| AFIANDO OS CANINOS
A sangrenta trajetória das dinastias vampirescas já dura 80 anos no cinema
por
Luiz Andreghetto ( luiz_andreghetto@hotmail.com )

mbora a definição para vampiro possa variar muito de acordo com a mitologia de cada país, podendo assumir diferentes formas e significados, a mais comum o descreve como um morto-vivo que suga o sangue de outras pessoas para alimentar-se e continuar com aparência de “vivo”. Diferenças à parte, o que nos importa é esta característica que todos compartilham: são criaturas que nos causam sentimentos conflitantes, de pavor e pena, mas, ao mesmo tempo, que também nos fascinam, por nos oferecer a chance de viver eternamente.
Em 1922, F. W. Murnau faz o primeiro filme realmente importante sobre vampiros: Nosferatu , um clássico do expressionismo alemão, que nos mostra uma criatura grotesca, impossibilitada de concretizar o amor que sente. Cinco anos depois, o personagem ganhava a companhia de detetives da Scotland Yard, em London After Midnight , com Lon Chaney. Os EUA, no mesmo ano, mantinham-se fiel ao original, lançando a peça Drácula , estrelada por Bela Lugosi, o mesmo ator húngaro que posteriormente faria a versão cinematográfica.
É a partir da década de 30, especialmente a partir desta versão de Drácula de 1931 dirigida por Tod Browning e estrleada por Lugosi, que a figura do vampiro passa de um assassino hediondo para um sedutor irresistível. O ator compôs um vampiro com contornos de fragilidade que, ao mesmo tempo em que é repelido, também é desejado. Dessa forma, Drácula torna-se um mito “romântico” e sensual, com tamanha força que, ainda hoje, continua sendo visto dessa maneira. Em 1932, Carl Theodor Dreyer, lança o aclamado Vampyr . Ainda nos anos 30, temos The Mark of the Vampire (1935), novamente com Lugosi e Dracula's Daughter (1936).
Sem nenhuma produção expressiva nos anos 40, Drácula aproveita para descansar em paz e prepara-se para o que virá a seguir. A produtora inglesa Hammer ressuscita a saga sanguinária do “príncipe das trevas” com The Horror of Dracula, ou simplesmente Drácula (1958), que, com o início dos filmes coloridos, dá uma nova sobrevida ao mito. O filme coloca como Conde Dracula o ator Christopher Lee, que erotiza o personagem com toda uma aura de elegância aristocrática inglesa e passa a ser constantemente imitado. Seguindo Lugosi, Lee torna-se o conde Drácula definitivo.
Com a liberação sexual dos anos 60/70, o cinema é invadido pelas “vampiras lésbicas”. Tamanha liberação acaba levando os vampiros, agora figuras muito sexualizadas, às raias do pornô. O que começa com sutileza – Rosas de Sangue (1960) de Roger Vadim – chega até as últimas conseqüências do erótico – Le Viol du Vampire (1967), Lábios de Sangue (1971), The Vampire Lovers (1970), Luxúria de Vampiros (1970), Countess Dracula (1971), Twins of Evil (1971) – culminando com a pornografia explícita – Dracula Exotica (1972) e Dracula Sucks (1972).
Mas nem tudo está perdido na Transilvânia. Roman Polanski subverte o gênero com a comédia de humor negro A Dança dos Vampiros (1967). E o americano Paul Morrissey faz uma paródia de Drácula em Andy Warhol presents Dracula (1974), com Udo Kier, o conde Drácula mais andrógino que o cinema já teve. Em 1973, é a vez de Jack Palance, da série Acredite se Quiser , vestir a capa do vampiro no filme Drácula , dirigido pelo inglês Dan Curtis.
Werner Herzog, cineasta alemão, refilma Nosferatu (1979), contando no elenco com a bela Isabelle Adjani e com o “insano” Klaus Kinski, que volta ao mesmo papel no filme Drácula em Veneza (1987). Com o retorno da adaptação teatral de Drácula aos palcos londrinos, a mesma estrelada anteriormente por Bela Lugosi, mas desta vez com a presença de Sir Laurence Olivier como Van Helsing e de Frank Langella como Drácula, justifica-se uma “nova” refilmagem em 1979, dessa vez a cargo de John Badham. Ainda no finalzinho da década de 70, George Hamilton aposta no humor e faz um conde gay em Amor à Primeira Mordida (1979), dando início às sátiras aos sugadores de sangue.
