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20 de novembro a 5 de dezembro 2004

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A MAFALDA DA PÉRSIA
Marjande, de Persépolis, lembra a criação de Quino: toda revolução tem algo de infantil

por Érico Assis ( ericoassis@uol.com.br )

ergunta para uma entrevista com Marjane Satrapi, autora de Persépolis : e então, como você conheceu a Mafalda ?

Não se preocupe, não é acusação de plágio. É que para nós, brasileiros e latino-americanos, é impossível não traçar os paralelos entre Marji, a menina autobiográfica de Persépolis e a criação do argentino Quino. São duas meninas de terceiro mundo tentando entender essa coisa maluca e anti-humana que são as ditaduras e essas coisas malucas que são os governantes.

As semelhanças, porém, acabam aí. Enquanto as tiras de Mafalda sempre se encaminhavam para a piada ou a reflexão no terceiro quadrinho, as memórias de infância de Satrapi são marcadas por dúvida e medo. Ela tinha dez anos quando viu o Irã virar uma ditadura islâmica (1979), sem entender o que isso implicava.

No início, foi “apenas” a obrigatoriedade do véu preto na cabeça. Depois, a separação de meninos e meninas em colégios diferentes. Sua escola francesa foi proibida de ensinar o idioma estrangeiro, uma ameaça aos novos valores do país. A pequena Marjane já não entendia como podiam chamar isso de “revolução cultural”.

Vinda de uma família de pais intelectuais e engajados, com alguns laços com o antigo governo, Marji aos poucos vê a revolução ir entrando na sua vida pelas bordas. Começa na TV. Depois, na tensão que vê na cara de seus pais. Vêm os boatos, sobre o amigo do amigo de não sei quem que não volta para casa há dias. Os vizinhos começam a emigrar. Logo está na sua família: o medo do tio reacionário, os pais chorando... No final deste primeiro volume, Marji começa a sentir a revolução contra sua própria casa.

Apesar de tudo, ainda há espaço para rir. Quando crescer, Marji diz que quer ser profeta. Nas brincadeiras com outras crianças, todos são revolucionários como Fidel, Guevara e Trotski. Sua alegria infantil é poder dizer aos adultos que sabe o que é “materialismo dialético”. E suas conversas com Deus vão mudando de tom na medida em que ela lê a obra marxista – “eu me divertia vendo como Deus e Marx eram parecidos; o cabelo do Marx era um pouco mais crespo” – e o próprio mundo à sua volta a faz duvidar dos desígnios divinos.

Persépolis , então, em seu primeiro volume (de quatro), começa a delinear a vida de Marjane Satrapi com uma infância bem diferente. Em desenhos bastante simples, mas com uma narrativa de alguém que já tem experiência nos quadrinhos, a autora vai construindo o ambiente progressivamente aterrorizante da revolução islâmica – pelos olhos de uma criança.

Satrapi hoje já passou dos 30 e há muito tempo vive na França, onde começou a publicar suas memórias em 2002. Contar sua infância tentando evocar a mentalidade de 10 anos tem um sentido feroz. Quando seu país, seus governantes e até mesmo o povo iraniano estão ficando difíceis de entender, a imaginação de Marji consegue sintetizar tudo em explicações simples, cruelmente simples. No final, a verdade é que toda revolução tem algo de infantil.

Persépolis
Volume 1 (de 4)
Marjane Satrapi
Companhia das Letras
80 páginas
R$ 27,00
Tradução de Paulo Werneck
Prefácio de David B. (outro quadrinhista que merece ser publicado no Brasil)