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5 a 19 de dezembro a 2004

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PLAY IT AGAIN REAGAN...
Algumas das mais inspiradas combinações de ator e personagem do cinema aconteceram por acaso
por Fernando de Castro Américo ( feramerico@yahoo.com.br )

"Sim, eu tenho rugas e hálito de cigarro, mas podia ser pior... Imagine que você tivesse que beijar Reagan!".

dublê de ator e canastrão-mor Ronald Reagan foi o presidente dos Estados Unidos por 8 anos, trazendo para o mundo uma onda de moralismo que reverbera até hoje. Mas podia ter sido pior: já pensou se Reagan, além de ocupar a Casa Branca, tivesse também entrado de sola no clássico Casablanca ?

Pois foi o que quase aconteceu. Se dependesse de Jack Warner, o chefão do estúdio, o personagem Rick Blaine, que parece feito sob medida para o cinismo amargurado de Humphrey Bogart, teria sido de Reagan. Felizmente, o produtor Hal Wallis bateu o pé e exigiu Bogart. Mas Jack Warner ainda não se deu por vencido: ele sugeriu outro canastrão do estúdio, George Raft, para o papel. Raft recusou, para a felicidade dos fãs de Bogart e dos amantes de cinema em geral.

Aliás, abençoado George Raft… Sem ele, a carreira de Bogart não seria a mesma. Raft recusou os papéis principais de Seu Último Refúgio e Relíquia Macabra , assegurando assim a fama eterna de Bogart. Se tivesse aceitado os papéis, Raft provavelmente teria afundado os filmes, como fez com sua carreira.

A escolha de Reagan parece incrivelmente errada hoje, mas na época até que fazia sentido. Por incrível que pareça, o ex-presidente era um dos maiores astros do período. É sempre assim… Um filme é oferecido a um grande astro, que por um motivo ou outro tem que recusar, um novato entra em cena, e voilá ! Nasce uma estrela.

 "Dorothy, você está sem fôlego... é por causa da beleza de Oz?"
""Não, é o maldito sutiã!"

Foi o que aconteceu em 1939, quando a Metro Goldwyn Mayer não conseguiu que a Fox liberasse a maior estrela mirim dos anos 30, Shirley Temple, para o papel de Dorothy em O Mágico de Oz . A “bola da vez” Judy Garland não era exatamente uma novata: já tinha feito vários musicais na Metro com o baixinho Mickey Rooney. Mas o chefão Louis B. Mayer não achava que ela serviria para a personagem. Judy, na época das filmagens com 16 anos, já não era nenhuma criança. A solução foi usar um sutiã “especial” (leia-se: apertado para além dos limites) para esconder as formas da atriz. Mas o resultado não poderia ser melhor. Se hoje, 65 anos depois, O Mágico de Oz ainda enfeitiça o público, é em grande parte devido à atuação de Judy, de sua aura de inocência em contraste com sua voz inesquecível. É impossível pensar em outra atriz cantando “Over the Rainbow”.

"Humm... eu também adoro Gene Hackman... com batatas soté deve ficar uma delícia, nham, nham..."

Assim como hoje em dia parece impossível imaginar outra dupla que não Jodie Foster e Anthony Hopkins em O Silêncio dos Inocentes . Mas em 1990 esta combinação não era tão óbvia. Gene Hackman era a primeira escolha para o papel de Hannibal Lecter, e o diretor Jonathan Demme queria Michelle Pfeiffer para viver Clarice (os dois já haviam trabalhado juntos no delicioso De Caso com a Máfia ). Hackman e Pfeiffer recusaram os papéis, e Anthony Hopkins abocanhou o papel que seria seu passaporte para a glória em Hollywood. Já Jodie Foster teve que esperar que Meg Ryan (?!?) dissesse “não” para assumir o personagem que lhe daria seu segundo Oscar.

 

"Usar chicote, correr de uma pedra gigante, enfrentar animais selvagens... tudo isso é mole... Queria ver Harrison Ford usar uma camisa ridícula como essa!"
 "Não deixem as fãs do Magnum entrar no estúdio!"

Em vários casos de trocas de elenco, a TV teve um papel fundamental para impedir que um determinado ator assumisse um grande papel no cinema. Tom Selleck vivia o auge de sua fama como o detetive Magnum quando um diretor o procurou para fazer um personagem num filme de aventuras. Era impossível conciliar a série de tv com as filmagens, e o ator disse não. O diretor era Steven Spielberg, e o filme seria Os Caçadores da Arca Perdida . Spielberg e seu produtor George Lucas não tiveram outra alternativa senão contratar novamente o ex-marceneiro que já tinha alcançado a fama como o Han Solo de Guerra nas Estrelas . Lucas achava que Harrison Ford nunca se livraria do personagem da sua trilogia, mas um chicote, um chapéu de cowboy e algum talento, às vezes, fazem muita diferença.

Bendita TV… Ela salvou também um dos filmes mais marcantes do início dos anos 80. Em 1979, a Columbia procurava uma atriz para fazer a mulher de Dustin Hoffman em Kramer X Kramer. Era a época do auge do seriado As Panteras , e o papel quase foi para Kate Jackson (a morena de cabelo liso). Felizmente, a atriz não foi liberada pelos produtores do seriado e Meryl Streep pôde ganhar seu primeiro Oscar.

