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5 a 19 de dezembro 2004

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BRANCALEONE REVISITADO
Clássico de Mario Monicelli é uma sátira à histórias de cavalaria e ao autoritarismo político
por Marcelo Xavier ( marcelo@rabisco.com.br )

ra uma vez a história de quatro amigos que, de posse de um título de nobreza roubado de um cavaleiro pobretão, investem um tolo como o líder que irá guiá-los para a conquista de um feudo de nome Autocastro. O vagabundo se chama Brancaleone, que é o personagem interpretado por Vittório Gasmann, o protagonista de O Incrível Exército de Brancaleone (L'Armatta Brancaleone), de Mario Monicelli. Rodado no auge da comédia italiana, em 1966, o clássico de Monicelli se tornou objeto de análise na dissertação de mestrado de João André Brito Garboggini, professor de estética e publicidade que ministra disciplinas audiovisuais na PUC-Campinas. Segundo ele, a proposta foi realizar uma análise da estrutura da narrativa, a partir do longa-metragem. Em seu estudo, Garboggini se debruçou sobre a natureza da comédia italiana durante a década de 60 e as características da reconstituição histórica que o filme realiza.

“Branca, Branca, Branca, Leon, Leon, Leon!”. Esse é o grito de guerra do séquito mambembe de Brancaleone, cujo objetivo é vencer justas e conquistar feudos, em plena Baixa Idade Média e seus desdobramentos: Cruzadas, Guerra dos Cem Anos, Fome e Peste Negra (a história se passa, provavelmente, em meados do século XIV). A despeito da nobreza dos grandes guerreiros do medievo, este cavaleiro pobretão é o retrato do anti-herói, à moda de Dom Quixote. Os demais compreendem uma camorra de maltrapilhos e azarados, entre eles um velho judeu (Carlo Pisacane) que vive numa arca. Párias da sociedade, parece que nada para eles dá certo. O título de nobreza, por sua vez, dá aos heróis um novo rumo. Precisam agora apenas um valente de estirpe para os guiar. A desdita, contudo, não muda um palmo a fortuna deles.

No limite

Quando finalmente conquistam um feudo, descobrem, com horror, que ele está tomado pela Peste (que chegou à Europa por Gênova). A cena em que Brancaleone é finalmente seduzido pela única habitante do lugar é a mais patética de toda a história do cinema. Ele está perdido de amores por uma dama (Maria Grazia Buccella) achada num recôndito da cidadela. No meio do romance, no colo de nosso herói, ele pergunta se ambos não poderiam usar determinada cama. Ela diz que não teria problema, exceto pelo fato de que o seu marido havia morrido ali. “E ele morreu de quê?”, pergunta o “Branca”. “Morreu da peste!”, revela a “inconsolável” viúva. Súbito, ele a solta no ar, e sai correndo como um coelhinho de desenho animado, gritando aos outros, que pilhavam o feudo: “A peste! A peste!”.

O resto da história é uma cadeia de situações-limite que se encerram sempre em algum anti-clímax. Numa justa com outro cavaleiro, quando parece que um deles vai perecer na briga, no fim, ambos são derrotados pela exaustão, e desistem do duelo para descansar. Já na fuga da peste, eles resolvem se penitenciar seguindo o caminho de um bando de peregrinos cômicos de dar pena. Aliás, Brancaleone encontra a sua Dulcinéia. No entanto, ela foi confiada à ele no sentido de que o cavaleiro desse proteção à donzela, guardasse a sua castidade e a conduzisse até as bodas dela, num reino não muito longe dali. A situação se inverte e a fogosa rapariga faz tudo para seduzir o embaraçado Branca, que cede ao ímpeto da “donzela” em nome de seus ideais de “cavaleiro”. No meio das bodas, eis que o noivo descobre que alguém havia desgraçado a moça: a culpa, é claro, recaiu sobre Brancaleone, que é enfiado numa jaula — para ser salvo pelo seu “incrível exército”...

