| PLAY IT AGAIN REAGAN...
Algumas das mais inspiradas combinações de ator e personagem do cinema aconteceram por acaso
por
Fernando de Castro Américo (
feramerico@yahoo.com.br )
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| "Sim, eu tenho rugas e hálito de cigarro, mas podia ser pior... Imagine que você tivesse que beijar Reagan!". |
dublê de ator e canastrão-mor Ronald Reagan foi o presidente dos Estados Unidos por 8 anos, trazendo para o mundo uma onda de moralismo que reverbera até hoje. Mas podia ter sido pior: já pensou se Reagan, além de ocupar a Casa Branca, tivesse também entrado de sola no clássico Casablanca ?
Pois foi o que quase aconteceu. Se dependesse de Jack Warner, o chefão do estúdio, o personagem Rick Blaine, que parece feito sob medida para o cinismo amargurado de Humphrey Bogart, teria sido de Reagan. Felizmente, o produtor Hal Wallis bateu o pé e exigiu Bogart. Mas Jack Warner ainda não se deu por vencido: ele sugeriu outro canastrão do estúdio, George Raft, para o papel. Raft recusou, para a felicidade dos fãs de Bogart e dos amantes de cinema em geral.
Aliás, abençoado George Raft… Sem ele, a carreira de Bogart não seria a mesma. Raft recusou os papéis principais de Seu Último Refúgio e Relíquia Macabra , assegurando assim a fama eterna de Bogart. Se tivesse aceitado os papéis, Raft provavelmente teria afundado os filmes, como fez com sua carreira.
A escolha de Reagan parece incrivelmente errada hoje, mas na época até que fazia sentido. Por incrível que pareça, o ex-presidente era um dos maiores astros do período. É sempre assim… Um filme é oferecido a um grande astro, que por um motivo ou outro tem que recusar, um novato entra em cena, e voilá ! Nasce uma estrela.
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"Dorothy, você está sem fôlego... é por causa da beleza de Oz?"
""Não, é o maldito sutiã!" |
Foi o que aconteceu em 1939, quando a Metro Goldwyn Mayer não conseguiu que a Fox liberasse a maior estrela mirim dos anos 30, Shirley Temple, para o papel de Dorothy em O Mágico de Oz . A “bola da vez” Judy Garland não era exatamente uma novata: já tinha feito vários musicais na Metro com o baixinho Mickey Rooney. Mas o chefão Louis B. Mayer não achava que ela serviria para a personagem. Judy, na época das filmagens com 16 anos, já não era nenhuma criança. A solução foi usar um sutiã “especial” (leia-se: apertado para além dos limites) para esconder as formas da atriz. Mas o resultado não poderia ser melhor. Se hoje, 65 anos depois, O Mágico de Oz ainda enfeitiça o público, é em grande parte devido à atuação de Judy, de sua aura de inocência em contraste com sua voz inesquecível. É impossível pensar em outra atriz cantando “Over the Rainbow”.
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| "Humm... eu também adoro Gene Hackman... com batatas soté deve ficar uma delícia, nham, nham..." |
Assim como hoje em dia parece impossível imaginar outra dupla que não Jodie Foster e Anthony Hopkins em O Silêncio dos Inocentes . Mas em 1990 esta combinação não era tão óbvia. Gene Hackman era a primeira escolha para o papel de Hannibal Lecter, e o diretor Jonathan Demme queria Michelle Pfeiffer para viver Clarice (os dois já haviam trabalhado juntos no delicioso De Caso com a Máfia ). Hackman e Pfeiffer recusaram os papéis, e Anthony Hopkins abocanhou o papel que seria seu passaporte para a glória em Hollywood. Já Jodie Foster teve que esperar que Meg Ryan (?!?) dissesse “não” para assumir o personagem que lhe daria seu segundo Oscar.
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| "Usar chicote, correr de uma pedra gigante, enfrentar animais selvagens... tudo isso é mole... Queria ver Harrison Ford usar uma camisa ridícula como essa!" |
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| "Não deixem as fãs do Magnum entrar no estúdio!" |
Em vários casos de trocas de elenco, a TV teve um papel fundamental para impedir que um determinado ator assumisse um grande papel no cinema. Tom Selleck vivia o auge de sua fama como o detetive Magnum quando um diretor o procurou para fazer um personagem num filme de aventuras. Era impossível conciliar a série de tv com as filmagens, e o ator disse não. O diretor era Steven Spielberg, e o filme seria Os Caçadores da Arca Perdida . Spielberg e seu produtor George Lucas não tiveram outra alternativa senão contratar novamente o ex-marceneiro que já tinha alcançado a fama como o Han Solo de Guerra nas Estrelas . Lucas achava que Harrison Ford nunca se livraria do personagem da sua trilogia, mas um chicote, um chapéu de cowboy e algum talento, às vezes, fazem muita diferença.
Bendita TV… Ela salvou também um dos filmes mais marcantes do início dos anos 80. Em 1979, a Columbia procurava uma atriz para fazer a mulher de Dustin Hoffman em Kramer X Kramer. Era a época do auge do seriado As Panteras , e o papel quase foi para Kate Jackson (a morena de cabelo liso). Felizmente, a atriz não foi liberada pelos produtores do seriado e Meryl Streep pôde ganhar seu primeiro Oscar.