Às vezes, a troca de atores pode até mesmo mudar todo um filme. Um Tira da Pesada foi pensado como uma história de vingança pessoal feita sob medida para Sylvester Stallone. Mas o ator recusou, o papel foi para um comediante cuja carreira estava começando a decolar – um tal de Eddie Murphy – e os roteiristas tiveram que quebrar a cabeça para reformatar a história. O resultado foi a criação de um novo gênero: a comédia de ação, uma fórmula que até hoje rende frutos para os estúdios.

"Acham que Olivier faria melhor? Claro, ele não precisa do algodão na boca, ele já fala daquele jeito..."

Em todos estes casos, um ator desconhecido se deu bem com a recusa de um astro estabelecido. Mas pelo menos em um caso, o sucesso não foi suficiente para garantir a escalação de um astro. O monstro sagrado Marlon Brando, apesar de interessado no papel de Vito Corleone em O Poderoso Chefão , não era a primeira escolha dos chefões da Paramount. Eles queriam o inglês Laurence Olivier. Mas o esperto Coppola foi mais safo: ele filmou um teste com Brando já maquiado (inclusive com o famoso algodão na boca), e mostrou aos produtores. A reação foi unânime: todos concordaram que era preciso contratar logo aquele “extraordinário ator”. Quando Brando apareceu para assinar o contrato, eles ficaram de boca aberta, mas tiveram que dar a mão à palmatória e reconhecer seu erro.

Mas a resistência a Marlon Brando não foi a única “pisada de bola” da Paramount em relação a O Poderoso Chefão . Para o papel de Michael Corleone, Coppola desde o início queria Al Pacino, ao contrário de seus superiores, que insistiam em Warren Beaty, Ryan O'Neal, e Robert Redford. Qualquer um, menos aquele ator franzino, que parecia ter uma só expressão durante o filme inteiro. Os produtores continuaram pensando assim durante as filmagens, até que puderam ver as cenas da execução no restaurante, em que Pacino mostrava que também podia ser cruel e mau como eles queriam. Os produtores calaram a boca, e o resto é história.

Foi assim também com Dustin Hoffman e seu grande papel de estréia, em A Primeira Noite de um Homem . O diretor Mike Nichols queria porque queria Robert Redford no papel, achando que ele representava um “típico adolescente americano”, com sua cabeleira loura e seu jeito wasp (sigla para “white, anglo-saxon, protestant – branco, anglo-saxão, protestante). Aliás, os produtores da comédia deviam achar que o fato de ser louro devia ser o suficiente para significar “americano”: para o papel de Mrs. Robinson, eles queriam ninguém menos que Doris Day (!!!). Mas alguns testes de câmera revelaram o óbvio: Dustin Hoffman era franzino e bom ator o suficiente para representar um garoto virgem aos 18 anos, e Anne Bancroft… bem, até mesmo um cego veria que ela era perfeita para viver a safadíssima Mrs Robinson, tesão de toda uma geração.

Outro ícone do cinema que poderia ter tido outra cara é o cyborg assassino de O Exterminador do Futuro . Alguns nomes sondados à época foram os de Lou Ferrigno, o Hulk da TV, e até mesmo o de O.J. Simpson, que já tinha alguma fama graças aos filmes da série Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu . Mas o escolhido foi mesmo Arnold Schwarzenneger, felizmente… Ou infelizmente? Vendo a futura carreira do ex-Mister Universo, e seu papel atual de “Gobernator”, talvez seria melhor que James Cameron tivesse se mantido fiel à sua idéia original. Em seus primeiros tratamentos de roteiro, o Exterminador teria uma aparência quase comum, de alguém que conseguisse facilmente “desaparecer” numa multidão. Cameron já tinha até o ator perfeito para o papel: Lance Henriksen, o andróide de Aliens, o Resgate , que acabou ficando com o papel de um dos policiais de Exterminador.

"I'm the king of the world!!!"

Como teria sido O Exterminador do Futuro sem o mastodôntico Arnold? Será que Meg Ryan teria conseguido se livrar da pecha de Rainha do Algodão Doce ao se meter num conto de fadas psicopata como O Silêncio dos Inocentes ? Laurence Olivier também teria enchido a boca de algodão para viver Dom Corleone? São perguntas que nunca vão ser respondidas. Para o bem e para o mal, a maioria das escolhas finais é sempre definitiva, e o cinema raramente permite uma segunda chance. A não ser que o seu nome seja Brosnan, Pierce Brosnan. O ator queria encarnar James Bond já em 1987, mas ele fazia a série de tv Remington Steele e os produtores não liberaram seu “passe”. Sobrou para Thimothy Dalton a honra de vestir o smoking do agente secreto, em 007 Marcado para a Morte . Mas o ator não gostou de ficar marcado como o personagem (e o público também não gostou do ator, diga-se de passagem) e depois de Licença para Matar , largou o papel para ficar relegado ao limbo dos filmes para TV. Pierce Brosnam, que já tinha se livrado deste mesmo limbo, era agora um ator livre para encarnar o personagem e se tornar o segundo melhor 007 da História – depois de Sean Connery, que, como todos os fãs concordam, é mesmo insubstituível. Prova de que nem todas as mudanças são para melhor…