Nos anos 80, os vampiros voltam, com força total, sedentos por sangue e por fama, tornando-se ícones da cultura pop. Fome de Viver (1983), dirigido por Tony Scott, torna-se um cult ao colocar em cena David Bowie e Catherine Deneuve como um casal de vampiros modernos, sensuais e elegantes. Em 1985, A Hora do Espanto insere os vampiros em um universo pop-adolescente, fazendo enorme sucesso e gerando uma continuação em 1989, muito inferior ao original. Também nessa onda, uma gangue de motoqueiros liderada por Kiefer Sutherland inferniza a vida de dois irmãos, recém chegados à cidade, em Garotos Perdidos (1987). Dois astros atuais também suam os caninos em produções menores: Jim Carrey é seduzido e mordido por Lauren Hutton em Once a Bitten (1985) e Nicolas Cage assume o lado sanguessuga no chatíssimo Um Estranho Vampiro (1989). Até o Brasil foi invadido pelos dentuços no terrir As Sete Vampiras (1986), de Ivan Cardoso.
Entre várias produções menores – Meu Melhor Amigo É um Vampiro (1986), Vamp – A Noite dos Mortos-Vivos (1986), Quando Chega a Escuridão (1988) e A Maldição da Serpente (1988) – os vampiros seguem cautelosamente até os anos 90, que viria a trazer dois filmes que honram, com muito sangue, o destino dos nossos seres imortais: Drácula de Bram Stoker e Entrevista com o Vampiro.
Francis Ford Coppola realiza uma adaptação extremamente com Drácula de Bram Stoker (1992), filme operístico, com diversos tons de vermelho que pulsam na tela, amparado por um grande elenco (Winona Ryder, Anthony Hopkins, Keanu Reeves), entregando os caninos do príncipe das trevas ao inglês Gary Oldman, em uma interpretação afetada e dândi. Anne Rice, escritora responsável pelo “reviver” do interesse pelos vampiros, ganha uma adaptação de sua obra mais conhecida: Entrevista com o Vampiro (1994). Dirigido pelo irlandês Neil Jordan, Entrevista com o Vampiro tornou-se notícia na imprensa antes mesmo do início das filmagens, pois Anne Rice desaprovou publicamente a escolha de Tom Cruise para o papel do cínico e amoral Lestat de Lioncourt. Jordan insistiu em Tom e entregou um filme impecável, completamente fiel ao livro, surpreendendo até mesmo a autora, que se desculpou, também publicamente, dizendo que a partir de então não conseguia imaginar outro ator como Lestat.
Alguns outros filmes aproveitam o filão vampirístico iniciado com o Drácula de Coppola e lançam versões que vão desde a comédia até a ficção-científica: Inocente Mordida (1992); Buffy – a Caça-Vampiros (1992), que deu origem à série Buffy (1997), que, por sua vez, gerou um filhote, a série Angel (1999); Vampiro – Paixão Imortal (1992); Dormindo com o Vampiro (1993); Drácula: Morto mas Feliz (1995), paródia de Mel Brooks, com o aloprado Leslie Nielsen no personagem-título; Um Vampiro no Brooklyn (1995), com um Eddie Murphy de caninos e em baixa na carreira; Um Drink no Inferno (1996) e sua continuação, de 1999; Vampiros de John Carpenter (1998); e Blade – O Caçador de Vampiros (1998), grande sucesso adaptado dos quadrinhos, com um herói meio-humano, meio-vampiro, que gerou mais duas continuações.
Mesmo assim o novo século não tem trazido boas notícias da Transilvânia. Apesar de algumas pequenas tentativas de transformar os vampiros em personagens de filmes significativos – A Sombra do Vampiro (2000), Blade II (2002), Anjos da Noite (2003) e Van Helsing – O Caçador de Monstros (2004) – esses seres, que amamos odiar, estão cada vez mais tornando-se subprodutos em filmes de baixo orçamento, como O Pequeno Vampiro (2000), Drácula 2000 (2000), Um Drink no Inferno 3 (2000), Príncipe das Trevas (2000), Cidade dos Vampiros (2001), Vampiros do Deserto (2001), A Rainha dos Condenados (2002), Vampiros: Os Mortos , de John Carpenter (2002), Drácula II – A Ascensão (2003) e Irmandade de Sangue (2003).
Será que alguém se habilita a ressuscitar esses seres do marasmo cinematográfico em que eles se encontram? |