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20 de novembro a 5 de dezembro 2004

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A MIAMI DA LEI DE MURPHY
Tudo pode (e vai) dar errado no microcosmo americano na comédia Grande Problema
por Marcel Nadale( marcel@rabisco.com.br )

onda de melindres justificáveis ou não provocada pelos atentados de 11 de setembro de 2001 fez diversas vítimas no rincão cinematográfico. Houve filmes editados, adiados e até mesmo engavetados. Alguns até foram lançados sem traumas, mas, taxados de insensíveis, foram desprezados pelo público e pela crítica – sofrendo um destino similar mesmo no Brasil, onde sua incorreção política agradaria mais. De insensível, um dos mais divertidos do grupo, Grande Problema ( Big Trouble , 2002), não tinha nada. Muito pelo contrário, como qualquer um hoje pode comprovar nas sessões do canal por assinatura Cinemax. Mas, em tempos de passageiros escrutinados por embarcarem com pinças na bolsa, o filme se encerrava com uma bomba atômica sendo ironicamente desprezada pela segurança de um aeroporto como um triturador de lixo, portanto...

Os meandros de como essa bomba chegava até lá eram não menos anárquicos, concebidos pelo talentoso escritor Dave Barry, que também adaptou o livro em roteiro. Jornalista do Miami Herald , Dave passou ao show-business com a sitcom autobiográfica Dave's World (de onde extraiu um dos atores do filme, Patrick Warburton). Grande Problema também tem muito de sua própria vida: Tim Allen interpreta seu alter-ego, um ex-jornalista convertido a outra mídia muito mais vulturina (a publicidade), que vive na ensolarada Miami. A inspiração na realidade, porém, parece ir além, numa leitura crítica da sociedade americana que praticamente antevia não o catastrófico ataque ao WTC, como rejeitaram os espectadores, mas a ridícula posição da nação antes, durante e depois.

O personagem de Allen, Elliot Arnold, conhece Anna Herk (Rene Russo), uma bela mulher casada com o ricaço Arthur Herk (Stanley Tucci). Em comum, possuem filhos que os desprezam (Ben Foster e a atual it girl Zooey Deschannel) e que envolveram-se numa terrível confusão graças a um jogo escolar no qual um precisa “matar” o outro com armas que disparam água. Em Grande Problema , pessoas comuns, absolutamente entediadas com sua existência, são confundidas com criminosos – enquanto, mantendo o fiel da balança apontado para a hipocrisia da sociedade, dois criminosos de verdade (Tom Sizemore e Johnny Knowville, da série Jackass ) passeiam por aí sem problemas com uma bomba nuclear.

Trata-se de uma saudável comédia de erros, então evidente que os “bandidos” não necessariamente são os vilões. Aí entra Arthur, o escroque que come a empregada, uma imigrante mexicana, e rouba dinheiro de sua empresa – motivo pelo qual dois assassinos profissionais vão a Miami matá-lo (e nada de pistolas d'água no termo). Mais uma vez, a inversão de papéis: os assassinos serão, na verdade, o alter-ego do público, chocados com um universo que progride rumo ao absurdo histérico em pouco menos de 90 minutos.

Para sustentar o filme, praticamente sem personagens principais (ao menos no sentido de monopólio cômico), o elenco foi bem escolhido. Estão ali, ainda, Janeanne Garofallo, Dennis Farina, Jason Lee e Omar Epps. Mas a excelência de Grande Problema é o roteiro de Barry e a direção de outro Barry, Sonnenfeld, que reafirmam a clássica estrutura da comédia de erro – um gênero que, no cinema americano, sumiu entre a comédia intelectualizada, high brow , que só agora deixa a órbita de Woody Allen, e a comédia escatológica, sexualizada, low brow , voltada para o adolescente abobado.

Como Shakespeare poderia comprovar, o motor deste tipo de história é o choque entre o que é sabido e o que se supõe que é sabido. “Pai, só um idiota confundiria essa pistola com uma arma de verdade!”, alega o filho de Arnold, na origem de toda a esculhambação que se segue. A sociedade americana, porém, vive o paradoxo de cada vez mais escrutinizar cada ínfimo detalhe, trazer tudo à tona, e, por outro lado, perder de vista o evidente. O filme reverbera politicamente porque a comédia de erros vitimiza principalmente aqueles em posição de autoridade, com tudo e todos abaixo de si, mas, por isso mesmo, incapazes de entender suas nuances. São os ricos como Arthur Herk que perderam a noção do que é ser pobre, ou os policiais como os personagens de Garofallo e Warburton, que mal sabem quem são os verdadeiros marginais.

E vai mais longe: são os próprios americanos, que, perdidos entre os jogos do Florida Gators e o sonho de um carro que reafirme sua masculinidade, mal atentam às questões primordiais da vida pública e social. Não por um acaso, foi na mesma Florida retratada com misto de carinho e desprezo por Dave Barry que a eleição de 2000 mergulhou na confusão que levou George W. Bush ao governo (e, em outra nota, Arnold define ironicamente o rival Arthur Herk como “um dos poucos cidadãos da Florida que não havia se confundido quando votou para Pat Buchanan”, o ultraconservador quase fascista que roubou por engano os votos de Al Gore).

Porém, quando o filme foi lançado, com um atraso de mais de seis meses em relação à data prevista, o “grande problema” já estava instaurado. A sociedade americana já vivia na sua própria comédia de erros, com direito ao seu próprio, histriônico, absurdo, inesperado e cinematográfico clímax, apenas por coincidência também envolvendo terroristas e aviões. Não haveria gosto pelo filme. E, tanto do lado de cá quanto do lado de lá das telas, a reação política foi (metaforicamente) a mesma. Sugestivamente, Arnold jamais desarma a bomba: apenas deixa-a explodir bem longe dos EUA. Um agente do FBI elogia sua bravura e acrescenta: “O Presidente está imensamente grato. Irá lhe recompensar com um par de botas de caubói com um fivela dourada em formato de W”. O mundo ganhou uma igual.