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Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
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20 de novembro a 5 de dezembro 2004

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BARULHEIRA A SERVIÇO DA MÚSICA
Cyber-Jack comenta com exclusividade ao Rabisco seu CD repleto de raiva e agressividade
por Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )

uitos grupos musicais nascem com aquela característica feroz de banda roqueira mesmo, tanto na atitude quanto no som, com os primeiros CDs pesados e agressivos, mas, com o passar do tempo, a calmaria ou comodismo se instalam e a banda pára de fazer barulho, investindo em canções pop grudentas para ganhar fãs menos exigentes. Talvez esse não seja o caso do Cyber-Jack. É o primeiro disco, ok, mas é quase impossível perceber um som tão barulhento (no melhor sentido da palavra) na atualidade quanto o deles. Por isso mesmo, a aposta é que eles não mudem o som nunca, como é o costume de quase todo mundo, principalmente os que entram no tal do mainstream .

O Cyber-Jack é de São Paulo e existe desde 1998. The Great Red Spot é o segundo trabalho da banda, que estreou em 1999 com um EP independente chamado Reluctant Aliens . Em seguida, o então quarteto resolveu ir para os Estados Unidos viver de música. Depois da desistência do antigo baixista e de meses morando em condições decadentes, os três integrantes restantes resolveram voltar. Depois dessa experiência aventureira do trio, eles se uniram a dois novos instrumentistas e passaram a trabalhar em novas músicas para tentar lançar o primeiro CD. “Considero que a verdadeira banda nasceu só agora”, confessa o vocalista Andre Ston. O Cyber-Jack é formado hoje, além de Andre, por Toy (guitarra), Roger (baixo), Rods (guitarras e piano) e Jobas (bateria).


The Great Red Spot – lançado este ano de forma independente pelo selo Surprise! Records , criado pela própria banda – vem tomado de carga agressiva, tanto nas letras quanto na sonoridade, que transmitem cinco seres humanos livres para fazer a música que bem entenderem. “Talvez as letras falem de coragem, de força, no sentido de nunca desistir, sobre ser honesto, mas também de não levar merda de ninguém”, diz Andre. Tal declaração bombástica remete à música violenta vomitada dos alto-falantes, repleta de raiva, mas, também, à vontade de fazer bem-feito e com muita sinceridade.

As guitarras são altas e distorcidas. O vocal gritado à la Kurt Cobain em certos momentos – em outros lembra Marilyn Manson – sobrepõe os instrumentos apenas poucas vezes. A bateria, bem levada, produz uma barulheira infernal, característica marcante do CD, em que o baixo parece se esconder no meio daquele alvoroço todo. Só “parece”, pois, na verdade, o instrumento faz uma boa retaguarda. O som lembra as apresentações ao vivo da banda: ruidosas, berradas, tomadas de muita energia, num mantra hipnótico de punk rock misturado com heavy metal, tudo carregado de modernidade. Nada de modelos sonoros desgastados. Mesmo com influência de bandas antigas como The Doors, Nine Inch Nails e Guns N' Roses, o som do Cyber-Jack tem cara e vida própria, atual.

Os destaques ficam para as faixas “Sugar Scales”, uma verdadeira “pedrada” sonora, “Sad One”, com guitarra de introdução melódica e melancólica, “Dopamine Days” que dá uma verdadeira sacudida no ouvinte, a atual “Moody Queen” e a totalmente psicodélica “Lip Gloss”. Toda a fúria exposta como uma fratura óssea nas músicas reflete os tempos violentos que o mundo vive e dá o tom do futuro que espera a humanidade: sombrio.

Em entrevista concedida por email ao Rabisco , o vocalista Andre e o baixista Roger comentam como foi a experiência de lançar The Great Red Spot de forma independente e falam, também, dessa sonoridade explosiva que a banda passa em suas letras e canções.

– Fale um pouco como surgiu a banda, como tudo começou...

Andre - Estamos lutando nessa banda por muito tempo, e nada nunca foi fácil. Passamos por muita coisa juntos, só que nunca abaixamos a cabeça diante dos problemas. Nos alimentamos deles e ficamos cada vez mais fortes. Então, considero que a verdadeira banda nasceu só agora, e fico muito feliz que tudo deu certo.  

– De onde veio a idéia de batizar a banda como Cyber-Jack? Tem alguma mensagem que deseja ser passada com este nome?

Andre - Foi por acaso, por que juntamos os nomes de bandas antigas em que tocávamos. Acho que foi romântico e real o nome ter aparecido assim.

– De onde vem as influências e referências para a composição do som da banda?

Andre - Tentamos criar algo nosso, algo que fosse verdadeiro para nós mesmos. Fomos chipados por artistas e bandas maravilhosas, de todos os estilos e gerações. Agradecemos que existam bandas como Guns N´Roses, Nirvana, Nine Inch Nails e The Doors, sem eles talvez nada existiria.  

– Qual a mensagem que as letras e a música de vocês pretende passar?

Andre - Se estamos passando algo, eu diria que é um sentimento de liberdade. Liberdade de não ter medo, e ser você mesmo sempre. Talvez as letras falem de coragem, de força, no sentido de nunca desistir, sobre ser honesto, mas também de não levar merda de ninguém.  

– Muitas bandas se preocupam com a rotulação de seu som, se é assim ou assado. Como vocês encaram isso?

Andre - É muito estranho. Porque não planejamos nada, apenas tocamos e saiu isso. O Cyber-Jack é um acidente. Não pensamos em uma cena, ou em seguir um roteiro de regras pré-estabelecidas. Isso nos faria fracos e uma banda sem um pingo de alma.

– Como foi o processo de produção do CD?  

Roger - Foi um processo longo e demorado, mas o CD ficou exatamente do jeito que imaginávamos.  

– Por que vocês optaram em lançar o disco de forma independente, bancando do próprio bolso? Eu fiquei sabendo que vocês tinham uma possibilidade fechar com algum selo do exterior. Como ficou essa proposta? Não deu certo? Tem alguma perspectiva para isso?  

Andre - Foi uma necessidade. Se não tivéssemos lançado nós mesmos, o CD sairia tarde, sairia errado, ou nem mesmo sairia. Estamos negociando o lançamento lá fora, vendo o que é o melhor para a banda. O mais engraçado é que o nosso selo Surprise também está caminhando, apesar de não sermos os tradicionais homens de negócio do punk rock.  

– Como tem sido a repercussão na mídia do The Great Red Spot ? Como vocês se viram para conseguir divulgar o CD e obter algum retorno?  

Roger - Para nós, parece tudo mais difícil e mais demorado. Mas as críticas que saíram ate agora foram positivas e até nos surpreenderam. Eu sempre soube do potencial do CD, mas confesso que algumas críticas me deixaram bem mais animado.  

– Vocês têm feito shows? Como têm sido a receptividade do público?

Andre - Tocamos sempre que podemos. É a hora de passar nossa energia, e botar tudo de bom e ruim para fora. E também se divertir durante e depois de tudo isso. Consideramos todos que estão lá nos vendo como amigos da banda e amamos música tanto quanto eles, por isso nos damos muito bem.  

– Como vocês vêem esse mercado extremamente restrito para as bandas novas? Que saídas o Cyber-Jack busca para esse mercado sufocado?  

Andre - Acho que sempre foi ruim, mas agora esta ridículo. Só que enquanto o mercado for uma bosta, haverão bandas que ficarão com raiva e vão querer destruí-lo. Acho bom para a música e ruim para quem têm algo a perder, como os executivos profissionais da música. Estejam eles de terno nas gravadoras ou disfarçados com tatuagem nas próprias bandas.