O Roteiro

Na sua autobiografia, L´Arte della Commedia , Monicelli revelou que o roteiro nasceu de uma sinopse sobre camponeses medievais e suas desventuras, mas o projeto foi abandonado quinze anos antes do filme, em 1950. Na tese de João André Brito Garboggini, o célebre autor conheceu a chamada “comédia italiana” nos anos 30, quando a crítica era refratária a este gênero. Porém, o seu Armatta Brancaleone nasceu quando a comédia chegou ao zênite na Itália e num contexto em que esse tipo de cinema não era tido meramente como arte “evasiva”. Na verdade, o que Monicelli se propõe no filme é a crítica pela sátira e a mais pura contestação política. Mais do que isso, segundo Garboggini, ao pesquisar sobre a vida do velho cineasta, o roteiro contém muitos elementos da vida de seu criador. Mario explicou ao professor que a tal história quixotesca da armada de Brancaleone é, na verdade, uma crítica aos líderes políticos que investem tanto numa causa que eles julgam como correta e vêem os seus sonhos se transformarem em nada, de verem as suas investidas recaírem num cúmulo de “furadas”, como nos cômicos scketches da película.

Sintomático é perceber que os eventos do filme que formam um feixe de situações do “quase” (quase cômico, quase trágico) demonstram o quanto a idealização do grupo em busca de glória é uma divertida quimera. O heróico é patético, o nobre é travestido de patético. Assim, Monicelli criou a armada de Brancaleone no real inverso aos romances de gesta, onde o cavaleiro era valente, vencia todos os desafios e conquistava territórios e a mão de sua amada.. Já Brancaleone, na ótica de Monicelli, segundo Garboggini, é o algoz da anti-epopéia, na verdade, um bufão, indeciso e maltrapilho. No reino da sátira, ele seria o retrato sem retoques dos líderes revolucionários e atrapalhados, cujo exército não consegue ir até à esquina por seus objetivos. “Ele expressa sua própria desilusão com a esquerda, na época em que militava no Partido Socialista Italiano”, explica Garboggini.

Convenções

Mais do que isso, o diretor revelou que pretendia criticar de maneira Benito Mussolini e qualquer coisa que se parecesse com a trajetória do “Duce”. Ou seja, a finalidade do roteiro não era abertamente revelar uma imagem histórica da Idade Média ou fazer um recorte sincrônico da História, mas sim utilizar-se do mote e da metáfora do “incrível exército” para se referir a momentos políticos de exceção, como a falta de líderes políticos, a mistificação ideológica (como na parte em que os peregrinos resolvem batizar o judeu do grupo, Habacuc, o velho da arca, achando que ele era a mãe de todos os males). Um exemplo desse elemento desmistificador de que existe sentido em seguir alguma coisa ocorre quando o líder dos peregrinos morre, e todo o grupo se desfaz, sem saber o que pensar. Percebe-se aí também traços do anticlericalismo de Monicelli (na verdade, um outro lado da perversão do poder, como no Fascismo de Mussolini), já que o elemento sagrado do catolicismo está calcado apenas na convenção e nos costumes, e a dispersão do grupo após a morte do líder religioso revela o vazio de seu comando, apenas investido pela ordem divina.

Monicelli e sua trupe de roteiristas, por sua vez, sequer imaginaram que, ao filmarem uma espécie de “anti- Ivanhoé ”, eles estariam criando uma escola que iria contra a idealização do herói cordial que todos os filmes épicos kitsch típicos de Hollywood adoravam pintar. Em O Incrível Exército de Brancaleone , tudo e feio e obscuro, ninguém vê perspectiva nenhuma exceto a morte, pobres, andrajos, ignorantes e miséria (a própria incrível “armatta” mais parece com os Retirantes , do Portinari). Porém, decorre que o que sai desse pastiche, o que se vê é um lirismo peculiar, só encontrável em outros filmes do diretor. Foi essa escola que ele criou: os próprios filmes épicos teriam outro vigor e a própria comédia seria diferente.

Aliás, sem Brancaleone , certamente que o realismo carnavalizado do Cálice Sagrado do Monty Pyton não existiria — nem outras excrescências em versão brasileira, como Carlota Joaquina . Todo filme que vai do riso simples do pastelão à crítica cáustica histórico-político-antropológica paga tributo a Monicelli e ao seu clássico maior.