| ERA UMA VEZ NA PÉRSIA
Persépolis relata em tom autobiográfico a reviravolta que a revolução no Irã causou na vida de uma menina
por
Andréia Moroni (
andreiamoroni@hotmail.com )

uem realmente gosta de quadrinhos sabe que o gênero não é exclusividade de super-heróis. Mas nem todo mundo pensa assim, pois muita gente não conhece essa variedade de publicações mais bem acabadas, com papel mais nobre e formato geralmente maior encontradas nas livrarias – os chamados comic books .
Na Europa – e principalmente na França, onde foi lançada em 2001 – há agora uma série de quatro desses livros de imenso sucesso mesmo entre os que não são aficionados pelo gênero. Com mais de 400 mil exemplares vendidos em países como Espanha e Estados Unidos, Persépolis agora desembarca no Brasil: seu primeiro volume acaba de ser lançado pela Companhia das Letras. A obra parece transcender o universo dos quadrinhos para transformar-se em fenômeno literário. Provavelmente porque a autora, a iraniana Marjane Satrapi, não inventou nenhuma heroína que habitasse um universo fantástico: apenas contou o que viveu quando estourou a revolução islâmica em seu país. Coisa que muita gente queria saber.
Teerã 1980
Era uma vez uma pequena menininha de dez anos que vivia em Teerã em 1980. Ela freqüentava uma escola francesa mista e laica, era filha única e seus pais, além de muito instruídos, eram tão progressistas e liberais quanto muitos casais do ocidente. Um belo dia estourou a revolução, comandada pelos fundamentalistas islâmicos. E nem todo mundo gostou. Fecharam as escolas bilíngües – símbolo do capitalismo e da decadência. A educação passou a ter bases religiosas. As meninas foram separadas dos meninos e obrigadas a levar um lenço cobrindo a cabeça.
Assim Marjane começa sua narrativa. Distante do estereótipo da família muçulmana – numerosa, patriarcal e conservadora – que reina no ocidente, os Satrapi são esquerdistas e combatem a revolução. Vão às manifestações contra o regime e compram muitos livros para educar a menininha – cujos grandes ídolos eram Marx e Deus. A menininha queria ser profeta. Mas acabou virando quadrinista e contando como acontecia a perseguição política aos contra-revolucionários (entre eles seu tio, Anouche): encarceramento, tortura, execuções. O mesmo que ocorreu em tantas outras ditaduras, inclusive no Brasil das décadas de 1960 e 1970.
Mas Persépolis não é uma fábula política. É um relato confessional no qual a narradora não toma partido, mas se limita a contar o que lhe passou. Todo esse contexto está inserido em seu cotidiano – este sim a matéria principal da obra: a paixão impossível da babá analfabeta pelo vizinho, para quem a menininha escrevia as cartas de amor; as dificuldades em se adaptar ao tal lenço na cabeça; os pais das coleguinhas de colégio que “iam viajar” e não voltavam; os amigos da família que voltavam da prisão e cruzaram a fronteira escondidos entre um rebanho de ovelhas; o relacionamento com o tio que acaba executado pelo regime. Esse é o volume um.
Uma garota como eu que amava os Rolling Stones
No volume dois, a menininha já está maiorzinha, tem doze anos quando começa a guerra Irã-Iraque. Há bombardeios em Teerã e as pessoas tem que se esconder nos porões cada vez que soam os alarmes. Há racionamento de comida e combustível. Famílias amigas da sua perdem tudo com as bombas. Na escola, os meninos ganham uma chave dourada de plástico com a qual podem aceder ao Paraíso se tiverem a sorte de lutar pela pátria e morrer em combate. São os mártires: “morrer como um mártir é injetar sangue nas veias da sociedade”, diz um slogan do regime.
Mas a vida segue para Marjane, que, apesar de ver uma vizinha da sua idade voar em pedaços por culpa de uma bomba, sai para paquerar com as amigas, fuma o primeiro cigarro, tem posters de Kim Wilde e dos Rolling Stones, se veste com tênis da moda e calças jeans e compra os últimos lançamentos musicais no mercado negro. Até o dia em que seus pais lhe dão uma notícia: será enviada a Viena para estudar. Isso sim iria revolucionar sua vida.
É no terceiro volume, que relata o auge da adolescência da garota, onde estão talvez os episódios mais melancólicos da trama. Sozinha na Áustria, com catorze anos, sem falar alemão e sem conhecer ninguém, aqui o tom irônico dos primeiros livros desaparece. A amiga da mãe, que a receberia, a coloca em um pensionato de freiras. Além do choque cultural que enfrenta, algo acontece com o leitor ao conhecer a visão da personagem sobre a cultura ocidental, seus valores, sua liberdade e libertinagem. Marjane faz e desfaz amizades, tem contato com as drogas, um primeiro namorado que se descobre gay e outro que lhe parte a alma em pedaços. Assim, estilhaçada, niilista e envergonhada por não ter se convertido em nada, quatro anos depois ela decide regressar a seu país.
Quem conta um conto aumenta um ponto
É já através do olhar de uma mulher que conhecemos os resultados dos anos de repressão do regime islâmico e da guerra prolongada na parte final da série. O reencontro com as “modernas” mulheres iranianas, com os companheiros de infância mutilados pelo combate e com si própria, após superar uma depressão, não foi fácil. Nem a preparação para os exames de ingresso na faculdade de belas-artes, onde os nus artísticos eram estudados com modelos vestidas da cabeça aos pés.
Também era difícil se divertir com o regime: havia as dificuldades de namorar em público – entenda-se: de ser vista acompanhada do homem que se converteria em seu marido, ainda que isso não implicasse em nenhum contato físico –, de organizar as festas com os colegas da universidade, de burlar os guardiões da revolução sempre a postos para patrulhar o comportamento indecente da população. Sair à rua maquiada podia se transformar em uma atividade de resistência com conseqüências bastante extremas.
É em meio a uma vida social bastante diferente da que conheceu na Europa, mas igualmente agitada, que Marjane gradua-se, casa-se, descasa-se e parte para a França em 1994 para estudar artes decorativas em Estrasburgo. Aqui acaba o gibi, mas ainda há uma parte da história que não está escrita: que com Persépolis a autora ganhou na Bélgica o “Prix du Lion” em 2000, os prêmios franceses Angoulême de autor revelação em 2001 e de melhor roteiro em 2002, o primeiro prêmio da paz Fernando Buesa Blanco em 2003, e o de melhor história em quadrinhos em 2004 na Feira do Livro de Frankfurt. E, certamente, a admiração de muitos fãs.
Como disse o filósofo André Comte-Sponville: “Tradicionalmente, enumeram-se seis tipos de arte, cujos nomes podem ter variado (hoje dizemos: a pintura, a escultura, a arquitetura, a música, a dança, a literatura), e às quais desde algum tempo se soma uma sétima arte, o cinema, ou uma oitava, os quadrinhos. O que têm todas as artes em comum? Fundamentalmente, sua subjetividade criativa por meio da qual os gênios podem alcançar o universal. Se trata de expressar ‘o insubstituível de nossas vidas'” ( Invitación a la Filosofía , ed. Paidós, Barcelona, 2002, p. 120). |