cecília contrastam na fugacidade tênue do tempo, no inventário da sua sensibilidade esmagadora, em que o exercício concreto do verso se fez obrigação cotidiana, resultando na composição de um amálgama sem par, em Língua Portuguesa.
Ou, como observou o crítico Darcy Damasceno, um retrato vívido da existência em plena manifestação. O universo e as gentes, a flor e o pássaro, os seres ínfimos, as estações, a pedra, a cor, o mar, o sentimento do mundo, impressões, vivências, paixões e juízos que informaram a mente e a natureza humana. "Inventário da vida deveria se chamar tal obra, que a ela nada escapou", diz Damasceno.
Tendo passado por períodos estéticos diversos - o da espiritualidade do neo-simbolismo e o da explosão libertária, defendida pelos modernistas - a sua poesia transitou a “ceciliana” expressão do mundo de um intimismo passional para a exteriorização do amor à vida. A partir daí, a poetisa se alimenta da plenitude do vazio e a ela se submete. Ela foi modernista, mas não se vinculou à iconoclastia do movimento de 22. Como disse alguém, ela sempre soou romântica demais, universal demais para um bando de sujeitos pragmáticos, com programas e preceitos, propagandas e panfletos. Cecília, a “suave amiga”, como lhe chamava o também poeta Vinícius de Moraes, era e sempre será muito mais do que isso:
E estou de longe,
Compadecida,
Minha vigília
É anfiteatro
Que toda a vida
Cerca, em frente.
Não há passado
nem há futuro.
Tudo que abarco
Se faz presente
No caminho da solidão é que decore a maior parte da sua obra poética. Outro crítico, Davi Mourão Fereira, vaticinou: “Nesse aspecto, nada se passa de maneira simples. Dentro daquela solidão de recurso, há vários matizes, diversas gradações, que se sucedem desde uma melancólica apologia até a amargura de não ter nada mais a que recorrer, mostrando-se como um castigo ou um caminho de redenção...”. Cecília como a invenção da linguagem íntima, um mundo avesso, porém reconhecível.
Recherche do coração selvagem, alquimia da alma exaltada, estudo do ar e das águas, ventos sem nome, ritmo de doçuras e mágoas, desenho da vida – tudo flui no estro de Cecília, que concilia o leitor com o universo original, particular, único e transcendente das opalescências de éter, de efúlvias melancolias, metais voláteis, oceanos, ciprestes insones, oceanos não-pacíficos de Cecília — a silenciosa alquimista do verbo. Nunca a poesia pareceu tão leve, capaz de imobilizar o tempo. De dar voz às rosas e transformar tudo em distância da poesia que não foi.
Aqui está minha vida.
Esta areia tão clara com desenhos de andar
dedicados ao vento.
Aqui está minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento
Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.
Cecília Meireles partiu para sempre há quatro décadas, num 7 de novembro. O velho-jovem Vinícius de Moraes — que revelaria mais tarde ter preferido não ir ao enterro dela – explicou tudo numa bela e emocionada crônica (publicada na antologia Para uma Menina com uma Flor , Editora do Autor, 1966), onde disse não querer guardar essa última lembrança de seus companheiros. “Prefiro pensá-los em viagem, capazes de inesperadamente surgir em minha imaginação, como sucediam no meu tempo; vivos, itinerantes, sempre partindo e sempre de volta. Porque, como eu, todos os meus amigos viajam muito”.
|