Às vezes, a troca de atores pode até mesmo mudar todo um filme. Um Tira da Pesada foi pensado como uma história de vingança pessoal feita sob medida para Sylvester Stallone. Mas o ator recusou, o papel foi para um comediante cuja carreira estava começando a decolar – um tal de Eddie Murphy – e os roteiristas tiveram que quebrar a cabeça para reformatar a história. O resultado foi a criação de um novo gênero: a comédia de ação, uma fórmula que até hoje rende frutos para os estúdios.
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| "Acham que Olivier faria melhor? Claro, ele não precisa do algodão na boca, ele já fala daquele jeito..." |
Em todos estes casos, um ator desconhecido se deu bem com a recusa de um astro estabelecido. Mas pelo menos em um caso, o sucesso não foi suficiente para garantir a escalação de um astro. O monstro sagrado Marlon Brando, apesar de interessado no papel de Vito Corleone em O Poderoso Chefão , não era a primeira escolha dos chefões da Paramount. Eles queriam o inglês Laurence Olivier. Mas o esperto Coppola foi mais safo: ele filmou um teste com Brando já maquiado (inclusive com o famoso algodão na boca), e mostrou aos produtores. A reação foi unânime: todos concordaram que era preciso contratar logo aquele “extraordinário ator”. Quando Brando apareceu para assinar o contrato, eles ficaram de boca aberta, mas tiveram que dar a mão à palmatória e reconhecer seu erro.
Mas a resistência a Marlon Brando não foi a única “pisada de bola” da Paramount em relação a O Poderoso Chefão . Para o papel de Michael Corleone, Coppola desde o início queria Al Pacino, ao contrário de seus superiores, que insistiam em Warren Beaty, Ryan O'Neal, e Robert Redford. Qualquer um, menos aquele ator franzino, que parecia ter uma só expressão durante o filme inteiro. Os produtores continuaram pensando assim durante as filmagens, até que puderam ver as cenas da execução no restaurante, em que Pacino mostrava que também podia ser cruel e mau como eles queriam. Os produtores calaram a boca, e o resto é história.
Foi assim também com Dustin Hoffman e seu grande papel de estréia, em A Primeira Noite de um Homem . O diretor Mike Nichols queria porque queria Robert Redford no papel, achando que ele representava um “típico adolescente americano”, com sua cabeleira loura e seu jeito wasp (sigla para “white, anglo-saxon, protestant – branco, anglo-saxão, protestante). Aliás, os produtores da comédia deviam achar que o fato de ser louro devia ser o suficiente para significar “americano”: para o papel de Mrs. Robinson, eles queriam ninguém menos que Doris Day (!!!). Mas alguns testes de câmera revelaram o óbvio: Dustin Hoffman era franzino e bom ator o suficiente para representar um garoto virgem aos 18 anos, e Anne Bancroft… bem, até mesmo um cego veria que ela era perfeita para viver a safadíssima Mrs Robinson, tesão de toda uma geração.
Outro ícone do cinema que poderia ter tido outra cara é o cyborg assassino de O Exterminador do Futuro . Alguns nomes sondados à época foram os de Lou Ferrigno, o Hulk da TV, e até mesmo o de O.J. Simpson, que já tinha alguma fama graças aos filmes da série Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu . Mas o escolhido foi mesmo Arnold Schwarzenneger, felizmente… Ou infelizmente? Vendo a futura carreira do ex-Mister Universo, e seu papel atual de “Gobernator”, talvez seria melhor que James Cameron tivesse se mantido fiel à sua idéia original. Em seus primeiros tratamentos de roteiro, o Exterminador teria uma aparência quase comum, de alguém que conseguisse facilmente “desaparecer” numa multidão. Cameron já tinha até o ator perfeito para o papel: Lance Henriksen, o andróide de Aliens, o Resgate , que acabou ficando com o papel de um dos policiais de Exterminador.
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| "I'm the king of the world!!!" |
Como teria sido O Exterminador do Futuro sem o mastodôntico Arnold? Será que Meg Ryan teria conseguido se livrar da pecha de Rainha do Algodão Doce ao se meter num conto de fadas psicopata como O Silêncio dos Inocentes ? Laurence Olivier também teria enchido a boca de algodão para viver Dom Corleone? São perguntas que nunca vão ser respondidas. Para o bem e para o mal, a maioria das escolhas finais é sempre definitiva, e o cinema raramente permite uma segunda chance. A não ser que o seu nome seja Brosnan, Pierce Brosnan. O ator queria encarnar James Bond já em 1987, mas ele fazia a série de tv Remington Steele e os produtores não liberaram seu “passe”. Sobrou para Thimothy Dalton a honra de vestir o smoking do agente secreto, em 007 Marcado para a Morte . Mas o ator não gostou de ficar marcado como o personagem (e o público também não gostou do ator, diga-se de passagem) e depois de Licença para Matar , largou o papel para ficar relegado ao limbo dos filmes para TV. Pierce Brosnam, que já tinha se livrado deste mesmo limbo, era agora um ator livre para encarnar o personagem e se tornar o segundo melhor 007 da História – depois de Sean Connery, que, como todos os fãs concordam, é mesmo insubstituível. Prova de que nem todas as mudanças são para melhor… |